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Inês Sequeira RCS
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▲Inês Sequeira assumiu a presidência executiva da RCS, que tem 80 associados, em 2024.

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▲Inês Sequeira assumiu a presidência executiva da RCS, que tem 80 associados, em 2024.

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Rede Capital Social: "Não há uma cultura de filantropia estratégica em Portugal. País que ainda vive do acesso" às pessoas

O plano da Rede Capital Social para a empregabilidade de pessoas com deficiência está a levantar entre 3,8 e 4,2 milhões de euros. Investidores estrangeiros e diáspora portuguesa são alguns dos alvos.

Os longos anos em que acompanha de “muito de perto”, com as mãos na massa, o movimento da economia social permitem a Inês Sequeira, presidente executiva da Rede Capital Social, admitir que Portugal ainda tem um problema cultural. O Estado está muito presente. Ainda assim, “temos feito bastante nos últimos tempos, mas vimos muito detrás”.

“Quando comparamos com outros países a discrepância parece gigante”. Na edição de 2025 do Global Philanthropy Environment Index, publicado pela Lilly Family School of Philanthropy, e que avalia o ambiente propício à filantropia nos vários países, tendo em conta seis fatores, Portugal aparece com uma pontuação de 4 na facilidade em gerir uma organização filantrópica — 1 é o mais favorável e 5 o menos favorável. Portugal piorou a sua pontuação face a anos anteriores em matérias de incentivos fiscais, fluxos filantrópicos internacionais/transfronteiriços e ambiente político, sendo que os fatores relativos ao ambiente económico e sociocultural são os que classificam pior.

“O que estes rankings nos mostram é que, de facto, não há uma cultura de filantropia estratégica em Portugal. E isto não quer dizer que não haja uma cultura de doação ou que as empresas não façam a sua responsabilidade social, mas a verdade é que é pouco organizada e é feita com pouco conhecimento”.

Inês Sequeira realça, mesmo, que os tickets [fundos angariados] em Portugal são “muito pequenos” e feitos de “forma muito amadora”, além, indica a mesma responsável, de sermos um “país que ainda vive do acesso. Se eu tenho acesso à pessoa tal, no board tal, é óbvio que muito mais facilmente eu consigo financiar os meus projetos”. Inês Sequeira também identifica no empreendedorismo social a falta de diversidade. “Não se vê pessoas que foram produto de elevadores sociais a serem empreendedores sociais. É muito raro isso acontecer. É um país que ainda funciona muito por caixinhas e por castas. Isso torna, obviamente, a filantropia estratégica mais difícil, porque filantropia exige estratégia, obviamente, e exige critérios”.

É por isso que tickets pequenos levam a que muitas entidades desta área se tornem “caça prémios” — “a verdade é que não são eles que estão errados, é sobrevivência. Se eu preciso dinheiro para a minha organização, para pagar os meus salários… só que os prémios desvirtuam as organizações, porque muitas vezes estão a criar programas, que não é o seu core, só para conseguirem enquadrar-se naqueles prémios”.

Por outro lado, “o financiador está habituado a dizer: ‘eu determino como é que tu recebes o meu dinheiro e eu é que sei como é que tu vais receber o meu dinheiro’, mas a verdade é que não há algo fundamental que é conhecer o problema. Eu tenho de escutar quem conhece o problema para criar uma estratégia”. “Falta muito este lado, que dá muito trabalho, do conhecimento”, diz Inês Sequeira que considera que essa falta de conhecimento leva a que muitas vezes as empresas dispersem muito as suas ações de responsabilidade social, também por uma cultura muito portuguesa de aversão ao risco e a cultura de “eu prefiro agradar a todos e quando nós queremos agradar a todos, tendencialmente, não agradamos verdadeiramente a nenhum”.

“Não tenho dúvida que as empresas são bem intencionadas e querem fazer as coisas bem feitas, só que muitas vezes não têm o conhecimento dentro de si para fazer as coisas bem feitas”, diz, assumindo que é por isso que a Rede Capital Social “é tão importante”.

A Rede Capital Social (RCS), criada em 2024, é uma associação que pretende fomentar em Portugal a filantropia estratégica e já tem mais de 80 associados, entre eles das maiores empresas portuguesas. O objetivo da entidade é mesmo o de ligar investidores sociais e filantropos com organizações que tenham projetos de impacto social. Inês Sequeira reconhece, no entanto, que “isto é uma maratona, não é um corta-mato. Mudar a cultura e mudar a mentalidades é a coisa mais difícil que existe para fazer na sociedade”.

