Cidade do Mindelo, ilha de São Vicente, Cabo Verde, março de 2025. Na terra de Cesária Évora — referência insuperável da música e da cultura cabo-verdianas, que apresentou ao mundo o pequeno arquipélago africano — fazem-se obras na casa onde viveu grande parte da vida. É uma habitação imponente, maior do que todas as casas vizinhas, com uma placa oval de metal afixada no muro. “Casa Cesária Évora”, lê-se na inscrição, junto ao rosto da cantora que ficou conhecida como a “diva dos pés descalços”, pela maneira como subia aos palcos, fosse num bar de mornas em Cabo Verde ou numa sala sumptuosa como o Grand Rex de Paris.
Há anos que estava fechada. Enquanto Cesária Évora era viva, até ao ano de 2011, aquela era uma casa de portas abertas. Tal como boa parte dos seus compatriotas, a cantora fez carreira lá fora, mas procurou retribuir aos seus. Eram muitos os que a visitavam no Mindelo, procurando o seu apoio financeiro e a sua capacidade para resolver problemas. Quase 15 anos depois, a Casa Cesária Évora está novamente aberta e disponível para receber os outros. No final de abril, foi lá inaugurada a exposição Voz de Ouro, onde se podem ver os seus discos de ouro e platina, que dão conta do seu impacto global, ou prémios importantes como o Grammy que conquistou em 2004 e os galardões atribuídos pelo governo francês.
Até ao final do ano, deverão começar as obras para musealizar aquela casa e torná-la verdadeiramente na Casa Museu Cesária Évora, aberta ao público de forma permanente, o que coincide com a postura que Cize, como era carinhosamente conhecida, manteve sempre ao longo dos seus 70 anos de vida.
Uma casa-museu que quer ser um dos maiores pontos turísticos e culturais de Cabo Verde
Este é um projeto da Associação Cesária Évora com o apoio técnico do Centro Nacional de Arte, Artesanato e Design (CNAD) e o financiamento do governo de Cabo Verde e do Banco Mundial. À frente da associação, criada em 2004, está a neta de Cesária, Janete Évora, que aos 34 anos é nutricionista e técnica de inspeção alimentar na capital cabo-verdiana, a cidade da Praia.
▲ Mural dedicado a Cesária Évora, da autoria de Vhils, no Mindelo
LUSA
“A casa tem um potencial enorme. Não só pelo espaço que tem, já que a área é enorme, mas porque vai dar para explorar muitas coisas”, conta ao Observador Janete Évora. “Queremos ter uma exposição permanente, exposições temporárias, ter uma editora de discos sediada na casa, um projeto de residências artísticas nalguns dos quartos… Com tantos quartos, nem sabíamos o que fazer com a casa. Só mesmo com um projeto assim. Acredito muito na energia e no ambiente dos espaços, tenho a certeza de que aquela casa poderá inspirar outros artistas. Até porque ela trabalhava em casa, era lá que fazia os ensaios. E vamos ter também uma loja de souvenirs. Numa fase mais avançada, gostava muito de ter um restaurante panorâmico. O terraço é enorme e a vista é linda. Poderíamos ter a culinária cabo-verdiana e concertos. Como fica no centro da cidade, tem tudo para dar certo.”
O processo para abrir ao público a casa onde Cesária Évora viveu, tornando-a num museu com outras valências, arrastou-se ao longo dos últimos 13 anos. Finalmente, tem luz verde para avançar, com um projeto de arquitetura desenhado em França e já aprovado — acredita-se que poderá tornar-se num ponto de referência turístico cada vez mais determinante.
“É extremamente importante porque acreditamos que vamos criar um novo ponto turístico-cultural na ilha de São Vicente e em Cabo Verde”, diz, em declarações ao Observador, o ministro da Cultura e das Indústrias Criativas de Cabo Verde, Augusto Veiga. “Vem numa boa altura porque acabámos de inaugurar o Terminal de Cruzeiros do Mindelo. Acreditamos que isso vai fazer disparar o número de turistas e, mesmo sem a casa ter nada, já havia um grande número de turistas a querer visitá-la. Acho que se vai tornar numa referência cultural e turística muito importante.”
Desde 2015 que existe na cidade, não muito longe, o Núcleo Museológico Cesária Évora. Ocupa uma habitação pública, que fora cedida pela câmara municipal a Cesária Évora, no âmbito de um programa de apoio aos artistas. Assim que as obras estiverem concluídas, o espólio que está exposto no núcleo — e muitos outros itens, que estão guardados pela família — serão colocados na Casa Museu Cesária Évora, centralizando tudo naquele espaço. “Entendemos que o Núcleo Museológico, que por agora ainda está aberto, não tinha a dignidade total para ter o espólio”, acrescenta o ministro Augusto Veiga.
