Os inspetores da Polícia Judiciária abrem com dificuldade a porta de ferro. À sua frente estende-se uma escadaria de 23 degraus, feita do mesmo material, que desemboca numa segunda porta. É tão pesada como a primeira e está trancada com ferrolhos, também de ferro. É o único acesso a um bunker cinco metros abaixo do solo, escondido numa propriedade de um hectare na pequena aldeia de Pergoim, em Braga.
Era ali que André esperava viver pelo menos durante dois anos. Preparava-se para sobreviver a um cenário apocalíptico. Estava tão convencido de que o fim do mundo estava próximo que raptou a própria filha, de três anos, da casa da ex-mulher. Acreditava num cenário muito pior que o da pandemia de Covid-19, que alguns anos antes levou a sucessivos confinamentos por todo o mundo.
“O sangue das pessoas está alterado … as grandes cidades não são seguras. Provas não faltam. E eu não posso permitir que aquilo que se passou em 2020 e que se vai repetir (multiplicado por 100) afete para sempre a nossa filha“, escreveu o homem de 42 anos numa carta dirigida à mãe da criança. “Esta é uma guerra invisível e exponencial”, sublinhou.
Segundo a acusação a que o Observador teve acesso, o plano de sobrevivência foi preparado ao longo de dois anos. Na propriedade, as autoridades viriam a encontrar quase 300 bidons, de um metro de altura e 50 centímetros de diâmetro, cheios com comida até cima. Outra dezena escondia litros de combustível e pela propriedade estava ainda espalhada uma centena de botijas de gás. Não foi lá, porém, que o pai se escondeu com a menor. Pretendia, num primeiro momento, evitar estar parado, planeando deslocar-se de um sítio para o outro, por estradas secundárias. Tinha esperança de que um dia a família se lhe juntasse.
A menor só foi recuperada e entregue à mãe seis dias depois do rapto. O pai foi detido e acusado de três crimes: rapto agravado; detenção de arma proibida; e resistência e coação sobre funcionário. Encontra-se a aguardar julgamento em casa, sujeito a pulseira eletrónica. Durante a investigação, foi submetido a perícias psiquiátricas que levaram a que lhe fosse diagnosticada uma Perturbação Delirante Persistente. O Ministério Público pede que seja considerado inimputável.
O plano de dois anos para sobreviver ao apocalipse
19 de janeiro de 2026. São 16h40 quando André chega de jipe ao prédio da ex-mulher, em Matosinhos. Estão divorciados há um ano e é a mãe que tem a guarda da menor. Desde então, o pai da criança vive na aldeia de Pergoim, no munícipio de Terras de Bouro, em Braga. É autorizado a vê-la sempre que quiser, basta que avise a antiga companheira com 24 horas de antecedência. Não o fez naquela dia e Sofia não está. Foi passar a tarde à casa do avô, a poucos minutos dali.
André anuncia que quer ir passear com a filha. Está nervoso, insiste que quer estar com a menor ainda naquela dia e até sugere ir buscá-la a casa do sogro. Chega a deslocar-se até lá, mas não lhe abrem a porta. A ex-mulher, Margarida, ligou a avisar que não o deixassem entrar. Quer que ele se acalme primeiro. Terá de esperar pelas 18h para se encontrar com a criança e, mal a vê, pega-lhe ao colo. Continua agitado.
Depois de uma paragem num supermercado, regressam juntos à casa da ex-mulher, onde planeiam jantar em família. André ajuda a criança a tirar as galochas e o casaco e diz que a vai levar à casa de banho para lavar as mãos. Sem motivos para desconfiar, Margarida faz o mesmo, noutra divisão mais afastada. Mas antes de entrar ouve a porta do corredor, que separa os quartos do resto da casa, bater com força.
Sobressaltada com o barulho, a mulher corre para o corredor. A porta, com uma janela de vidro, está trancada. Ainda chega a tempo de ver o ex-marido a sair de casa com a filha de três anos nos braços. Por uns momentos, fica paralisada; depois, corre para a janela do quarto e grita pelo nome de André. Nenhuma resposta. Tem de partir um vidro para conseguir sair. Não tinham passado mais de cinco minutos, mas foi suficiente para o ex-companheiro desaparecer com a filha.
