Como pensar um território e as práticas artísticas do amanhã a partir de um festival de música que não atropele eventos já consolidados nem mimetize fórmulas saturadas? Foi mais ou menos esta a questão levantada pela promotora Lovers & Lollypops (L&L) aquando da idealização do SQUARE, festival que durante quatro dias fez circular 50 artistas e cerca de 1000 pessoas, entre público e profissionais da indústria da música, pelo chamado quadrilátero do baixo Minho.
“O barómetro que temos é ótimo”, refere Márcio Laranjeira ao Observador, no balanço do evento integrado na Braga’25 – Capital Portuguesa da Cultura. “As pessoas confiaram e acreditaram no projeto e foram connosco. Sentimos que a comunidade entendeu a mensagem”, frisa o diretor criativo da promotora também responsável pelo festival Tremor, em São Miguel, nos Açores.
A mensagem, neste caso, esteve assente na divulgação de música experimental e emergente feita na Europa, África e Américas – o Eixo-Atlântico que mapeou as relações do festival – e numa ideia de comunidade transversal aos artistas e à região. “Quisemos criar pontes a partir deste território e usar o quadrilátero como ponto de encontro.”
Quem passou por Braga, Guimarães, Famalicão e Barcelos entre 29 de janeiro e 1 de fevereiro viu concertos em lugares tão inusitados como a Feira de Barcelos, uma das mais antigas e carismáticas feiras de Portugal, num túnel de pedra escondido debaixo da estrutura do Teatro Jordão, em Guimarães, num centro comercial semi abandonado, em Braga, ou no Mercado Municipal de Famalicão. “Achámos que era uma oportunidade de abrir portas de lugares que normalmente não servem este tipo de espetáculos e ter um programa na música que fosse um apelo à descoberta do território.”
“Descoberta” é adjetivo que serve igualmente para qualificar a programação, não só para o público, como para a organização: “Nos 50 nomes que tivemos no SQUARE, se calhar só conhecíamos sete”, admite Márcio Laranjeira, explicando a lógica curatorial que esteve por trás do processo. Foram convidados 25 parceiros habituados a trabalhar com música independente para sugerir 25 nomes a integrar no festival. Todos tiveram “carta branca”, conta, realçando a “honestidade e coragem” dos parceiros em indicar nomes que “nos fizeram sair das nossas bolhas”.
Os restantes 25 artistas do cartaz foram escolhidos através de uma open call, à qual chegaram mais de 1000 candidaturas e cujo critério de seleção teve em conta a diversidade estética, geográfica e de género: “Olhamos para os cartazes dos festivais de verão e parece que há um copy-paste por toda a Europa. A nossa vontade é a de sair de um circuito que parece cada vez mais repetitivo”.
Os concertos foram saltando pelos quatro concelhos do quadrilátero, numa lógica itinerante e muitas vezes gratuita. Paralelamente, as conferências dividiram-se por três manhãs, no gnration, em Braga, e incidiram em temas como a descentralização na arte, políticas culturais ou modelos de cooperação entre artistas independentes.
Ouviram-se testemunhos como o da artista e investigadora queniana Nyokabi Kariuki, cujo trabalho na área da eletrónica experimental estabelece pontes com o do pioneiro da música concreta Halim El-Dabh; de Laura Diaz, da banda TETO PRETO e co-fundadora da festa independente MAMBA NEGRA (2013), referência da resistência e ativismo da comunidade LGBTQI+ de São Paulo; de Djô Da Silva, fundador do Kriol Jazz Festival, conhecido por ter lançado Cesária Évora; ou de Evelyne López Mussons, fundadora da Associação Rural Vivo, que atua desde 2019 no Gerês e, entre muitas ações de resiliência rural contra o abandono do território, tem promovido encontros de artistas com As Cantadeiras de Campo do Gerês, coro polifónico de mulheres guardiãs dos cantares geresianos.