Janete Évora comenta no mesmo sentido. “Fui gestora do núcleo durante três anos, mas sempre foi um núcleo temporário para no futuro termos a casa-museu. Só que, com o tempo, foi ficando bloqueada. Era como se já existisse um museu e não era preciso fazer mais. Mas aquela casa não a representava, ela não tinha uma ligação com aquela casa.”
Com os anos e as distâncias geográficas, conta, perderam-se alguns objetos da sua avó. “Alguns objetos foram desviados, a minha mãe também estava em França, e não temos a totalidade das coisas que queríamos. Mas criei uma sala de arquivo com a ajuda do CNAD para conservar as peças que temos, e temos objetos pessoais, o copo de esmalte que ela usava sempre, o garfo que só ela podia usar, o prato em que comia. Também temos muitas roupas dela. Ela era muito simplista, mas tinha várias coisas, várias manias, que a tornavam única.”
Crescer como a neta de Cesária Évora, uma “diva acessível”
“Mnininha di nha korason/nitinha di nha benson (…) N ta kanta bo ta dansa, un dansa de felisidade”, canta Cesária Évora em Esperança Irisada, uma música dedicada à sua “netinha”, Janete. A cantora cabo-verdiana nascida em 1941 teve três filhos, fruto de diferentes relações. Com um português que não mais viu teve Eduardo Évora, ainda não tinha 18 anos. Mais tarde, teria uma menina que morreu aos dois anos, e a sua filha Fernanda, a mãe de Janete e do seu irmão, Adilson.
▲ Cesária Évora com a neta, Jante Évora, em fotos de família
“Ela teve dois filhos e dois netos, é um núcleo pequeno para Cabo Verde”, conta Janete Évora, que tanto morou com os pais na casa que hoje acolhe o Núcleo Museológico Cesária Évora como morou com a avó naquela que será a futura casa-museu. Foi a própria Cesária Évora que mandou construir aquela casa. “Antigamente, aquele terreno tinha duas pequenas casas”, explica a neta. “Ela morava numa, a família tinha o aluguer. Depois fez a sua vida, arrendou várias outras casas, mas quando veio a fama a primeira coisa que fez foi comprar aquelas duas casas para mandar abaixo e construir aquela mansão.”
Janete passou a infância com a avó. Cesária Évora não cantava para a família, mas como os ensaios aconteciam em casa, a sua vida artística misturava-se com a familiar. “Ela cantava e eu estava sempre a dançar”, recorda Janete. “Por isso é que ela canta sobre isso na Esperança Irisada”, diz a neta, que confessa nunca ter tido jeito para a música. “A minha avó brincava comigo. Eu dizia-lhe: ‘dá-me dois mil escudos para eu cantar’. E ela dizia: ‘dou-te três mil para ficares calada, minha filha’. De tão desafinada que era a minha voz! Até agora, ainda mais ninguém na família canta. Mas eu estava nos ensaios e fazíamos um concurso para ver quem é que conseguia decorar mais rápido as músicas. Ela vencia sempre, tinha uma capacidade de memorização incrível, ouvia uma ou duas vezes e já sabia tudo!”
Por contraste com a grande maioria das famílias do Mindelo — e de Cabo Verde no geral — Janete cresceu numa casa com um mordomo e um cozinheiro privado. “Havia um motorista que me levava à escola, isso não condizia com a realidade de Cabo Verde, fazia-me muita confusão”, explica, referindo-se sobretudo à adolescência. Na infância, quando partilhava a casa com a avó e outros familiares, as visitas eram frequentes e Janete assumia o cargo de “secretária” pessoal de Cesária.
“A porta ficava aberta para receber as pessoas. Eu ia lá com uma caneta e um papel: ‘qual é o seu nome? Qual é o assunto?’ E fazíamos uma triagem para ver o que era importante ou não. Ou era uma senhora que precisava de uns óculos, ou um senhor que precisava de um medicamento urgente para o filho. Eram coisas assim, tipo assistência social. Por isso é que, mais tarde, eu disse sempre: a casa tem que estar aberta. Porque ela sempre foi de deixar a porta aberta. Todas as pessoas sabiam quando a Cesária tinha chegado a São Vicente, ela abria a porta para receber todos, assim deve continuar. Era uma diva acessível.”
Janete Évora conta que só se foi apercebendo da “grandiosidade” da avó com o passar dos anos, à medida que ia crescendo. “A primeira vez que a ouvi cantar foi numa sala da ONU, em França, só com grandes personalidades. Quando fui estudar para fora, no Brasil, fiz uma coisa muito típica, que é ouvires música do teu país quando estás fora. E ouvia a minha avó e muitos outros cantores para manter aquela ligação. Mas, na minha mente, era só a minha avó, não conseguia fazer a ligação com aquela cantora famosa. Nesses tempos no Brasil, fui representá-la num evento em que estava o Lula, que a quis distinguir. Quando estive em França, e morei lá dois anos, as pessoas não acreditavam quando lhes dizia que era neta da Cesária Évora, achavam que era mentira. E assim percebi o quanto ela parecia inacessível naqueles sítios. Por isso é que os turistas não entendiam, quando iam de férias, e viam que a porta dela estava aberta. Até choravam quando entravam. Imaginavam que os ídolos deles eram super-estrelas inacessíveis, mas com a minha avó não.”