Pega no telemóvel e começa a ligar insistentemente para André. Ele não atende, mas os dois trocam algumas mensagens escritas. O ex-marido mantém a história de que queria apenas ir passear com a criança, garante que a vai entregar em breve. Mas, em pouco tempo, Margarida terá nas mãos uma carta que revela que estava a mentir. Os acontecimentos das últimas horas foram programados. Aliás, estão a ser preparados há quase dois anos. André alega que está a proteger a filha de um apocalipse iminente.
As previsões de cidades cercadas, guerras e mais pandemias. “Se as pessoas acordassem, nada disto estaria a acontecer”
Uma câmara de videovigilância há de captar o jipe de André a passar um sinal vermelho no cruzamento da Avenida Fernão Magalhães com a Rua Dr. Henrique Miranda, em Matosinhos. São 18h15. Ao lado do condutor está sentada uma criança, num casaco vermelho.
Por volta dessa hora, Margarida já procurou o ex-marido e a menor nas ruas próximas a casa e ligou para os pais a avisar do desaparecimento. Pouco depois, também se apercebeu de que, além do rapto da menor, o ex-marido roubou a família. Estava a ajudar a gerir um investimento em bitcoins do sogro e desviou todo o dinheiro virtual para uma conta que controla. Eram cerca de dois milhões de euros, quase 20 mil pertenciam à mãe da criança.
Os motivos para tudo isto são apresentados numa carta escrita à máquina por André. Pediu à mãe que a entregasse à ex-mulher pelas 22h do dia 19 de janeiro, altura em que esperava já estar com a filha. Na missiva, revelava que estava a preparar um plano de sobrevivência a um cenário apocalíptico desde meados de 2024. Para isso, preparou um abrigo com capacidade para albergar dez pessoas durante pelo menos dez anos.
Prevê que, a começar naquele verão, e até cerca de 2032, vão passar-se “acontecimentos que vão pôr todos em risco”. “Não entendo como é que, com tantas provas inequívocas (nomeadamente o sangue e o que já se passou em 2020, quando a humanidade ficou enclausurada dois meses seguidos), quase ninguém presta atenção”, lamenta na carta. Acreditava que tudo começaria com a imposição de um estado de emergência: “supostamente vai ser temporário, mas que vai acabar por ser permanente”, antecipava. “As cidades vão ser cercadas e ninguém vai conseguir sair ou entrar a não ser com autorização.”
“Sei que isto parece impossível, mas isso e acontecimentos como colapsos económicos, guerras, pandemias e outros eventos, que prefiro nem mencionar, vão acontecer em pouco tempo, porque se trata de um fenómeno exponencial … se as pessoas acordassem nada disto estaria a acontecer”, sublinhou.
Por esta altura, o plano de André era apenas estar afastado das grandes cidades, que acreditava não serem seguras. Ainda não estava a pensar voltar à propriedade em Pergoim que preparou para um cenário apocalíptico. Descreveu à ex-mulher como ia circular em vias sem vigilância policial, evitando autoestradas ou portagens e abastecendo-se com bidões de combustível. Prometeu que, se nada se passasse até ao final de 2027 ou 2028, regressaria com a filha.
Na carta, exigiu ainda que a ex-mulher não contactasse a polícia. Ameaçou que, se ela o fizesse, André ia avançar com um plano B que seria pior para todos: fugir para outro continente. Acrescentou que esperava, porém, que com o tempo a família lhe desse razão e se juntasse a ele para viverem todos juntos.
Quase 300 bidões de comida e quantidades “inusitadas” de embalagens do chão ao teto
Nos dias seguintes ao rapto, André deitou fora o telemóvel e comprou um novo, mais rudimentar e, por isso, com um sinal mais difícil de intercetar. Está constantemente a mudar de sítio, seguindo sempre por estradas secundárias. Mantém-se numa propriedade com duas casas e um lago artificial na povoação de Padroso, em Montalegre, com deslocações excionais ao Porto, onde fica hospedado em hotéis, para se abastecer.
No carro leva sempre, além de vários telemóveis, computadores, um documento com informações sobre o tempo de que precisa para se deslocar entre Porto, Braga e Montalegre, bem como uma lista de localidades ao longo do percurso. Traz também várias agendas com inscrições. “Não estou para brincadeiras, o mundo em 2029-30 vai ser um sítio diferente e temos um filho para proteger“; “Nasci P/isto não há mais nada que possamos fazer”. Guardava também uma faca de mato e uma navalha; mais de 46 mil euros em notas e ouro, incluindo seis barras de 100 gramas.
