1244kWh poupados 1244 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

Pedro Medeiros: "Que cada fotografia te faça sentir qual é a experiência de estar preso"

Pedro Medeiros passou anos a fotografar o Estabelecimento Prisional de Lisboa, depois de Coimbra e das prisões políticas do Estado Novo. O resultado está na exposição “Estrela de Seis Pontas”.

Tudo começou em 2019, com um pedido de Pedro Medeiros dirigido à Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais (DGRSP) para fotografar o Estabelecimento Prisional de Lisboa. Já tinha tentado antes, daquela vez a autorização foi concedida. Durante anos, fez várias visitas ao espaço, desconhecido da generalidade das pessoas. Também fotografou, sem os identificar, alguns ex-reclusos, um guarda prisional aposentado e objetos guardados no Arquivo Histórico da DGRSP, como um punhal apreendido, no qual se lê a palavra “gratidão”. Tudo isso pode ser apreciado, agora, na exposição Estrela de Seis Pontas, patente no Arquivo Municipal de Lisboa / Fotográfico até 21 de fevereiro.

O projeto, centrado no Estabelecimento Prisional de Lisboa, convida a uma reflexão mais alargada acerca do sistema prisional português, explica Pedro Medeiros. Entre as pouco mais de 40 fotografias selecionadas para integrar a exposição, há uma que mostra o pénis de um ex-recluso, não de forma “gratuita”, sublinha o fotógrafo, mas porque tem tatuadas as cinco quinas do escudo português, que fazem parte da bandeira nacional e também são associadas às cinco chagas de Cristo. “Era uma praxis utilizada nas prisões, nas instituições militares e, muitas vezes, nos camaradas de guerra. Já todos as vemos menos, porque muitos presos deixaram de as fazer para não serem estigmatizados socialmente”, esclarece.

“Sozinho entre quatro paredes” é a legenda daquela fotografia, revela o autor, enquanto mostra, através de um desenho, como a quina ao centro está rodeada pelas outras quatro. Com isto, procurou mostrar as marcas que o cativeiro deixa, tanto na carne, como no espírito: “O corpo deste recluso tem várias marcas, de cirurgias, de amputações… Nunca mais és a mesma pessoa, a partir do momento em que és privada da liberdade e sentes que não pudeste fazer as coisas mais comuns, como estar só. O recluso tem sempre um companheiro de cela, um guarda-prisional, alguém que está com ele. Nem quando toma banho está só.”

A abordagem de Pedro Medeiros passa por captar “o espírito do lugar, aquilo que ele tem a comunicar”, e isso “é feito num exercício de silêncio, de reflexão, de deixar a fotografia acontecer”. No Estabelecimento Prisional de Lisboa, não foi diferente. O nome Estrela de Seis Pontas deve-se à arquitetura daquele espaço, baseada no modelo de construção panóptica, com uma torre central da qual irradiam seis alas.

Marcamos encontro numa cafetaria de Coimbra que deixa ver o casario com a Torre da Universidade lá no alto. Pedro Medeiros, conimbricense, é fotógrafo freelancer desde 1999. Ao longo do tempo, não ter rendimento certo nem saber com o que contar em termos profissionais passou de angústia a força. Ele explica: “A mãe de um amigo costumava dizer: aprende a guardar do riso para a chora. Implica uma disciplina muito grande, e às vezes há desequilíbrios, mas também é essa gestão entre o caos e o equilíbrio que procuro na fotografia. Os processos criativos acontecem na desordem. Isso também me alimenta. Faz-me ser mais exigente comigo, não me deixa acomodar”.

A sensação de ser vigiado 24 horas por dia

A abordagem de Pedro Medeiros, na fotografia, passa por captar “o espírito do lugar, aquilo que ele tem a comunicar”, e isso “é feito num exercício de silêncio, de reflexão, de deixar a fotografia acontecer”. No Estabelecimento Prisional de Lisboa, não foi diferente. O nome Estrela de Seis Pontas deve-se à arquitetura daquele espaço, baseada no modelo de construção panóptica, com uma torre central da qual irradiam seis alas.

