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Vazios, doenças e a resposta de Helena Matos

23 mai. 2026, 07:02
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sábado, 23 mai. 2026
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Fotografia de Carlos Maria Bobone
Carlos Maria Bobone
Editor de Opinião

Caros leitores,

A Opinião desta semana foi rica em diagnósticos pouco animadores. À direita, tivemos a notícia da orfandade de Nuno Gonçalo Poças, a confessar a falta que lhe faz um Partido Popular, sem o histerismo e a vacuidade do Chega, mas que consiga ultrapassar o marasmo a que a AD parece resignada; a esta resignação, que Rui Ramos expressou dizendo que “o maior partido português, neste momento, não sabe que fazer de Portugal” acrescenta-se um problema claro de falta de identidade, que não é exclusivo sequer do PSD. Como diz Rui Ramos:

“A opção por oscilar entre PS e Chega só pode significar que Montenegro, apesar das páginas “reformistas” da sua moção, não quer comprometer-se com nada, à espera de eventuais eleições. Sendo este o seu cálculo, acaba por ser o cálculo dos outros partidos, que também oscilam como o PSD: o PS oscila entre ser o partido dos “pactos de regime” ou o novo albergue da esquerda radical; o Chega entre ser parte de uma maioria reformista, ou o patrono de todas as insatisfações e expectativas, sejam elas quais forem. Quem está no poder nunca enlouquece sozinho: o desvario é sempre geral”.

Este desvario tem também expressão numa esquerda que parece fazer da confusão a sua marca identitária (uma “sopa“, chama-lhe José Manuel Fernandes), confusão essa que, segundo Rui Pedro Antunes, levou o PS a esquecer alguns dos pontos mais importantes do seu legado histórico. Foi sobre isso que escreveu em Carneiro e a tendência para ser Kerensky, a propósito das reacções de José Luís Carneiro às declarações de Marco Rubio sobre Portugal. O texto fala sobre o “despropósito” das declarações de José Luís Carneiro sobre a Base das Lajes. Diz que as declarações vão contra o que o tem feito subir nas sondagens e contra os telhados de vidro que o próprio PS tem; parece esquecer, no entanto, uma parte essencial, e por isso perguntámos-lhe: não seria importante, para perceber se as declarações são justificadas, saber se ele tem razão ou não? Ou seja, não são despropositadas e irresponsáveis apenas se Rubio tiver mentido? Como é que podemos fazer análise sem saber o mais fundamental sobre o assunto, ou seja, quem disse a verdade?

Rui Pedro Antunes respondeu:

“A análise não tem tanto a ver com a acuidade ou a interpretação que é feita das declarações de Marco Rubio. O PS, enquanto partido da oposição que tem o direito (e o dever) de escrutinar e questionar o Governo, tem ao longo da sua história tido uma solidariedade estratégica em questões de política externa, em particular as mais sensíveis.
Neste caso, o próprio secretário-geral do PS assumiu que uma das duas partes está a mentir e exige a priori esclarecimentos do Governo português, o que coloca o ónus (amplificado pelas declarações de Eurico Brilhante Dias) da mentira em Portugal, em quem devia presumir que estava a palavra mais honrada.

A Administração Trump tem tido uma posição errática e o próprio secretário de Estado dos EUA, em muitos momentos, tem optado pela simplificação da linguagem, pelo exagero enganador (fica até melhor em Língua Inglesa, o misleading). Não é de estranhar, pela retória norte-americana, que Rubio tenha dito por exagero: “Portugal nem fez perguntas”. O Governo foi inteligente a dizer isso mesmo: pode não ser uma mentira, mas não foi uma declaração literal. Foi mais uma forma de enfatizar os entraves de Espanha (país que Rubio queria verdadeiramente visar) do que demonstrar uma permissibilidade de Portugal. Claro que não é irrelevante se foi mesmo assim. Mas a assertividade com que o Governo negou ter havido qualquer contacto, mostrou firmeza. Isto porque sabia que, se houvesse algum outro contacto, podia ser exposto.

Mesmo sem saber toda a verdade dos factos, sabemos que, perante a dúvida, o PS preferiu colocar em causa do Governo português. O sentido de Estado, o interesse nacional e o pacto PS-PSD que tem sido uma mais-valia na Política Externa, aconselhavam que, no mínimo, o tom do PS deveria ter sido diferente”.