Ao longo do tempo em que está desaparecido, vai mantendo o contacto com a ex-mulher. A 22 de janeiro, aniversário de Margarida, liga-lhe com uma lista de exigências que deve cumprir para receber a filha. Número um: deve mudar-se para Pergoim, onde ficará a tomar conta da menor. Em segundo lugar, a família deve aceitar o investimento que fez com as bitcoins roubadas. Por fim, a ex-mulher não pode pôr em causa que está no pleno uso das suas capacidades mentais. Mais tarde, acrescenta que teria de convencer também o avô e a sua companheira a irem morar com eles no final do ano. Tudo isto teria de ser colocado num contrato e assinado.
No dia 25 de janeiro, seis dias após o rapto, é feito um novo telefonema. André está com a filha dentro do jipe, parado num parque de estacionamento em Matosinhos. Quando liga à ex-mulher, a polícia está pronta para agir. Os três agentes da PSP aproximam-se devagar, identificando-se. Cercado, o raptor parece disposto a colaborar, mas muda de ideias e agarra a menor, para impedir que a levem. Chega a agredir os polícias e a própria criança (que fica com ferimentos), antes de ser imbolizado e algemado.
É só depois da detenção que as autoridades revistam a casa de André em Terras de Bouro. É uma propriedade rural, com cerca de 1 hectare. O acesso faz-se por uma estrada de terra batida, de difícil acesso. Há uma casa principal e outra secundária, mais pequena, além do bunker, a cinco metros de profundidade. Durante as buscas, a Judiciária vai deparar-se com toneladas de alimentos liofilizados (submetidos a processo de desidratação) de diversos tipos.
O interior da primeira casa é de pouco interesse para os inspetores. A grande descoberta está ao redor do edificio. Debaixo do alpendre, escondidos por pesadas lonas de oleado azul e preto, há cerca de 150 bidons, de 1 metro de altura e 50 cm de diâmetro, com comida. A maior parte tem grandes quantidades de carne de vitela.
Nas buscas na segunda habitação, de pedra, os inspetores encontram uma divisão com duas arcas frigoríficas cheias de congelados — há pizzas, carnes e sopa em vácuo. Noutra, “de difícil acesso face à quantidade absolutamente inusitada de embalagens e caixas de alimentos”, estão empilhados até ao teto enlatados, em vidro, de atum, sumos, arroz, patés e legumes. Tal como na casa principal, debaixo do alpendre os inspetores descobrem, escondidos debaixo de oleados, mais 138 bidons com produtos em pó — ali há sopas, leite, ovos, aveia, bem como vitela liofilizada, atum, massas e, novamente, legumes.
Noutro pequeno edifício, no meio da propriedade, composto por um churrasco, uma casa de banho e uma dispensa, estavam guardadas dezenas de garrafões de azeite. No exterior, as autoridades encontram ainda 12 bidons cheios com gasóleo e cerca de 130 botijas de gás.
O bunker, de forma tubular e revestido em ferro e madeira, também foi revistado. O abrigo subterrâneo era composto por dois corredores, uma sala com televisão e sofá, uma cozinha equipada com lavatório e frigorífico, vários quartos com camas e beliches, uma casa de banho e uma sala com máquinas de lavar e secar roupa. Todos os compartimentos estavam mobilados com equipamentos novos.
Na acusação a que o Observador teve acesso descreve-se que todos estes dados são provas de que “o arguido entrou numa deriva obsessiva quanto à necessidade de afastamento do mundo e materializou as suas intenções, concretizando um plano que vinha concebendo há vários anos e cujo modo de vida pretendia impor à ex-mulher e demais familiares”.
O Ministério Público cita um relatório médico em que o homem de 42 anos é diagnosticado com Perturbação Delirante Persistente. Foi considerado inimputável “em razão de anomalia psíquica e perigoso se não for seguido por médico psiquiatra e apoiado em instituição psiquiátrica”. Por estes motivos, o MP requer que seja declarado inimputável, “impondo-se-lhe o dever de sujeição a tratamento psiquiátrico junto de estabelecimento psiquiátrico apropriado por haver fundado receio de que venha a cometer outros factos da mesma espécie”.
Todos os nomes utilizados neste artigo são fictícios