Longe vão os tempos em que um disco de Kanye West era um simples acontecimento musical. De certa forma, apetece chamar-lhes bons velhos tempos. Hoje, cada passo de Kanye é escrutinado, por ele e pelo mundo, até à exaustão. Há toda uma economia de conteúdos que prospera neste tempo de loucos que fez da insanidade de uns quantos a secção de entretenimento de todos. Donald Trump, Bruno de Carvalho e Kanye West entram num bar e… já lá estava um repórter da CMTV. Não tem piada nenhuma.

Lembram-se? O que distinguiu Kanye West antes do pântano mediático em que o próprio se afundou com as suas personas, os problemas psicológicos e o alto patrocínio da escola informativa TMZ? P.S. — Estão bem uns para os outros. Lembram-se? Já ninguém parece associar Kanye a esse tempo, nem mesmo o próprio, mas muito antes disto tudo, Kanye West era tão somente um extraordinário criador de beats e um rapper absolutamente respeitável. Já era dono de um senhor ego, mas a coisa assumia os contornos cómicos de alguém em exercício de auto-engrandecimento. Ainda assim, ninguém lhe ficava indiferente.

Há anos que isso é material de talk shows. Quem quer que se cruzasse no seu caminho ganhava rapidamente a mesma convicção: Kanye West estava destinado a ser grande — pelos vistos, grande demais para o seu próprio bem. Poucos nomes saídos do rap norte-americano ou até da música pop feita nos últimos anos espelham ou definem de forma tão crua, absurda e até assustadora a perversa relação entre os media e as celebridades na era do oversharing. E poucos terão alimentado essa relação como Kanye. Para ele, isto é alta competição.

A capa de “ye”, o novo disco de Kanye West

Relembre-se: um produtor extraordinário e um rapper respeitável. Este disco é mais do mesmo e isso é bom. É um sinal evidente da vitalidade criativa de um génio que sobrevive às tormentas ou prospera no meio dessa tempestade. É conforme o dia, como nos diz este indivíduo auto-denominado bipolar na capa do novo disco, ye, cuja capa, conta a mulher Kim Kardashian, terá sido criada a caminho de uma listening party no meio das montanhas entre amigos e conhecidos. Diz assim: “I hate being bipolar it’s awesome”, algo como “odeio ser bipolar é fantástico”, uma assunção que tem tanto de humorística quanto de justificação.

ye é um disco musicalmente rico e emocionalmente complexo que nos faz abrandar para melhor compreender Kanye West, for better or for worse (já lá vamos). Um acidente que ganha sentido sempre que Kanye entra em estúdio. Ouvimos ye meia dúzia de vezes. Sim, meia dúzia de vezes. São sete faixas e menos de 24 minutos. Não estranhem. É mais um sinal dos tempos. Economia da atenção oblige, ou, como Pusha T explicava há uns dias, “man, if we can’t kill you in seven songs, we don’t really need to be doing the music”. Têm toda a nossa atenção.

“I Thought About Killing You”

Talvez o Kanye mais confessional que já ouvimos. Discurso direto em frente a um espelho que há muito passou a ter o mundo inteiro do lado de lá.

The most beautiful thoughts are always besides the darkest
Today I seriously thought about killing you
I contemplated, premeditated murder
And I think about killing myself, and I love myself way more than I love you, so…

Today I thought about killing you, premeditated murder
You’d only care enough to kill somebody you love
The most beautiful thoughts are always inside the darkest
(Mhm—mhm—mhm—mhm—mhmm)

Just say it out loud to see how it feels

O pitch da voz sobe e desce para acompanhar as palavras, o peso das mesmas, as diferentes vozes no cérebro de Kanye que disputam a nossa atenção por cima de um “I know” cantado pelo Francis do projecto Francis and the Lights. É um perturbador exercício de self-consciousness em que Kanye admite ser um narcisista com um nó cego no cérebro, mas nem por isso enjeita a hipótese de se deixar levar pelos seus pensamentos, os mais sombrios que já o ouvimos partilhar em estúdio. É sobre amor próprio, suicídio e homicídio. Só perto dos 3 minutos percebemos que não é um disco de spoken word. A faixa desagua nuns graves a que se sobrepõe um beat sintético e Kanye a sambar na cara dos inimigos, que é como quem diz, a rappar de forma imaculada sobre o beat até ele nos deixar abruptamente.

“Yikes”

Kanye não é dono de uma senhora voz e talvez por isso algumas das suas peças cantadas me aborreçam, mas a verdade é que “Yikes” casa bem a voz de Kanye com um beat de sample cortado às postas. O refrão com que arranca a faixa faz lembrar “Stronger” e será repetido até cantarmos todos com ele:

Shit can get menacin’, frightenin’, find help
Sometimes I scare myself, myself
Shit can get menacin’, frightenin’, find help
Sometimes I scare myself, myself

Não há demónios escondidos no armário. “Yikes” é sobre os altos e baixos da toxicodependência e intoxicação. Os baixos, como sabemos, incluem o ódio, mas a reflexão termina com Kanye West a comparar a bipolaridade a um super poder. Gostava de voz dizer que fiquei preocupado com ele, mas a verdade é que estava mais atento ao beat.

