Reportagem. O prédio Coutinho já foi um mercado e vai voltar a ser. É esperado há 17 anos /premium

11 Agosto 2019115

Por causa do prédio Coutinho, Viana já teve três mercados. O primeiro foi demolido para construir o edifício. O segundo foi demolido para realojar os moradores. O terceiro é temporário há 17 anos.

Há meia dúzia de escadas dos lados direito e esquerdo que desaguam numa porta automática, de rasgo ao centro. Lá dentro, um corredor oval mostra as bancas afiladas apenas numa meia-lua: flores e velas, frutas e legumes, atoalhados, peixe e carne. Clientes? Poucos. Há 17 anos que, por causa do prédio Coutinho, o mercado temporário de Viana do Castelo vive longe do centro da cidade.

De postura altiva, amparada no avental branco, o talhante Lino não pesa as palavras como pesa a carne. Conta ao Observador que, quando veio para o mercado temporário, eram dezoito os talhos, conhecidos por números. Hoje são quatro e um só vende tripas para enchidos. No outro mercado, chegou a haver vinte e quatro.

Adelino da Costa Fernandes é dono do talho "Lino" no mercado temporário.

Por “outro”, entenda-se o segundo mercado erguido na cidade, depois de demolido o primeiro, cujo terreno foi vendido em hasta pública, em julho de 1972, por 7.500 contos. Fernando Coutinho, um empresário de sucesso, foi quem o comprou. Meio ano depois, o projeto de construção do empresário, um prédio de 13 andares a destoar da malha da cidade, foi aprovado e começou a ser construído. Nascia o edifício Jardim, ou prédio Coutinho — com apelido roubado ao do construtor. O Mercado Municipal de Viana do Castelo, também chamado “praça”, continuou a funcionar na Praça Frei Gonçalo Velho, em pleno centro da cidade, a 100 metros do anterior.

Adelino da Costa Fernandes tinha “catorze ou quinze” anos quando começou a trabalhar no segundo mercado. Foi direto ao talho, porque o dono lhe oferecia o dobro do da mercearia Casa Baganho, onde trabalhou antes durante um ano. Do primeiro mercado de todos — o que acabou demolido para a construção do prédio —, não se lembra de grande coisa.

Conheci-o como mercado mas não trabalhei lá. Nos intervalos do trabalho, ia vê-lo de vez em quando. Era um mercado muito bonito. Tinha quatro torres, uma em cada canto. Os talhos ficavam logo à entrada e o resto eram lojinhas para as pessoas venderem.
Adelino da Costa Fernandes, talhante

É no seguimento da descrição que desapega uma mola de uma fotografia-postal a sépia, pendurada em cima da banca onde corta a carne. Trata-se do primeiro-mercado, onde não trabalhou.

Adelino tem, na banca, um postal a sépia do primeiro mercado da cidade.

No caso de Cândida, de 82 anos, as fotografias que guarda do primeiro mercado da cidade são memórias visuais. Ao contrário de Adelino, trabalhou lá. Começou aos 22 anos.

Apesar da idade, continua a vender todos os dias no mercado temporário, “porque parar é morrer”. São 60 anos em volta dos atoalhados, dos jogos de cama, das “miudezas” — “Pode pôr miudezas, é miudezas que se chama”.

O primeiro mercado não era grande, mas as pessoas cabiam. Tenho recordações bonitas. Faziam-se lá os bailes de São João. Eu era nova, com os meus 17 ou 18 anos e ia para o baile como as outras. Rapariga de namorar, fui buscar uma caneca de champarrião. Escorreguei, caí e a caneca cortou-me a mão. Levei não-sei-quantos pontos.
Cândida, vendedora no mercado temporário

Cândida é das poucas vendedoras — senão a única — que passou pelos três mercados da cidade. “Já estive no do Coutinho, já estive no outro que fizeram e já vim para este.” Já perdeu a conta ao número de anos que o temporário tem, mas o “vizinho” Miguel ajuda a confirmar: dezassete. “Obrigada, Miguel”.

Para contas, também Adelino precisa de ajuda. Carrega firmemente com o indicador nas teclas verdes e azuis da calculadora que, à moda antiga, sobressai em cima da banca onde corta a carne, para confirmar a idade com que veio para o mercado temporário. “Sessenta e três menos dezassete dá [pausa] quarenta e seis anos”.

O mercado temporário de Viana do Castelo vive há 17 anos fora do centro da cidade.

A demolição do segundo mercado

Em 2003, foi encerrado o segundo mercado. No seu lugar foi construído um edifício com três andares para habitação, destinado, em parte, aos moradores que saíssem do prédio Coutinho — aquele que tinha ocupado o primeiro mercado.

