De um lado Kendrick Lamar, um dos maiores rappers da atualidade, cronista urbano da América contemporânea. Do outro SZA, feiticeira do R&B com um talento raro para transformar dor em beleza. A Grand National Tour, que chegou ao Estádio do Restelo, em Lisboa, na noite deste domingo, uniu as duas estrelas num concerto que fez da capital portuguesa o centro do universo do hip hop — ou, pelo menos, o ponto onde dois dos seus maiores astros convergiram.

Quando um Buick Grand National, símbolo da tour e da mitologia pessoal de Lamar, surgiu em palco às 20h em ponto, todas as memórias das longas filas para entrar na casa do Belenenses se dissiparam. Para a história não ficará a entrada penosa para aceder ao relvado amplo para os milhares de espectadores (a Live Nation, entidade organizadora, não divulga números) que disputaram cobiçados bilhetes em fevereiro. Sim, as inexplicáveis filas digitais revelaram-se igualmente inexplicáveis fisicamente este domingo. Mas o que será recordado será um concerto que fez história para o hip hop em Portugal. É o primeiro show de estádio com esta magnitude. O palco estava pronto. O público respondeu. E, mais do que música, presenciou-se uma narrativa global que poucos países, em particular em solo ibérico, tiveram a honra de ver.

Com um Buick estacionado em pleno palco, diante do rio Tejo — cortesia da arquitetura aberta de Carlos Ramos —, era claro quem abriria as hostilidades. Kendrick Lamar assumiu o papel de mestre de cerimónias, mas sem dominar. Ao contrário da estrutura tradicional de concertos, com uma primeira parte seguida da atuação do cabeça de cartaz, Kendrick e SZA optaram por um formato fluido: dividiram o palco em segmentos alternados, entrelaçando os seus mundos musicais com equilíbrio. Em certos momentos trocaram versos, dançaram lado a lado e cruzaram harmonias; noutros, cederam o foco um ao outro, como se o espetáculo todo fosse uma conversa longa e cúmplice entre dois gigantes.

A dinâmica reflete um arco colaborativo que vem de longe — SZA e Kendrick cruzaram-se pela primeira vez em Babylon, tema do primeiro EP que a cantora lançou através da Top Dawg Entertainment (editora que ambos partilham), em 2014, e foram registando várias canções em conjunto em diferentes fases das suas discografias subsequentes, incluindo o êxito Luther, uma das peças-chave de GNX, álbum que o rapper editou sem aviso em novembro passado. Mas para isso o público português ainda teria de esperar.

Lamar e SZA não são parceiros óbvios, sejamos claros, e isso tornou-se evidente ao longo da noite. SZA, mais etérea, surgiu delicadamente sobre o carro coberto de heras, rodeada por 14 bailarinas e cenários floridos. Lamar, mais austero, apresentou-se com a contenção que lhe é característica. Acompanhado por oito bailarinos, vestia-se de t-shirt preta, jeans remendados, botas de trabalho gastas e, ao peito, um único sinal de ostentação calculada: um colar com um “X” incrustado de diamantes. Se os visuais de SZA evocavam o mundo natural, com asas de fada, borboletas e ciclos de vida e morte, Kendrick aludia à distopia urbana, com recortes de jornais falsos, vídeos de tribunais, depoimentos e piscadelas de olho à rivalidade com Drake.

Durante quase três horas, Lamar e SZA alternaram o controlo do palco, o que trouxe ritmo e imprevisibilidade (a possível num mundo de “provável setlist” que pouco deixa à imaginação) ao espetáculo. Às vezes, trocavam as voltas do público com um dueto terno, pequenas doses de calor humano no meio de uma produção milimetricamente orquestrada. O estoicismo de princípios de Lamar era atenuado pelo humor e doçura de SZA, mais comunicativa com os fãs, que reagiam entusiasticamente às canções.

Lamar abriu em modo ofensivo com Wacced Out Murals e Squabble Up, mas logo mergulhou em clássicos como King Kunta, Element e Humble. De uma energia belicosa saltou para momentos de introspeção com Swimming Pools (Drank) ou Poetic Justice, e viagens ao passado como Good Kid, M.A.A.D. City.