Tanto os passes-gerais (€25), que garantiam acesso a todos os concertos pagos, como os passes Pro (€50), que incluíam as conferências, esgotaram. Foi ainda posto à venda um bilhete diário para o último dia de festival, que aconteceu exclusivamente em Braga, e que esteve perto de esgotar (€15).
A continuação do SQUARE, que teve um investimento de 300 mil euros, será agora debatida e Márcio Laranjeira mostra-se otimista: “Há uma vontade de Braga de continuar, uma vontade nossa e penso que os parceiros também têm essa vontade, até porque o território, a nível cultural, tem um projeto conjunto”. Se os ventos e as eleições autárquicas estiverem a favor, há bons motivos para que este quadrilátero continue a gatinhar.
Mais do que promessas, certezas: Fidju Kitxora, Adelaida e Maria Reis
Aqueles que passaram pelo SQUARE nestes quatro dias, e que aproveitaram para matar saudades de um bom galo de Barcelos, de um bacalhau à minhota ou de umas papas com rojões em restaurantes como a Bagoeira, de Barcelos, ou o Bem-me-quer, de Braga, regressaram a casa com uma playlist gorda.
Saíram consolados de concertos como o de Arianna Casellas & Kauê, que apresentaram no Teatro Jordão, em Guimarães, o seu belíssimo disco mais recente, Suenam las Campanas (2024); da atuação da dupla de Glasgow comfort que, em dia de depressão Ivo, encheu um túnel granítico e húmido de punk queer, pop dos anos 80 traçado com psicadelismo, rap, eletrónica e chuviscos de funk; da viagem que os El Khat fizeram entre a pop do Iémen dos anos 60 e o experimentalismo do rock e do jazz; ou do DJ set delirante de De Schuurman, provando que tudo o que vem do selo ugandês Nyege Nyege é do outro mundo.
Mas o prato principal deste SQAURE foi servido no Mercado Municipal de Famalicão. Enquanto Portugal disputava com a Dinamarca a presença histórica numa meia final de um Campeonato do Mundo de Andebol, que o ecrã gigante do mercado transmitia para algumas mesas agarradas ao que se passava em Oslo, o coletivo Fidju Kitxora dava uma exibição de gala num palco montado ali ao lado.
Levando-nos até Cabo Verde, ao das memórias e ao do futuro, imaginado como se fosse um manifesto de Almada Negreiros escrito com percussões e sets onde o funaná convive com o techno e o semba com o afro-house, Fidju Kitxora deu uma sacudidela no cancioneiro tradicional, na história de Portugal e nas estruturas sociais. André Xina na mesa de mistura e coadjuvado por uma bateria e uma guitarra, ora passava gravações da Rádiotelevisão Caboverdiana e da diáspora cabo-verdiana, ora combinava ritmos acelerados, com tanto de raiva como de calor e empatia, à imagem de Scúru Fitchádu.
Houve ainda um bailarino a quebrar a barreira entre palco e plateia, entre dança urbana e dança contemporânea, a dar corpo à música do trio, agregando corpos à sua volta que se moviam sem regra. No final, até uma criança, que naquela noite de quinta-feira estava de passagem pelo mercado com a mãe, pinchou exaustivamente até se conseguir pôr em cima do palco. Uma vez atingida a meta, sentou-se, simplesmente, para encher os olhos de possibilidades de futuro. André Xina, por sua vez, saiu em apoteose do palco, levado às cavalitas como herói de uma noite que, muito provavelmente, lhe vai abrir muitas portas.
Apoteótico não será o melhor adjetivo para descrever a atuação de Maria Reis, que até começou 15 minutos atrasada. Porém, a música, autora do muito aclamado Suspiro… (2024), deu ao público aquilo que o público esperava dela: guitarradas revoltadas sobre uma voz monocórdica e letras niilistas, versos aos quais uma geração se agarra como botija de oxigénio, salvação para saírem do quarto e enfrentarem o armagedão.