Falta de dados leva RCS a promover um estudo sobre filantropia

Existem poucos dados em Portugal sobre este setor da filantropia. Inês Sequeira acredita que, para a realidade do país, não há pouco capital nestes projetos, mas “é pouco eficiente na forma, é pouco estruturado. E é por isso que eu acho que a questão da filantropia estratégica é tão importante”. Há fundações ligadas a empresários ou grandes fortunas conhecidas, mas no país há muitos beneméritos individuais desconhecidos. O número ao certo não se sabe.

A RCS está a promover um estudo com a PwC e a The Equator (antiga Sair da Casca) para perceber de onde surgem as doações, quem são os doadores, e a fazer inquéritos às organizações sociais para perceber o que lhes é doado. Algumas coisas sabe-se pelos relatórios empresariais, mas há muita filantropia comunitária, por exemplo, que não se conhece a dimensão e, mesmo essa, não está, no que Inês Sequeira vê no terreno, estruturada e funciona muito pela ajuda do momento. A responsável da RCS não tem dúvidas de que Portugal “tem uma tendência muito solidária”.

Mas é preciso mais. Conhecer a filantropia é, pois, a pretensão desse estudo que, garante a gestora, vai ser um processo em contínuo, para ter quase como um observatório sobre a filantropia em Portugal em que “vamos aumentando o número de dados e a granularidade dos dados”. E perceber quem anda pelo país disponível para participar nestas ações, sendo certo, assume Inês Sequeira, que os mecanismos fiscais não estão ajustados. A lei do mecenato, aponta, é antiga.

"A ideia é criar um ambiente que seja atrativo também para os filantropos. E é aí que nós vamos garantir que a filantropia cresce."
Inês Sequeira, CEO da Rede Capital Social

O plano da RCS na empregabilidade de pessoas com deficiência

Sabendo que o país tem um baixo nível de filantropia e que há muitos ovos metidos na mesma cesta, a RCS escolheu a empregabilidade de pessoas com deficiência como a sua aposta programática. Começou por ouvir cerca de 200 entidades e pessoas, para fazer um levantamento completo do problema e trabalhar em cima de dados. E para que daqui a cinco anos possa perceber “se realmente tivemos algum impacto e as coisas mudaram de facto”. Para isso “temos de ter parâmetros comparativos”.

A empregabilidade de pessoas com deficiência “não está no zero”, admite Inês Sequeira, realçando que a lei das quotas de emprego [para pessoas com deficiência, com um grau de incapacidade igual ou superior a 60%] nas empresas [aplica-se às médias empresas com um número igual ou superior a 75 trabalhadores e às grandes empresas] que existe desde 2019 “teve efeitos”. “Não tenho dúvida nenhuma que teve efeitos. Forçou muitas empresas a olhar para o tema de uma forma mais séria, mais estruturada, a fazerem um esforço maior, a constituírem equipas, a terem pessoas formadas dentro dos recursos humanos”.

Mas a lei não resolve tudo. Muitas vezes “é um ponto de partida, mas é um ponto de partida que tem que fazer o seu caminho”. As empresas apontam dificuldade em contratar. Inês Sequeira não se espanta: a taxa de pessoas com deficiência que acabam a universidade é muito menor. “Pessoalmente não consigo entender como é que uma sociedade pode dizer-se inclusiva quando isto acontece de uma forma tão frontal”. É olhar, diz Inês Sequeira, para a Assembleia da República. Mas, por isso, empresas, entidades, políticos “têm que contribuir ativamente para resolver o problema”. Um programa que é aplaudido por esta gestora é o da assistência pessoal. “Foi transformadora mas que ainda chega a muito poucas pessoas. A assistência pessoal transforma a vida”.

O plano de ação da RCS está pensado com a ambição de provocar uma mudança sistémica, mas, para isso, “temos que olhar para todo o sistema e ver onde é que ele está a falhar, onde é que podia melhorar o que é possível fazer. Isto é um processo, é um caminho, mas eu tenho que ser ambiciosa nesse processo”. Tendo a maior parte baixa autoestima é preciso empoderá-las. “Olhamos para o ciclo de vida da pessoa com deficiência, o que precisa para ter acesso a todas as oportunidades. Precisa que a escola seja mais inclusiva, que lhe permita que tenha acesso ao ensino superior, que acabe um curso, que vá para o mercado de trabalho não em desvantagem relativamente à parte das habilitações”, diz Inês Sequeira, sabendo, no entanto, que muitas das pessoas com deficiência têm um custo de vida muito mais elevado do que uma pessoa sem deficiência.