“O panóptico foi uma ideia criada por um filósofo jurista do século XVIII, chamado Jeremy Bentham. A ideia era criar um sistema de vigilância tão forte e tão eficiente, num estabelecimento prisional, num hospital psiquiátrico ou numa determinada instituição, que permita que, na presença de um guarda ou sem a presença dele, o indivíduo recluso tenha consciência de que está a ser vigiado 24 horas por dia, mesmo que não esteja”, elucida Medeiros.

Em termos arquitetónicos, isso traduz-se na “criação de uma torre central da qual irradiam várias alas, que perfazem 360 graus”, prossegue o artista. “E, no centro do panóptico, o guarda prisional consegue ver tudo o que se passa em cada ala.” Acontece no Estabelecimento Prisional de Lisboa como no de Coimbra (com uma torre central da qual irradiam quatro alas, logo, em forma de cruz), ou no de Santarém (presídio militar entretanto desativado).

Estabelecimento Prisional de Lisboa

“Estou a apresentar um trabalho sobre um estabelecimento prisional que já há anos está sentenciado para fechar e que muito em breve vai encerrar, portanto, é uma oportunidade para as pessoas refletirem se este modelo de estabelecimento prisional serve ou não. Quem diz este modelo diz este modelo panóptico, e o tipo de condições que estes estabelecimentos prisionais têm”, defende o fotógrafo, ressalvando que “a Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais faz esforços para que haja renovações das alas, obras de recuperação”.

No seu entender, deve ser feita uma reflexão, por quem está ligado “à justiça, à sociologia, à antropologia”, tendo em conta o panóptico, com tudo o que significa em termos de opressão e vigilância, e a própria idade dos edifícios: “O Estabelecimento Prisional de Lisboa faz 140 anos neste ano e o de Coimbra tem 130 e tal”.

“O tema complexo do isolamento e do silêncio em espaços prisionais foi historicamente central na procura de um modelo de punição e controle através do qual o sistema judicial português, seguindo o exemplo de outros sistemas jurídicos ocidentais, acreditava ser possível induzir o indivíduo julgado e condenado a uma introspeção profunda e transformação moral, que possibilitassem uma mudança de comportamento, arrependimento e reabilitação”, escreveu, a propósito, Filipe Ribeiro, responsável pela curadoria da exposição, a par com Sofia Castro.

“O que sentes em relação a este local?”

Em Estrela de Seis Pontas, Pedro Medeiros foge ao registo documental e oferece diversas possibilidades de leitura. Apesar de ter pedido para captar imagens em espaços tão diferentes como o recreio, as celas de isolamento, os balneários, as enfermarias ou os parlatórios, numa tentativa de ser o mais abrangente possível, não lhe interessava retratar o quotidiano na prisão, nem captar rostos de reclusos (muitos dos quais lhe pediam para ser fotografados). Qual o objetivo, então? “Quero que cada fotografia te faça sentir qual é a experiência de estar preso”, responde. “Vejo-as como fotografias que te convocam, que te interrogam sobre os temas da consciência, da justiça, da vigilância, da punição. O que sentes em relação a este local?”

“Quando estás dentro de um estabelecimento prisional, deixas de perceber que horas são, só és alertada pela chamada para contar o número de presos, ou para comer. É como se tivesses um relógio que foi destruído, como se à entrada do estabelecimento prisional te tivesse sido roubado o tempo, ou tivesses entrado noutra dimensão temporal”.

Se há algo comum a todos os seus projetos é um trabalho aprofundado de investigação, assegura Medeiros: “Leio a história do estabelecimento prisional. Ponho-me a ler os autores clássicos da literatura que já estiveram presos. Vou ver filmes que têm a ver com o tema das prisões. Faço trabalho de campo”. Depois, a cada visita, segue um mapa de trabalho previamente estabelecido. Isto depois de cumprido o ritual de passar pelos sistemas de vigilância, tirar o cinto, tirar a máquina fotográfica, “para ver se não vais levar nada de ilegal nem cometer nenhuma maldade”.