Foi precisamente por aí que Maria Reis começou, por um Armageddon que é o novo single, canção que carregará na digressão portuguesa e americana que fará com Panda Bear, entre fevereiro e maio. Depois seguiu-se o óbvio desfilar de êxitos, como Teoria da conspiração, RIP e a mais crua Insensível, malha do seu EP Maria, de 2017.
O Lustre, espaço híbrido entre sala de espetáculos e discoteca dos 2000, com seguranças à porta, plantas suspensas e playlists bipolares que facilmente vão de Artcic Monkeys à Abelha Maia, foi esvaziando lentamente, à medida que o concerto prosseguia. Aproximava-se a hora de ver as melodias rítmicas de Asmâa Hamzaoui & Bnat Timbouktou no Theatro Circo, grupo feminino marroquino pioneiro da música gnaoua, que tem na sua líder uma espécie de Kim Gordon do guembri (instrumento de três cordas da música gnaoua).
Kim Gordon que, não sendo um dos nomes do SQUARE, gravitou por Braga durante estes dias, com a primeira exposição em Portugal. Object Of Projection estará no gnration até dia 5 de abril. Mário Cesariny e Cruzeiro Seixas estiveram, por sua vez, em Famalicão, cidade onde mora o Centro Português do Surrealismo e onde Verde Prato, com a sua voz etérea, cantou origens bascas. O acervo de José de Guimarães acolheu o quinteto Skanderani no CIAJG, em Guimarães e em Barcelos, não só vimos os Housepainters na Feira, pregões de wave e disco para os nossos ouvidos, como o duo galego Caamaño&Ameixeiras, num Museu da Olaria que é baluarte de nomes como Rosa Ramalho e Júlia Côta e que foi curto para receber todas as pessoas que estavam à porta.
Não faltou contaminação de património social, cultural e gastronómico neste SQUARE, onde tanto se abocanhava uma Frigideira de Braga na Favorita ou uma Torta de Guimarães na Pastelaria Nova Camir, como se subia até ao salão nobre do Theatro Circo, atravessando a imponente arquitetura do início do século XX, para ascender aos céus com Adelaida.
Vestida com um traje negro renascentista e envolta em fumo, debaixo do grandioso lustre do salão, a artista catalã parecia uma mensageira de outros mundos. Passeou por um “labirinto de criaturas” povoado por sons de mochos, sombras obscuras, animais reais e mitológicos.
O seu cantar polifónico, composto a partir de diferentes camadas do sintetizador, tem tanto de religioso como de pagão. Poderia ser o próprio canto de Braga, cidade das igrejas e dos arcebispos, mas cheia de vestígios pré-cristãos, como a Fonte do Ídolo de culto à Deusa Nabia. Foi como se Adelaida, cantando com uma voz flutuante entre Sílvia Perez Cruz e Anohni, e usando de soluções sonoras a lembrar Björk ou os Darkside, arrancasse das entranhas bracarenses cultos galaicos esquecidos e os elevasse ao reino divino de Zeus. Muérdago (2024), seu segundo álbum, é uma obra para ouvir no despertar das criaturas da noite.
Nota ainda para as atuações de Mynda Guevara, “mulher foda” renascida com o EP Phoenix (2024); para o terramoto psicadélico e de grindcore que Psudoku causou no SOMA, um dos novos espaços culturais de Braga a ter debaixo de olho; para a passagem da baiana Jadsa pelo café-concerto do Vila Flor, ao lado do trompetista Antônio Neves, dois dos nomes mais interessantes da nova música brasileira tradicional e experimental; e para a doçura das vozes de Yeri & Yeni, que se apresentaram no aconchego da Centésima Página, livraria independente que é referência há 25 anos em Braga e em todo o país.
Se o SQUARE regressar em 2026, como Márcio Laranjeira antevê com esperança, é uma boa notícia para a música que precisa de espaços-rampa para se lançar. Os artistas ficam a ganhar, o público também e o território, viveiro de grandes projetos artísticos, mais ainda. “Não há o meu nem o teu, há o nosso”, diz Márcio. Neste quadrado, ninguém fica de fora.