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Saúde humana, animal e ambiental: a união pela saúde de todos.

No dia 6 de maio, realizou-se a conferência “One Health”, promovida pelo Observador Meeting Point com a Hipra Human Health. A saúde esteve no centro do debate e o olhar no futuro.

O mundo é cada vez mais global. Estamos interligados a tudo o que nos rodeia e a saúde é a área com maior impacto na nossa vida. Assim, pensá-la de uma forma integrada, unindo humanos, animais e ambiente, é fundamental para um futuro que se quer possível. Numa era em que a ameaça de novas pandemias é um fator de constante preocupação, importa colocar a saúde em perspetiva, olhar para o que já aconteceu no passado e perceber o que podemos repetir, ou mudar, para que os próximos tempos possam ser vividos de uma forma mais preparada. Olhar para a saúde como algo de todos, pode ser o fator-chave para um setor, e mundo, em constante mudança.

"O conceito One Health, que aqui nos convoca, exprime exatamente isso, uma abordagem integrada da saúde global, em que a prevenção, a vigilância e a resposta a ameaças sanitárias exigem articulação real entre setores, saberes e políticas públicas."
Carlos Cortes,Bastonário da Ordem dos Médicos

Foi de olhos postos em todas estas temáticas que no passado dia 6 de maio, em Lisboa, o Observador Meeting Point organizou a conferência “One Health – Quando a saúde humana e animal se cruzam”, em parceria com a farmacêutica Hipra.

O evento reuniu especialistas de referência e o pontapé de partida foi dado pelo Bastonário da Ordem dos Médicos, Carlos Cortes: “Não podemos continuar a tratar a saúde humana como uma ilha isolada da realidade ecológica e da vida animal. O conceito One Health, que aqui nos convoca, exprime exatamente isso, uma abordagem integrada da saúde global, em que a prevenção, a vigilância e a resposta a ameaças sanitárias exigem articulação real entre setores, saberes e políticas públicas. A resistência antimicrobiana alastra silenciosamente, a degradação ambiental e a perda de biodiversidade estão a ampliar o risco de novos surtos. A mobilidade global, inevitável e irreversível, tornou os agentes patogénicos viajantes frequentes, atravessando fronteiras com uma velocidade que os nossos sistemas de resposta, por vezes, ainda não acompanham. Neste contexto, One Health deixa de ser uma opção conceptual e transforma-se numa obrigação estratégica”.

César Jesus, Associate Director da Hipra Human Health, foi o próximo a ocupar o púlpito e não hesitou em partilhar a importância do evento. “Na perspetiva da Hipra, e da comunidade científica, faz sentido podermos falar naquilo que são as interligações e dependências que todos temos para poder abordar o tema de One Health. Este é um tema que é apetecível, mas que traz muito desafios. Na perspetiva de que todos nós temos de trabalhar de uma forma integrada e que o objetivo comum é trazer e promover uma saúde global melhor e promover o acesso às melhores soluções na prevenção de doenças e de problemas futuros”, começou por dizer. Em linha com este compromisso, a HIPRA Human Health também está empenhada em contribuir para uma maior autonomia estratégica da União Europeia e de Portugal, reforçando a importância de uma abordagem integrada para a construção de um futuro mais independente e sustentável na área da saúde humana: “Queremos estar presentes e sermos vistos como parceiros da sociedade em geral e das comunidades científicas. Estamos firmemente comprometidos em continuar a investir naquilo que é o desenvolvimento tecnológico e de plataformas de topo para poder encontrar as melhores respostas”, concluiu.

  • Carlos Cortes, Bastonário da Ordem dos Médicos
  • César Jesus, Associate Director da Hipra Human Health
  • Carlos Robalo Cordeiro, Presidente do Conselho de Escolas Médicas Portuguesas
"Queremos estar presentes e sermos vistos como parceiros da sociedade em geral e das comunidades científicas. Estamos firmemente comprometidos em continuar a investir naquilo que é o desenvolvimento tecnológico e de plataformas de topo para poder encontrar as melhores respostas."
César Jesus, Associate Director da Hipra Human Health

Boas-vindas dadas, foi então altura de seguir para os três painéis do dia, todos eles conduzidos pela jornalista do Observador, Carla Jorge de Carvalho. “ One Health: Inter-relações e desafios” foi o tema que lançou o primeiro e para o discutir contou-se com a presença de Rita Sá Machado, Diretora- Geral da Saúde, Susana Guedes Pombo, Diretora- Geral da Direção-Geral de Alimentação e Veterinária, José Pimenta Machado, Presidente da Agência Portuguesa do Ambiente, e Carlos Robalo Cordeiro, Presidente do Conselho de Escolas Médicas Portuguesas.

