1231,5kWh poupados 1231,5 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

Quando Ganavya canta, a música é oração 

Ganavya Doraiswamy está prestes a apresentar-se pela primeira vez em Portugal. A 15 de outubro no Porto e a 16 em Lisboa vamos escutar as canções-oração de “Nilam” e também de “Daughter of a Temple”.

Na língua milenar tâmil, “Nilam” significa “Terra”. Na língua de Ganavya Doraiswamy, “Terra” significa algo muito maior do que “as nossas vidas e desejos egoístas”: “Para mim, Terra representa o potencial infinito que este mundo tem para amar, nutrir e regenerar e, simultaneamente, o modo como uma espécie tão pequena como a nossa pode matar de forma tão irresponsável e irrefletida”. Nilam é, assim, um desabafo milenar da própria Terra, um álbum muito maior do que nós.

O disco, produzido por Nils Frahm nos Funkhaus Studio, em Berlim, sucede a Daughter of a Temple, considerado um dos dez melhores álbuns de 2024 pelo The Guardian. Tanto um como outro foram apontados para a lista dos Grammy do próximo ano, nas categorias de Melhor Álbum New Age e Melhor Álbum Jazz, respetivamente, e serão centrais nos concertos de dia 15 de outubro, na Casa da Música, no Porto, e de dia 16, no B.Leza, em Lisboa.

[Ganavya Doraiswamy ao vivo nos estúdios da rádio americana KEXP:]

É a primeira vez que Ganavya, que em 2020 se tornou na primeira artista a cantar em tâmil a vencer um Grammy Latino, pelo tema Tocororo, do pianista cubano Alfredo Rodríguez, pisa palcos portugueses. Será um presságio de algo maior? “Ainda não é oficial, mas talvez eu e o meu marido nos mudemos para Portugal”, partilha com o Observador, a partir da casa dos pais, na Flórida, nos Estados Unidos.

Ela, cujo nome significa aquela que nasceu para espalhar música, saltou para os holofotes em 2023. Ao interpretar o hit Ever So Lonely das Monsoon, no concerto dos Sault, em Londres, a artista indo-americana assombrou o público e a crítica que, desde então, têm prestado atenção a cada movimentação sua. “A minha vida depende de cantar. De outra forma, o mundo torna-se demasiado pesado para aguentar”. O encanto de Ganavya Doraiswamy está, precisamente, em cantar como quem respira: é essa a sua forma de não desistir da Terra, dos Homens e do Amor, mesmo sabendo que a condição humana, matéria imperfeita de que todos somos feitos, pode ser cruel e destrutiva.

“Tudo o que é bem feito é uma oração”

Para entender a obra de Ganavya, é preciso olhar para as suas raízes. Nascida em Queens, em Nova Iorque, a artista de 34 anos mudou-se ainda em criança para o estado de Tamil Nadu, no sul da Índia. Aí, foi educada segundo a tradição do harikatha, um modo de contar histórias através da poesia, da música, do teatro, da dança e da filosofia, muito associada à transmissão oral de conhecimento. Com a família, aprendeu também as bases da música carnática, uma vertente clássica da música indiana, bem como a entoar abhangs, poemas-mantras originários do século XIII que acompanham os peregrinos hindus durante a grande peregrinação anual até Pandharpur, no estado de Maharashtra.

"Parte do problema da indústria musical é a do mito do herói, a do artista primogénito que cai de uma árvore porque é absolutamente brilhante e merece toda a tua atenção. Mas nenhum artista é independente do seu ecossistema."

Não é de estranhar, portanto, o tom devocional que envolve a música de Ganavya, para quem “tudo o que é bem feito se pode tornar — ou é — uma oração”. Isso tanto se aplica a Pasayadan, versos-reza escritos pelo poeta e santo hindu Jnaneshvar Maharaj e que antecipam o final de Nilam, como ao poema Land que abre o disco, da poeta e ativista americana, filha de pais palestinianos, Suheir Hammad; ou a Sees Fire, palavras simples e precisas escritas pela própria Ganavya, desejando encher de terra farta o futuro das crianças que crescem entre escombros: “a child sees fire / where there should be earth / little one I wish u could build you a palace / tine [kindle] the right fires in you” (Uma criança vê fogo / onde deveria haver terra / meu pequeno, oxalá pudesse construir um palácio / que acendesse os fogos certos em ti).