Para lá daqueles muros, o fotógrafo experimentava a mesma sensação de tempo suspenso que os reclusos lhe confirmaram sentir: “Quando estás dentro de um estabelecimento prisional, deixas de perceber que horas são, só és alertada pela chamada para contar o número de presos, ou para comer. É como se tivesses um relógio que foi destruído, como se à entrada do estabelecimento prisional te tivesse sido roubado o tempo, ou tivesses entrado noutra dimensão temporal”.

O mundo da justiça e do sistema prisional não lhe é estranho, pelo contrário. O interesse por essa área começou em casa, ou não tivesse o pai dedicado a vida profissional à magistratura. Ouvia o então juiz desembargador comentar alguns casos e crescia nele a curiosidade. Desde cedo, conversou com o pai sobre assuntos legais, crimes, fez perguntas, pediu para acompanhar julgamentos e até para ir a festas e a reuniões com forças de segurança. Queria saber que delitos as pessoas haviam cometido, que penas lhes tinham sido aplicadas e porquê. Queria conhecer guardas e polícias, mas também réus. Escutar todas as versões.

“Sempre gostei das humanidades, dos direitos fundamentais, dos direitos humanos e de tudo o que tem a ver com a afirmação do indivíduo”, resume Pedro Medeiros. Essa inclinação tem-se refletido nas suas criações. Por exemplo, trabalhou, durante cinco anos, com a ONG Saúde em Português, tendo participado em campanhas de sensibilização para temas como o tráfico humano, a violência no namoro ou a igualdade de género. “Fez-me crescer, aprender e cimentar o respeito que temos que ter pelos outros e pela opção de cada um. Estamos a regredir, infelizmente, com o aparecimento de pensamentos da extrema-direita. Não compreendo como pode haver pessoas tão jovens com um pensamento tão fechado — quase faz lembrar os nossos avós ou bisavós”, observa. “Como é possível que se esteja a andar tanto para trás e a deitar abaixo tudo o que foi feito, praticamente, na segunda metade do século XX? É quase como se estivéssemos a trair as pessoas que lutaram pelos direitos humanos e, enquanto puder, vou estar ao serviço dessas causas.”

Ainda assim, Medeiros diz-se avesso a etiquetas, garante que não quer “doutrinar” ninguém e prefere deixar o trabalho aberto à interpretação. “A arte não tem de ser panfletária, mas cumpre uma função política e uma função social, mesmo que seja uma expressão completamente abstrata”, sustenta. Também gosta de fazer exercícios de experimentação. “Posso fotografar temas sociais, arquitetura, música, fazer trabalhos sobre questões de sexualidade, e posso fazê-lo a cores, a preto e branco, numa projeção de vídeo, utilizar slide… Tento não me restringir.”

“O Tarrafal foi como soltar a cavilha da granada”

Estrela de Seis Pontas não é, pois, o primeiro projeto de Medeiros em ambiente prisional. O clique deu-se numa visita ao Tarrafal, na ilha de Santiago, em Cabo Verde, para onde eram enviados presos políticos durante o salazarismo. Voz do Silêncio — Prisões Políticas Portuguesas materializou-se numa exposição e num livro, em 1999. “Fiz um périplo por todas as prisões do Estado Novo, da ditadura fascista de Salazar. Fotografei o Aljube, o Forte de Peniche, Caxias, as sedes da PIDE. Depois comecei a fotografar outras prisões também. Uma coisa são presos políticos, outra coisa são presos por delito comum ou delito social. É importante que essa distinção se faça, muito embora as coisas, às vezes, possam estar associadas.”

Medeiros diz-se avesso a etiquetas, garante que não quer “doutrinar” ninguém e prefere deixar o trabalho aberto à interpretação. “A arte não tem de ser panfletária, mas cumpre uma função política e uma função social, mesmo que seja uma expressão completamente abstrata”, sustenta.

