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ILUSTRAÇÃO RODRIGO MENDES/OBSERVADOR

ILUSTRAÇÃO RODRIGO MENDES/OBSERVADOR

Procrastinação. Porque é que adiamos tarefas e decisões importantes?

Adiar intencionalmente uma tarefa importante tem pouco que ver com preguiça ou dificuldade em gerir o tempo. A ciência diz que procrastinar é, sobretudo, evitar emoções desafiantes.

Adiar uma tarefa, um compromisso ou uma decisão importante nem sempre é sinal de desorganização ou falta de vontade. Às vezes há assuntos mais urgentes, outras vezes o tempo não chega para tudo e adiar é inevitável – faz parte da gestão normal da vida e do trabalho.

Mas há outro tipo de adiamento: aquele que acontece quando a tarefa é prioritária, temos tempo para a fazer, mas escolhemos voluntariamente adiar, muitas vezes, focando-nos em tarefas secundárias ou distrações. A esse comportamento dá-se o nome de procrastinação. Pode ser concluir um relatório de trabalho com um prazo de entrega já curto, estudar para um exame marcado para daí a dois dias, responder a um email importante que está pendurado na caixa de entrada há uma semana ou tomar uma decisão sobre alguma coisa que nos inquieta.

Alguns estudos mostram que a procrastinação é muito frequente. Por exemplo, entre estudantes, um estudo realizado na Suécia, conclui que 71% dos participantes a consideraram um problema, sendo que, destes, quase 30% já ponderou procurar ajuda para lidar com essa questão. Já entre a população geral, estima-se que haja cerca de 20% de procrastinadores crónicos, ou seja, pessoas que adiam sistematicamente tarefas importantes, apesar das consequências negativas.

Com frequência, os procrastinadores procuram ferramentas de combate à procrastinação focadas no planeamento e organização, no combate a distrações, na gestão de prioridades e em estratégias de produtividade. Geralmente nada disso resulta e por uma razão simples: “a procrastinação não é um problema de gestão de tempo, mas antes de regulação emocional”, defende Fuschia Sirois, psicóloga da saúde e social, professora e investigadora da Universidade de Durham, no Reino Unido, que tem vários artigos a publicados sobre o tema, bem como dois livros, um técnico, outro para o público geral.

O trabalho da investigadora – e de outros colegas – defende que a procrastinação não é preguiça já que o que estamos verdadeiramente a adiar não é a tarefa em si, mas antes as emoções que lhe estão associadas “A procrastinação é uma forma de evitamento, usada para lidar com emoções desagradáveis. Quando adiamos a tarefa que nos está a provocar emoções negativas e desconfortáveis, sentimos um alívio imediato. Conseguimos regular as nossas emoções, mas de forma muito passageira e ineficaz”, explica.

Com frequência isso acontece quando “pensar no que temos para fazer nos deixa nervosos, stressados, frustrados, com medo de falhar — ou simplesmente com a expectativa de que vai ser entediante.”

“Depois de procrastinar, as pessoas sentem vergonha e culpa. A intensidade dessas emoções e o tempo que duram depende da natureza da tarefa e das consequências de não a concluir. Quando são tarefas mais importantes e em que há mais em jogo, as pessoas tendem a sentir mais culpa e vergonha — o que acaba por se somar às emoções negativas que já tinham e [paradoxalmente] pode levar a mais procrastinação.”
Fuschia Sirois, professora e investigadora da Universidade de Durham (Reino Unido)

Do ponto de vista psicológico, inicialmente, não há muita diferença no processo envolvido entre procrastinar tarefas rotineiras – como acabar um relatório ou marcar uma consulta médica – ou procrastinar em grandes decisões, como terminar uma relação ou mudar de carreira. Trata-se, em ambos os casos, de adiar uma coisa percecionada como aversiva ou desafiante. No entanto, depois de procrastinarmos, podem surgir diferenças na forma como reagimos ao adiamento e às suas consequências — o que pode ditar se continuamos a procrastinar ou não.

“A investigação mostra que, depois de procrastinar, as pessoas sentem vergonha e culpa. A intensidade dessas emoções e o tempo que duram depende, muitas vezes, da natureza da tarefa e das consequências de não a concluir”,  refere Fuschia Sirois. “Por isso, quando se trata de tarefas mais importantes e em que há mais em jogo, as pessoas tendem a sentir mais culpa e vergonha — o que acaba por se somar às emoções negativas que já tinham e [paradoxalmente] pode levar a mais procrastinação.”

Sem surpresa, são conhecidas algumas relações entre características de personalidade e a tendência para procrastinar. Há estudos que mostram que as pessoas que têm níveis mais altos de neuroticismo – isto é, menos estabilidade emocional e maior tendência para sentir ansiedade, irritabilidade e frustração – são mais procrastinadoras. Além disso, algumas perturbações do neurodesenvolvimento, como o défice de atenção, ou doenças mentais, como a perturbação de ansiedade ou a depressão estão associadas a mais comportamentos procrastinadores.

Assim, as estratégias mais eficazes para abordar a procrastinação, defende a investigadora e autora, passam pela autocompaixão e pela aceitação das emoções negativas. “Qualquer abordagem que ataque apenas o comportamento, sem considerar as emoções que o sustentam, está condenada ao fracasso”, alerta. “A procrastinação é uma resposta irracional, por isso, tentar lidar com ela apenas de forma racional não resulta a longo prazo. Primeiro, é preciso tomar consciência das emoções que estão a conduzir o comportamento e encontrar formas mais eficazes de lidar com elas.”

Quando estarmos mais atentos e conscientes dos nossos estados emocionais negativos, geralmente conseguimos encontrar formas mais construtivas de lidar com eles do que simplesmente adiar.

Mental é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a Saúde Mental. Resulta de uma parceria com o Hospital da Luz e com a Johnson & Johnson Innovative Medicine e tem a colaboração do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos Portugueses. É um conteúdo editorial completamente independente.

Uma parceria com:

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Com a colaboração de:

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