Fizemos também uma pergunta a Helena Matos, que no seu texto alerta para o perigo de tentar aplacar o medo do terrorismo com notícias que se apressam a garantir que o maior problema dos criminosos nunca é ideológico, mas sim psiquiátrico. Helena Matos diz que isto, além de tudo o mais, estigmatiza os doentes psiquiátricos, e por isso perguntámos-lhe: se, de facto, esta associação entre diagnósticos psiquiátricos e criminalidade estigmatiza os doentes psiquiátricos, porque é que não há uma reacção forte da parte de médicos, psiquiatras ou psicólogos?

Helena Matos respondeu:

“Porque é que não há uma reacção forte da parte de médicos, psiquiatras, psicólogos? Na verdade esta pergunta deveria ser feita aos  “médicos, psiquiatras, psicólogos” que, na minha opinião, mantêm um silêncio que é uma forma desresponsabilização perante esta psiquiatrização da violência.

Quanto à sociedade e muito particularmente os meios de comunicação, grandes difusores desta tendência da psiquiatrização do crime e da violência, continuam a olhar para o crime se ele fosse uma ficção neo-realista: rouba-se porque não se tem acesso ao que se deseja, agride-se porque se é excluído… Quando um dia se esbarra naqueles crimes não enquadráveis nessa grelha de leitura, então surge a doença mental como a grande explicação para tudo aquilo que não sabemos explicar nos outros (por exemplo, o que leva alguém a atirar um carro contra um grupo de pessoas no centro duma até aí pacata cidade?) ou que nos perturba de tal modo que apenas aceitamos como explicação a loucura, veja-se o caso da mãe que abandona na beira duma estrada os seus filhos, um com três e outro com cinco anos.

Em resumo, acho perigosa a psiquiatrização do crime não apenas porque ela tem implícita uma atitude de condescendência para com o crime mas também e muito particularmente  porque se traduz na criminalização da doença mental”.

A figura

Na verdade, trazemos esta semana não uma, mas três figuras, por razões diferentes. A primeira é, por razões óbvias, Zapatero, e Jorge Fernandes escreveu sobre ele; a segunda é Marcelo Rebelo de Sousa, com quem Maria João Avillez esteve à conversa; a terceira, é José Sócrates, sobre quem Luís Rosa voltou a falar, a propósito de uma intervvenção de Vital Moreira. Dado o teor das acusações a Zapatero, quisemos saber de que maneira é que o caso espanhol se podia comparar com o de Sócrates, e Jorge Fernandes deu-nos uma diferença essencial:

“A analogia entre o caso de José Sócrates e de José Luís Zapatero resume-se numa frase: pela primeira vez na história das respectivas democracias, um prime-ministro é formalmente acusado de crimes de colarinho branco envolvendo, em ambos os casos, corrupção, tráfico de influências e falsificação de documentos. O caso de Zapatero é simbolicamente mais difícil para o PSOE porque, diferentemente de José Sócrates, que já tinha vários casos a assola-lo nos últimos anos enquanto primeiro-ministro, Zapatero havia conseguido construir uma persona pública de reserva moral do partido e da vida política espanhola, que, convém sublinhar, é recorrentemente assolada por casos de corrupção. No caso de Zapatero, assistimos à queda de um anjo”.

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Os ex-governantes

"O nome de Zapatero, recorde-se, é o mesmo a quem Sánchez deve, em parte, a sua longevidade política: foi o padrinho ideológico do reconhecimento implícito de Maduro como interlocutor legítimo e o homem que, durante anos, mediou os contactos do sanchismo com Caracas. "

Jorge Fernandes

a explicar porque é que Zapatero tem, ainda, grande relevância dentro do PSOE e do governo de Sánchez

"Haverá porventura quem olhe para este súbito novo emprego de tempo e de vida como um “salva-vidas” da solidão, do súbito vazio; da desilusão; do reencontro dificílimo com a vida “normal” e dessa trivialidade quotidiana da vida fora dos palácios quando se acabou de sair deles. "

Maria João Avillez

sobre a nova e muito atarefada vida de Marcelo Rebelo de Sousa

"Na realidade, Vital Moreira tem saudades do tempo em que o Presidente Jorge Sampaio, chantageado pelo seu amigo Ferro Rodrigues, chamou a Belém o procurador-geral Souto Moura para questioná-lo sobre o caso Casa Pia e a investigação a Paulo Pedroso "

Luís Rosa

sobre a forma como alguns "amigos influentes" de Sócrates continuam a procurar ajudá-lo de forma mais ou menos encapotada

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