Ao longo de todo o debate, uma ideia ficou clara: não há, de facto, fronteiras, quando falamos de saúde. “Para nós, a abordagem de uma só saúde tem sido algo que tentamos trazer para todas as estratégias e para tudo o que estamos a implementar enquanto Direção-Geral da Saúde”, foi Rita Sá Machado quem começou por partilhar a sua visão, comum à dos colegas de painel: “Porquê? Exatamente para termos um pensamento sistemático, que nos ajuda não só a olhar para as principais problemáticas, como para aquelas às quais podemos não estar tão atentos. Apesar de trabalharmos bem em rede, ainda nos falta ter aqui um documento ou algo que nos permita ter este tema ainda mais estruturado no panorama nacional. Ainda precisamos de uma ligação maior”.

Temas como a necessidade de construção de canais mais sólidos, com mecanismos e uma arquitetura de saúde mais forte, investimento no conhecimento científico, financiamento comum nas várias áreas, impacto das alterações climáticas na saúde da população e até o impacto dos ciclos políticos, foram trazidos para o centro da discussão. Os desafios são muitos e, embora Portugal traga consigo números promissores no que à transição energética diz respeito, José Pimenta não hesitou em reforçar: “Nós vivemos no tempo de bater recordes. Recordes de temperatura, as secas, as cheias, os incêndios…são questões que nos desafiam diariamente”. Quanto ao que fica por fazer, a Diretora-Geral da Saúde, rematou: “Se olharmos para aquilo que é possível e necessário fazer, aquilo que é mais importante é todos nós, nas nossas áreas, termos os nossos sistemas de vigilância, transmitirmos a nossa informação para os outros. Termos sistemas de vigilância que nos permita utilizar a informação e agir mais rapidamente. Podemos ir um pouco mais além, podemos funcionar um pouco mais rápido. E para isso podemos deixar os nossos sistemas de informação falar um pouco mais”.

"Se olharmos para aquilo que é possível e necessário fazer, aquilo que é mais importante é todos nós, nas nossas áreas, termos os nossos sistemas de vigilância, transmitirmos a nossa informação para os outros."
Rita Sá Machado, Diretora- Geral da Saúde

Paulo Costa, Professor e Investigador no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto, Gabriela Saldanha, Presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina do Viajante, Bernardo Gomes, Presidente da Associação Nacional Médicos de Saúde Pública, e Jorge Barroso Dias, Presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina do Trabalho, foram os próximos a ocupar o palco, dando início ao segundo painel, sob o mote “Saúde humana e animal, do conhecimento à prevenção”.

E, afinal, qual é o caminho? “O caminho é estarmos todos interligados, profissionais médicos, mas também o ambiente, a veterinária e a população em geral, no sentido de termos a literacia suficiente. É importante que estejamos todos unidos e que trabalhemos em conjunto. Nós somos veículos invisíveis de transmissão de doenças. Temos que trabalhar a literacia, as políticas de saúde pública, a vacinação, as medicações preventivas e a sustentabilidade do planeta. Vivemos num mundo em crise, em guerra, com alterações climáticas, com desflorestações, que aumentam a possibilidade de que novas doenças, novos agentes, causem danos complicados e nos remetam novamente a uma pandemia, que há pouco tempo aconteceu, e que tanto impacta a nossa vida e a vida do planeta”, palavras de Gabriela Saldanha.

Aqui ficou claro que a saúde de um impacta na saúde de todos, que é crucial cuidamos da saúde dos migrantes e que prevenir é, de facto, parte fundamental deste trajeto. Contudo, Bernardo Gomes aproveitou a oportunidade para reforçar um alerta: “Estamos a entrar na tecnoteologia, uma fé absoluta nas soluções tecnologias para nos resolver problemas, mas há valores fundamentais para nos mantermos como comunidade que não é através da tecnologia que vamos lá. Face à experiência das vacinas ou do apagão, temos de ter uma forte aposta na coesão comunitária. Estamos sempre na expectativa de que alguém resolva os problemas por nós. Podemos inventar as melhores soluções, mas confesso que estou preocupado com a desinformação e a quebra dos laços comunitários, da partilha de um lado comum. Sem a salvaguarda de uma realidade partilhada, as coisas ficam mais difíceis.”