▲ Cesária Évora ao vivo nos Países Baixos em 2000; e Janete Évora, a neta da cantora caboverdiana
Redferns
Sobre a avó, diz que não havia grandes diferenças entre a pessoa que conhecia no seio familiar e a imagem pública que o mundo tinha da cantora. “Ela era muito transparente, mostrava bem o que era e não fazia questão de esconder. No filme [o documentário Cesária Évora, de 2022, realizado por Ana Sofia Fonseca], mostrou-se também o lado da sua bipolaridade, e acho que ela nunca entendeu a complexidade de tudo o que viveu. Também recebi o meu diagnóstico em 2018, e depois de o entender, e de ver as fases por que ela passou, a minha admiração por ela só cresceu ainda mais. Conseguir ser funcional àquele nível, trabalhar e levar a sua arte para a frente, lidando com os episódios, até porque teve um período enorme de depressão… A minha admiração só cresceu.”
Manter o legado vivo
Fundada em 2004, sete anos antes da sua morte, a Associação Cesária Évora foi estabelecida para que a cantora conseguisse proporcionar bolsas de estudo a jovens artistas cabo-verdianos. Depois de alguns anos praticamente sem atividade, Janete Évora acabou por ficar à frente do projeto entre 2016 e 2017. As principais iniciativas que realizam desde então são de homenagem e preservação do seu legado.
Nos últimos anos, têm organizado em São Vicente, no aniversário da morte de Cesária Évora, a Semana da Sodade — com concertos de entrada gratuita, numa lógica solidária e de voluntariado. “Eu tenho o meu trabalho e os meus filhos, o [agente e editor] Djô da Silva, que é outro dos principais membros, também. E depende sempre muito da nossa disponibilidade. Seja como for, em dezembro temos sempre atividades, é um acordo que temos e movemos tripas e corações. Temos serenatas, passeios, fazemos distribuição de bens aos mais carenciados. E é com a ajuda de todos. Por exemplo, o rapaz que monta os palcos diz que faz um preço especial porque é para ela. Temos artistas como a Elida Almeida ou a Lura, grandes vozes da música cabo-verdiana, a atuar sem cachet. Aos poucos, vamos conseguindo. No ano passado, já tentámos fazer algo na cidade da Praia, mas foi só a distribuição de cachupa. Mas o nosso objetivo era tentar que acontecesse ao mesmo tempo em todas as ilhas. Porque a Cesária não é só de São Vicente nem do Mindelo, é de Cabo Verde. Continua como um sonho.”
Depois do Mindelo, a exposição Voz de Ouro será instalada na cidade da Praia, na ilha de Santiago, onde vive a maior parte da população residente no arquipélago. A ideia é que, numa terceira fase, seja trazida para Portugal. “Já estamos em contacto com o Centro Cultural de Cabo Verde em Lisboa”, revela Janete Évora.
A neta de Cesária diz que gostaria de levar a mostra aos principais países por onde a cantora passou, deixando a sua marca, refazendo os seus passos com um tributo ao seu legado. “Seria bom fazer essa tour com a exposição, para que ela esteja sempre viva, que o seu legado continue. As pessoas que mais gostavam dela já estão a ficar mais velhas, então temos de chegar aos mais novos, temos de manter essa memória viva. Por isso também queremos desenvolver projetos educativos. Em dezembro, também costumamos ter um programa em que os alunos na escola escrevem cartas e fazem desenhos para ela, na época do Natal. A criança que tiver a carta mais bem escrita pode receber o presente que pediu. E isso leva-os a pesquisar e a saber quem foi a Cesária.”
Perguntamos-lhe se a avó demonstrou interesse nestas iniciativas que preservam o seu legado e lhe prestam homenagem, ou se na verdade a cantora era desapegada em relação à sua obra e ao seu ofício. “Faço muito essa pergunta a mim mesma. Principalmente na semana das atividades, em que costumo ter crises de ansiedade. Na altura em que estou a passar mal com tanta coisa a acontecer, pergunto-me: ‘mas ela pediu isto? Chegou a verbalizar?’ E chego sempre à conclusão de que ela era muito simples, acho que ela não faria questão. Ela era tão prática que nos deixava perplexos, nós complicamos muito as coisas mas ela não. Então, acho que não faria questão, mas também ficaria feliz de ver o trabalho que estamos a fazer. Porque também ficava feliz e dizia coisas como ‘ouve esta música que fiz com aquele fulano’ ou ‘você acredita que esta pessoa é meu fã?’ ou ‘Não sei quem visitou-me ou perguntou por mim’. Ela não se conseguia ver com aquela grandiosidade toda, mas acho que iria ficar feliz de ver o esforço para manter o seu legado vivo.”