E se Lamar estava a lutar consigo mesmo, SZA tinha basicamente uma história para contar: a do renascimento espiritual após um desgaste emocional interminável. A maioria dos visuais era sobre o ciclo da vida e da morte, muitas vezes através da lente dos insetos, e no final da noite a cantora surgiu mesmo esbelta como uma sílfide com asas, para a sequência de músicas que melhor capturam a maneira como Solána Imani Rowe (nome de nascimento) extrai o lado mais solar da sombra: Shirt, Nobody Gets Me ou Kill Bill, canção que fantasia sobre a hipótese de matar um ex-namorado. As palavras de SZA que o vento perdia no espaço vazio do estádio encontravam lugar no coro no relvado, lembrando que não foi só o rapper de Compton a vender bilhetes para este espetáculo há meses esgotado.

E por falar no autor de To Pimp a Butterfly. Em vários momentos entre os intervalos dos atos, o ecrã gigante exibiu trechos de Lamar sentado para um depoimento – uma crítica direta aos recentes esforços de Drake para responder à contenda de ambos no mundo do rap através de vias legais. Um advogado (fora da tela) pergunta a Lamar se as alusões à violência eram apenas “metafóricas” ou se deveriam ser interpretadas como uma ameaça. (“Interprete como quiser”, foi a resposta.)

Não é de surpreender que Lamar arrasasse o público, já a noite caía, com Not Like Us, tema lançado no pico do beef com Drake. Foi um dos momentos altos do concerto, mas foram poucos os corpos vibrantes, mais preocupados em garantir a estabilidade das câmaras dos telemóveis. Entre vídeos, histórias de Instagram, chamadas de Facetime e Whatsapp, o expoente máximo da ironia terá sido atingido quando vimos uma jovem a fazer um BeReal — talvez na era do espetáculo digital até o “real” seja encenado.

Numa das raras vezes que se dirigiu ao público, SZA explicou que certos elementos do espetáculo terão ficado de fora por causa do vento, mas não deixou de elogiar a energia “incrível” da plateia, que, segundo disse, compensou tudo. Aliás, os tradicionais moshes, proibidos pela organização e desencorajados por Lamar, acabariam por ser inevitáveis durante faixas como Alright.

Já perto do fim, ecoou no Restelo um cântico que se popularizou nos últimos anos em festivais portugueses: “Esta m*rda é que é boa”. A frase rapidamente se propagou pelo estádio, num coro espontâneo que apanhou os artistas de surpresa. SZA, intrigada, inclinou-se para uma jovem na primeira fila e perguntou: “Podes dizer-me o que significa?”. A resposta estava pronta. “This sh*t is good”, disse, arrancando sorrisos. Kendrick, divertido, pediu ao público que repetisse. E assim se deu um dos momentos mais inusitados da noite: Lamar e SZA, lado a lado, a dançarem ao som de um cântico que já tinha chamado a atenção de outros artistas internacionais, como Post Malone no Rock in Rio de 2022, onde também acabou por se tornar viral — até com direito a tweet.

Após aquele que foi o momento mais descontraído e cúmplice da noite, SZA e Kendrick ofereceram mais ao público do Restelo. Já tinham passado por All the Stars, Doves in the Wind e LOVE, mas o povo pedia Luther, talvez a peça central de GNX, o mais recente álbum de Lamar, e Gloria, balada doce e melancólica. Duas canções de amor — ou daquilo que o amor deixa para trás — que romantizam os obstáculos com a mesma ternura com que celebram o afeto.

Nos ecrãs gigantes, a melancolia ganhou corpo com SZA, de joelhos, a assinar objetos que os fãs lhe lançavam ao palco, entre versos. A dada altura, Kendrick juntou-se a ela. Ambos continuaram a cantar, como se autografar fosse também um gesto performativo, mais um verso cantado com as mãos.

E então, o Buick Grand National regressou ao palco. Os dois entraram no carro, cúmplices, e seguiram viagem. A próxima paragem é Barcelona, no Estádio Olímpico Lluís Companys, esta quarta-feira.