A rede pretende “ver no terreno aquilo que está a funcionar, ver quais são as necessidades ao longo do ciclo de vida” e, a partir daqui, construir medidas de filantropia e medidas de advocacy [defesa dos direitos], ou seja, o que é preciso mudar em termos de políticas públicas ou de escala”. E voltamos ao exemplo da assistência pessoal que “tem resultados visíveis no terreno e transformou a vida das pessoas realmente, os resultados foram super positivos”. Só que só chega a cerca de mil pessoas. E esse é o exemplo que Inês Sequeira refere para dizer “se calhar temos de fazer com que chegue a mais pessoas”, e isso é possível com a filantropia estratégica ou chegar às escolas em todo o território nacional. “Nós não estamos a inventar a roda, estamos a fazer filantropia estratégica e a direcioná-la”.

"O sonho da Rede Capital Social e o meu sonho pessoal é tornar a sociedade civil realmente mais informada sobre os temas, com mais dados, para também exigir mais. Nós podemos exigir quando temos conhecimento e dados sobre as coisas. De outra maneira estamos a exigir um bocado de senso comum".
Inês Sequeira, CEO da Rede Capital Social

Um plano para quatro anos à procura de financiamento

O plano de ação da RCS foi concluído e apresentado em novembro e agora começará o processo de levantamento de fundos. Dentro das 20 medidas incluídas 11 são de advocacy — “estamos já a falar com o Governo para perceber como é que podemos apoiá-lo, até porque o governo está agora em processo de fazer a nova estratégia”, pelo que a RCS vai apresentar o trabalho feito com a Deloitte e três escritórios de advogados — a Morais Leitão, a PLMJ e a CCA.

“Este conhecimento que nós temos e que foi partilhado com tantas entidades pomo-lo à disposição para contribuir para que as políticas públicas sejam mais assertivas”. Esta componente do plano é de continuidade. “Vai sempre havendo trabalho para afinar ao longo dos anos”. A nova estratégia vai iniciar-se agora, com Inês Sequeira a criticar o facto de na estratégia terminada em 2025 não ser possível verificar, para cada uma das medidas, a execução conseguida. “Andámos até a telefonar para os organismos… para ver se executaram”. Mas nem sempre foi possível a resposta. E, “ou conseguimos perceber no terreno o que foi executado ou é muito difícil estruturar coisas. Não há mudança sistémica se não existir isto, é ter os dados e transparência dos dados e isto é accountability [responsabilidade]”.

Para Inês Sequeira, quando um governo novo pretende mudar determinadas leis que afetam determinados públicos deveria haver uma advocacy estruturada com as diferentes organizações, como a que existe com a concertação social. “Também nós, a sociedade civil, as organizações que existem no terreno, as associações, as empresas que estão a trabalhar sobre isto têm de se estruturar e agrupar-se e fazerem-se ouvir para os governos poderem ter não só a visão deles, mas a visão de quem está no terreno. Isto é uma responsabilidade de todos.”

“O sonho da Rede Capital Social e o meu sonho pessoal é tornar a sociedade civil realmente mais informada sobre os temas, com mais dados, para também exigir mais. Nós podemos exigir quando temos conhecimento e dados sobre as coisas. De outra maneira estamos a exigir um bocado de senso comum”.

Nas nove medidas de filantropia, o levantamento de fundos começa agora. Uma dessas medidas passa por pôr numa única plataforma tecnológica a procura e a oferta de empregos para pessoas com deficiência, ou seja, agregar num único espaço as disponibilidades. A RCS, que já conta com 80 associados, entre os quais empresas tecnológicas, acredita que os recursos humanos podem também fazer a diferença nesta associação, não apenas os recursos financeiros.

O plano, que está estruturado para quatro anos, precisa de um valor entre 3,8 e 4,2 milhões de euros. O levantamento de fundos será feito junto dos associados, mas não só. A RCS está a contactar muitos investidores estrangeiros que estão hoje a viver em Portugal e também a diáspora portuguesa.

E há filantropos “proibidos” até pelas geografias de proveniência? “Vamos tentar perceber de onde é que vem o dinheiro, obviamente”, assumindo Inês Sequeira que “é uma questão que penso muito”. Ainda assim, acrescenta: “Ao mesmo tempo, temos de ser pragmáticos e tem que haver um equilíbrio. Não podemos viver a medo. Tem de haver mais filantropia e tem de haver mais transparência”. Com os estudos e o trabalho a realizar, a RCS admite traçar metas quantitativas. “A ideia é criar um ambiente que seja atrativo também para os filantropos. E é aí que nós vamos garantir que a filantropia cresce.”

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