“O Tarrafal foi como soltar a cavilha da granada, criar uma explosão, mas isso já existia dentro de mim, porque sempre gostei de pôr em causa a ordem, a autoridade, a justiça, a liberdade ou a falta dela, a comunicação ou a falta dela”, resume o fotógrafo. O seu currículo inclui ainda uma experiência no Estabelecimento Prisional de Coimbra, que fotografou, “de uma ponta à outra”, ao longo de dois anos. Esse trabalho deu origem, em 2009, à exposição Intro (para dentro, em Latim), instalada numa das alas. “As pessoas entravam como se fossem para a prisão, só que iam ver uma exposição de fotografia”, lembra o autor, que fez questão de pôr os convidados a comer e a beber pelos mesmos utensílios usados pelos presidiários, na inauguração.

Também tentou que os reclusos estivessem presentes na abertura de Intro, até porque ajudaram a montar a exposição e o livro decorrente dela foi encadernado numa das oficinas prisionais, com o mesmo tecido azul das suas roupas. Mas esse pedido foi negado, com a justificação de que estavam ali a cumprir pena, “não de férias”. “O prazer que queres ter na sociedade civil, no dia-a-dia, podes tê-lo. Um recluso está privado de o ter. Quando estás a fazer trabalhos em estabelecimentos prisionais, vais tomando consciência destas coisas”, conclui.

Visitas guiadas, um livro e uma palestra

O percurso de Pedro Medeiros na fotografia teve início em Coimbra, no festival Encontros de Fotografia, de cuja direção e organização fez parte. Logo aos 20 e poucos anos, pôde privar com grandes nomes da fotografia mundial. “Fiz o processo inverso: em vez de começar por estudar arte, primeiro fiz produção cultural, aprendi todas as etapas sobre como se organiza um festival de fotografia, desde contactar e acompanhar os fotógrafos até organizar as viagens, as conferências, as exposições”, recorda. “Estava a receber grandes mestres, com quem tinha oportunidade de falar. Era como gostares muito de cinema e, de repente, dizerem-te: hoje vais jantar com o [Martin] Scorsese.”

Só mais tarde Medeiros foi estudar fotografia. Chegou a trabalhar fora, primeiro em Londres, depois no Japão, para onde se mudou com a mulher, que foi dar aulas de Português em Quioto. “Tinha muito tempo e muita tranquilidade para fotografar. No Japão, ser professor é uma atividade muito nobre. Mergulhei a fundo naquela cultura riquíssima. Estávamos em Quioto, uma cidade cheia de história, antiga capital imperial do Japão e berço de uma série de expressões dramáticas e culturais.” Da experiência nesse país asiático trouxe um livro e uma exposição, Hiraki (luz).

Por estes dias, Pedro Medeiros ocupa-se da exposição Estrela de Seis Pontas, que tem entrada livre e pode ser visitada de segunda a sábado, entre as 10 e as 18 horas. Em jeito de complemento, há visitas guiadas, com a presença do autor e dos curadores Filipe Ribeiro e Sofia Castro. “O trabalho deles eleva o meu trabalho”, sublinha.

A próxima visita tem lugar no dia 22 deste mês, às 15 horas, estando previstas mais duas, em 11 de dezembro e 21 de fevereiro. São gratuitas, todavia, exigem marcação prévia (através do e-mail arquivomunicipal.se@cm-lisboa.pt).

Nos planos está ainda a edição de um livro/catálogo sobre a exposição, apresentado, no próximo dia 30, às 16 horas, no âmbito da Feira do Livro de Fotografia de Lisboa, que decorre ali mesmo, no Arquivo. Em data a anunciar, há de haver também uma palestra com a investigadora brasileira Viviane Trindade Borges, que tem estudado a história das prisões e coordena o Projeto Arquivos Marginais.

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.