"O caminho é estarmos todos interligados, profissionais médicos, mas também o ambiente, a veterinária e a população em geral, no sentido de termos a literacia suficiente. É importante que estejamos todos unidos e que trabalhemos em conjunto."
Gabriela Saldanha, Presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina do Viajante

Com a manhã a chegar ao fim, houve ainda tempo para discutir o futuro, num painel que contou com as participações de Filipe Froes, membro do ACPHE-EC, Fernando Almeida, Presidente do Conselho Diretivo do Instituto Ricardo Jorge, Ricardo Baptista Leite, CEO da Agência Global para a Inteligência Artificial Responsável na Saúde, Hélder Mota Filipe, Bastonário da Ordem dos Farmacêuticos, Pedro Fabrica, Bastonário da Ordem dos Médicos Veterinários, e Ana Margarida Alho, Perita Nacional Destacada na DG HERA.

Depois do SARS-CoV-2 e do H5N1, está a União Europeia a tirar lições do que aconteceu? Filipe Froes respondeu: “A UE, por exemplo, criou uma nova agência, a DG Hera, isso, significativamente, é um passo à frente. E no dia 16 de abril deste ano, a OMS assinou o primeiro tratado pandémico. O que é que significa este tratado à escala global? Baseia-se numa plataforma que é o PABS – Pathogen Access and Benefit-Sharing. Portanto, nós temos uma maior partilha da informação e temos uma maior capacidade de perceber que quando nós estamos protegidos, a nossa proteção também depende dos outros. Foram dados dois passos inéditos que demonstram que pelo menos estamos a tentar inverter o rumo da história, estamos a tentar aprender”.

Quanto a lições, para Filipe existem “grandes lições que podemos tirar da pandemia: a importância da preparação; introduzir em Portugal, de uma forma muito clara, a vigilância das águas residuais; importância da autonomia; e confiança. Não há medidas de saúde pública sem confiança. O principal componente em saúde é sempre a confiança. Para termos confiança, precisamos da melhor evidência científica e a melhor capacidade de a comunicar. O desafio que eu lanço à nossa escala seria uma percentagem do PIB para a investigação científica. Porque nós estamos aqui fruto da investigação científica”. E se ficou claro, ao longo da conversa, que as ilhas em saúde precisam de acabar, que o diálogo aberto, a ciência partilhada e o compromisso coletivo só se consegue se todos nós participarmos em discussões como estas, que a Inteligência Artificial já está a funcionar…podemos ou não ficar mais descansados em relação ao futuro que nos espera? “Acho que é muito importante focar que a partilha de informação de dados melhorou muito com o Covid, não só porque houve uma harmonização nos métodos de recolha – de partilha, de análise -, e isso permitiu ter uma ideia dos diferentes cenários que estavam à nossa espera e, consequentemente, antecipar as principais medidas a implementar. É precisamente isso que a Hera tenta fazer no seu dia a dia”, começou por dizer Ana Margarida Alho, acrescentando: “Existem outras medidas, nomeadamente, a aquisição conjunta de vacinas, de medicamentos, de kits de diagnóstico…isto é um mecanismo que existe e que permite não só uma aquisição a preços mais vantajosos, como um acesso equitativo dos diferentes países aos mesmos cuidados de saúde, uma ação síncrona, porque todos sabemos que uma resposta a uma pandemia só pode existir e ser coordenada se for feita de um modo generalizado.

Dizer também que houve, e está a haver, um grande investimento em equipamentos de risco, por exemplo, no desenvolvimento de novas moléculas antibióticas. É exatamente isso que a Hera tenta fazer, através de um financiamento do Banco Central, em que há um investimento de risco para uma coisa que as farmacêuticas consideram que não é rentável ou difícil. Tenta existir esta resposta, por parte da Hera, em financiar o desenvolvimento de research, de innovation, em áreas que são lacunas. Depois de haver este investimento, tem também de haver capacidade de produção. E essa é a segunda linha onde atuamos. Os desafios são muitos, sem dúvida”.

"O principal componente em saúde é sempre a confiança. Para termos confiança, precisamos da melhor evidência científica e a melhor capacidade de a comunicar."
Filipe Froes, membro do ACPHE-EC

A Conferência chegou ao fim com várias conclusões tiradas, inúmeros desafios a enfrentar, mas uma só missão: impedir que os conhecimentos partilhados se extinguissem no dia 6 de maio de 2025, dentro do auditório da Ordem dos Médicos em Lisboa. Ficou clara a necessidade de a disseminar, de a partilhar, de a fazer chegar mais longe e a mais pessoas. Para que a One Health não seja apenas uma visão. Para que a saúde de todos seja, de facto, uma causa comum.

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