Nilam conta-se e canta-se em sete canções, interpretadas em inglês, tâmil e marati antigo e encadeadas como profecias de um salmo maior. Feito de crosta, manto e núcleo, é um álbum “pensado como objeto único” e que nos devolve o chão e a capacidade de sonhar, tal e qual uma peregrinação. O dedo de Nils Frahm, capaz de extrair luz da mais sombria nota, foi essencial nesta quimera: “Ele é uma pessoa muito precisa, cuidadosa e profundamente intuitiva. É um músico muito talentoso e humano e eu sou uma sortuda por ter podido passar tempo com ele”, refere.

“Nenhum artista é independente do seu ecossistema”

Além do músico e compositor alemão, com quem andou em digressão pela Austrália, Ganavya soma um impressionante rol de colaborações. Em 2024 lançou Like the Sky I’ve Been Too Quiet pela editora do músico britânico Shabaka Hutchings, com quem tocou, a par de Floating Points e do multi-instrumentista Carlos Niño, coprodutor de André 3000 em New Blue Sun (2023).

▲ "A minha vida depende de cantar. De outra forma, o mundo torna-se demasiado pesado para aguentar"

Carlos Cruz Sol

Com Daughter of a Temple, homenagem soberba ao jazz espiritual de Alice Coltrane, elevou a fasquia, reunindo no espaço de uma semana 30 artistas multidisciplinares, entre eles o pianista e compositor Vijay Iver, o saxofonista Immanuel Wilkins, o encenador Peter Sellars, Wayne e Carolina Shorter, protagonistas da comovente canção-prece Elders Carolina and Wayne, ou Esperanza Spalding, contrabaixista com quem viveu “um ano ou dois” nas montanhas, em Oregon, e que a marcou profundamente.

“Qualquer contrabaixo que eu toque, é por causa dela. Acho que os melhores professores são aqueles que mudam a tua vida só pela forma como vivem. Apesar de eles estarem lá para ti, apesar de te mudarem, apesar de merecerem o direito de dizer que te mudaram, os melhores professores que encontrei nunca quiseram reivindicar os direitos para si. A Esperanza mudou a minha vida, não necessariamente pela sua música, mas pela forma como vive o dia-a-dia”.

A experiência de tocar e partilhar o espaço com outros músicos revelou-se para Ganavya mais importante do que os muitos cursos que tirou desde que regressou aos Estados Unidos, com 14 anos. Teatro, Psicologia, Performance Contemporânea, Etnomusicologia, um doutoramento em Harvard volvidos, a artista percebeu que a sua força residia no coletivo e não numa qualquer deriva individualista ou manifestação de poder. “Parte do problema da indústria musical é a do mito do herói, a do artista primogénito que cai de uma árvore porque é absolutamente brilhante e merece toda a tua atenção. Mas nenhum artista é independente do seu ecossistema.”

Nilam conta-se e canta-se em sete canções, interpretadas em inglês, tâmil e marati antigo e encadeadas como profecias de um salmo maior. Feito de crosta, manto e núcleo, é um álbum “pensado como objeto único” e que nos devolve o chão e a capacidade de sonhar, tal e qual uma peregrinação.

Desde que lançou Aikyam: Onnu, em 2018, mais colado às métricas clássicas do jazz ocidental, até Nilam, um sopro absoluto de liberdade e experimentação, Ganavya vem trabalhando a sua obra como um bem coletivo, agregando em torno de si o templo que a erigiu, seja ele artístico ou familiar. Não por acaso, canta ao lado dos pais, Ganesan e Vidya Doraiswamy, Nine Jeweled Prayer, da mesma forma que cantou com o pai Om Namah Sivaya, em Daughter of a Temple.

“Há tanta coisa que eu gostava de fazer aos meus pais: sentar-me e lavar-lhes os pés, falar com eles com calma, abraçá-los, mas, ao invés, estou a mover-me a um ritmo rápido sem querer admitir que um dia vou abrir os meus olhos e eles não vão estar aqui. Eu sei disso, da mesma forma que sei que cada garrafa de plástico a mais está a matar a Terra e, ainda assim, provavelmente a meio da noite, se tiver sede, vou abrir uma garrafa e beber água. O lado otimista disto é que, mesmo assim, ainda tentamos ser melhores. No dia em que pararmos de tentar, estaremos mesmo em perigo.” Por ora, ainda há esperança. Enquanto Ganavya cantar, haverá sempre uma chama certa a acender-se na Terra, a acender-se dentro de nós.

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.