“All Mine”

Infidelidade à vista de todos, com direito a namedropping: Kerry Washington, Naomi Campbell, Stormy Daniels são referidas sobre uma produção minimalista que alude de forma desempoeirada às ciências da vida, conforme entendidas por uma celebridade recém chegada aos 40:

Yeah, you supermodel thick
Damn, that ass bustin’ out the bottom
I’ma lose my mind in it
Crazy that medulla oblongata
Get to rubbin’ on my lap
Get the genie out the bottle

Let me hit it raw like fuck the outcome
Ayy, none of us would be here without cum
Ayy, if it ain’t all about the income
Ayy, let me see you go ahead and spend some

Ayy, if you driving round in some Dri-Fit
Ayy, I’ma think that you the type to dry snitch
Hm, mhm, if I see you pull up with the three stripes
Ayy, ayy, I’ma fuck around and make you my bitch

Estes rappers egomaníacos são um pagode. Ainda há pouco falava em matar alguém ou matar-se e agora discorre sobre sexo com supermodelos. Kanye reinventou a expressão popular: haja saudinha mental.

“Wouldn’t Leave”

Sem darmos por isso já vamos a meio do disco e é evidente que Kanye continua a saber incorporar melodias em beats como mais ninguém. PARTYNEXTDOOR e Jeremih emprestam as suas vozes a um clássico instantâneo de R’n’B cujas notas fazem lembrar coisas de Late Registration e quejandos, ainda que os versos sejam sobre 2018:

They say, “Build your own,” I said, “How, Sway?”
I said, “Slavery a choice,” they say, “How, Ye?”
Just imagine if they caught me on a wild day
Now I’m on fifty blogs gettin’ fifty calls
My wife callin’, screamin’, say, “We ‘bout to lose it all!”

Had to calm her down ‘cause she couldn’t breathe
Told her she could leave me now, but she wouldn’t leave

(…)

Oh, don’t bring that up, that’s gon’ get me sentimental
You know I’m sensitive, I got a gentle mental
Every time something happen, they want me sent to mental
We had an incident but I cover incidentals
You want me working on my messaging
When I’m thinkin’ like George Jetson but sounding like George Jefferson

Then they questioning my methods then
If you tweakin’ out my texts again then I don’t get reception here
I got the mind state to take us past the stratosphere
I use the same attitude that done got us here
I live for now, I don’t know what happen after here

A coisa é tão sedosa que damos por nós a perdoar as idiotices ditas recentemente por Kanye West, a maior das quais quando definiu a escravatura como uma escolha. E não somos os únicos a perdoar. Esta é dedicada a Kim Kardashian, uma mulher que pode ter muitos defeitos mas aturar Kanye West não será certamente um deles. Ele agradece:

“For better or for worse”, huh?
For every damn female that stuck with they dude
Through the best times, through the worst times
This for you

Nunca pensei vir a dizer isto, mas, bem vistas as coisas, somos todos Kim Kardashian. Kanye diz os maiores disparates, choca, ofende, chega mesmo a magoar, mas no final é só mais um humano que erra como todos nós. E nós, humanos, perdoamos pelos ouvidos.

“No Mistakes”

Slick Rick — Believe it or not — e uma pianada a levar o beat às cavalitas. Clássico Kanye. É uma espécie de bipolaridade. A música parece saída de um Kanye mais positivo de há dez anos, o backpacker que aprendemos a amar, mas os versos são sobre o pior ano da vida dele, que, agora sim, parece ter oficialmente chegado ao fim. São só dois minutinhos, mas soam a celebração.

“Ghost Town”

Ao fim de catorze audições desta, já se pode dizer: dá cá uma beijoca, seu maluco dum raio. Começámos o disco como uma namorada repetidamente traída à espera de saber qual era a justificação desta vez, mas eis que chegamos a “Ghost Town” e Kanye West soa mais honesto do que nunca, até mesmo na composição, uma espécie de épico cuja estrutura confunde e atordoa, mas nem por isso deixa de ser a coisa mais bonita e sincera desta disco, talvez a que melhor expõe o planeta de Kanye, que somos convidados a habitar durante 23 minutos:

Some day we gon’ set it off
Some day we gon’ get this off
Baby, don’t you bet it all
On a pack of Fentanyl
You might think they wrote you off
They gon’ have to rope me off
Some day the drama’ll be gone
And they’ll pray, no, oh, no

Sometimes I take all the shine
Talk like I drank all the wine
Years ahead but way behind
I’m on one, two, three, four, five
No half-truths, just naked minds
Caught between space and time
This now, with good in mind
But maybe some day

Vou ouvir uma décima quinta e já cá volto.

“Violent Crimes”

Canção em fim de festa, momento que Kanye nunca descura nos seus discos, e uma declaração de amor paternal:

Niggas is savage, niggas is monsters
Niggas is pimps, niggas is players
‘Til niggas have daughters, now they precautious
Father forgive me, I’m scared of the karma
‘Cause now I see women as somethin’ to nurture
Not somethin’ to conquer
I hope she like Nicki, I’ll make her a monster

É a admissão honesta de que Kanye West nem sempre soube tratar as mulheres e agora tem medo daquilo que farão às suas filhas, num registo muito 2018 que, dadas as circunstâncias, fará o artista ser preso por ter cão e por não ter.

Veredicto:

Como é que disse o Pusha T? Se em sete faixas não os consegues agarrar, então não estás cá a fazer nada. Pois bem, Kanye West, o nosso adiantado mental favorito, um dos mais preocupantes casos clínicos que a música pop nos deu nas últimas décadas, respondeu à letra e agarrou-nos pelos ouvidos mais uma vez. Pouco mais de 20 minutos chegaram para nos convencer: porque fazem das tripas coração, porque são musicalmente equilibrados, porque nos fazem ouvir o paciente no divã sem que nos fartemos dele. Kanye West, que faz muita coisa mas só na música se revelou genial, conseguiu em ye o que por vezes pareceu impossível durante o último ano: a nossa empatia.

Vasco Mendonça é publicitário e co-CEO da associação recreativa Um Azar do Kralj