No ano anterior, aprovava-se por maioria em reunião de câmara a venda do edifício do segundo mercado à VianaPolis, por 1.200 milhões de euros. O Observador consultou a ata de reunião e confirmou que apenas a vereadora Ilda Araújo Novo, do CDS-PP, votou contra, alegando que não se encontravam “contempladas e devidamente acauteladas as expectativas dos actuais comerciantes e agentes económicos existentes no actual mercado no que respeita à sua reinstalação no futuro mercado.”

Do lado oposto, no que toca a convicções políticas, estava João Duarte, vereador da CDU daquela câmara. A avaliação? Absteve-se, com dúvidas. “Tal reinstalação provisória com custos elevados será suportada pela Câmara Municipal e tem por base a opção que a Câmara fez, de não exercer o direito de preferência na compra do imóvel, onde vai ser instalado provisoriamente o mercado municipal”, lê-se, em ata de reunião.

De facto, na altura, a câmara preferiu alugar o espaço dos antigos armazéns da EPAC por 6.500 euros por mês, para manter o mercado temporário, do que comprar as instalações por 850 mil euros, admitindo que o processo de expropriação do prédio Coutinho seria resolvido em poucos anos. No entanto, o braço de ferro entre os últimos moradores e a VianaPolis já dura há praticamente vinte.

Só entre 2001 e 2006, 400 mil euros já tinham sido gastos em rendas. Em 2010, já chefiada pelo socialista José Maria Costa, a câmara gastou mais 100 mil euros em obras no mercado temporário.

Enquanto Lino respalda o desagrado, Cândida confessa que chegou a gostar do mercado temporário, apesar de nunca se ter conformado com a atitude do autarca Defensor Moura.

Olhe, este mercado foi muito bom no primeiro ano. Não se pode pôr defeitos. Vendeu-se. No outro já estava a morrer, mas ainda escapava. Depois foi morrendo, foi morrendo, foi morrendo. Está morto. Dias e dias em que não nos estreamos. Lembro-me de uma frase que o Dr. Moura disse — não sou contra ele, mas sou pela verdade — “Quem quer vir, vem. Quem não quer, não vem”. Não é assim que se fala.
Cândida, vendedora no mercado temporário

Foi pela inexistência de local para atribuir o Mercado Municipal, depois de demolida a “praça”, que em 2005 é publicado em Diário da República a declaração de utilidade pública com caráter de urgência para a expropriação do prédio Coutinho. Há quase 20 anos que o objetivo é construir-se lá o novo mercado.

E como o projeto inicial do novo mercado remontava a 2003, no ano passado foi reajustado e encomendado um segundo projeto ao gabinete de arquitetura de António Santos Gomes, de Lisboa. O projeto irá custar cerca de 73 mil euros.

“A não construção do mercado no local do Edifício Jardim está a causar um grande prejuízo à cidade”, opinava José Maria Costa em maio de 2018, em entrevista ao jornal Correio do Minho e à Rádio Antena Minho. “A não existência do mercado levou a que algum comércio fosse fechando. Queremos que o mercado dê vida ao centro histórico e que crie momentos de afirmação cultural.”

É a distância ao centro de Viana que faz Lino perder a clientela. Pelo menos, a sua perceção é de que este “não é um mercado apetecível”, já que “não tem condições nenhumas para as pessoas se sentirem bem”. Quando perguntamos as razões, apronta-se a enumerá-las.

Primeiro, porque as pessoas não têm grande estacionamento; segundo, têm de subir umas escadinhas muito estreitas. As pessoas idosas gostam de vir ao mercado mas têm de dar a volta para conseguirem entrar e chegam aqui cansadas. Por vezes não vêm.”
Adelino, vendedora no merado temporário.

Cândida apronta-se a discordar. “Há pessoas que nunca estão contentes… Elas aqui têm parque, coisa que lá em baixo não tinham”. Voz da experiência de quem vai todos os dias para o mercado a pé “e só demora cinco minutos”, também o facto de ser longe do centro não é justificação plausível para a vendedora.

Entre os atoalhados, as meias, as cuecas e as restantes "miudezas" de Cândida, há uma régua de medir "à antiga".

“Mas como muitas pessoas são umas vira-casacas, para dizer por claro, viemos para aqui. Era para ser por três anos. São de-za-sse-te”, arruma Cândida, no tempo de dobrar as cuecas “da avó” que vende na banca. Depois vai-se, desgostosa. “Na terça-feira foi dia de feirão, podia-se vender qualquer coisa. Zero. Nem uma agulha.”

Com uma indemnização e uma casa nova, se fosse morador do prédio Coutinho, Adelino teria saído — “Ó se saía!”.  Entre as almôndegas, a carne de boi, de perú, de frango, de cabrito, os hambúrgueres e a poucos anos de receber os papéis para a reforma, o talhante arruma as ferramentas, assume não esperar pelo novo mercado e prepara o estômago para “um peixinho assado”.

Texto de Joana Ascensão (em Viana do Castelo).

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