Apesar dos elogios que têm sido feitos a Tudo na natureza apenas continua, o livro não chega aos calcanhares de O ano do pensamento mágico. Talvez por ser jornalista, a abordagem de Joan Didion é menos metafísica e o modo obsessivo como atende aos pormenores torna o livro mais realista. Afinal, quem é que nunca experimentou esse ano de pensamento mágico em que as pessoas que já cá não estão continuam a viver teimosamente nas nossas cabeças e nos nossos hábitos?

Mais do que sobre luto, o livro de Yiyun Li acaba por ser mais interessante como reflexão sobre parentalidade, sobretudo por representar com clareza – e sem o querer – o grande erro que as elites intelectuais têm propagado:

“O que podem os pais fazer, a não ser dar aos filhos espaço para existirem e deixá-los comportarem-se como querem, para poderem ser cada vez mais eles próprios?”

Importa notar que a pergunta é feita a propósito de crianças – como se as crianças nascessem com um conhecimento prévio e completo do que são e o papel dos pais fosse simplesmente deixar que se comportem como desejam. Dificilmente estarei longe da verdade se disser que esta ideia é absolutamente nova e radical na história da humanidade. E, claro está, errada.

A convicção de que as crianças têm uma sabedoria própria e mais elevada contrasta com o que a humanidade, ao longo dos tempos, sempre privilegiou: a valorização dos mais velhos como fonte de saber. Agora, parecemos ter invertido os termos. Há algumas semanas, numa conferência, um colega da Universidade do Minho observou: os seres humanos valorizam sempre aquilo que é raro, e se antes os mais velhos eram raros e, por isso, valorizados, agora são as crianças que são raras e tendem, por isso, a ser mais consideradas.

Trata-se de uma observação inteligente, embora não explique exatamente por que razão essa consideração se encontra associada a sabedoria. Não sabemos, afinal, que o cérebro humano só termina o seu desenvolvimento bem depois dos 20 anos? Não sabemos, afinal, que é o facto de o córtex pré-frontal ser a última coisa a ser formada que torna os jovens tão propensos a decisões impulsivas, dificuldade de pensar em termos de recompensa diferida e incapacidade de controlar as suas emoções? Não sabíamos, até há bem pouco tempo, que os mais novos tendem a ver realidade como “preto ou branco” (isto é, sem qualquer dúvida e ambiguidade) e que, conforme vamos crescendo, tudo fica mais cinzento? Não sabem aqueles que se dedicam ao estudo, à leitura e à reflexão, que quanto mais se estuda, se lê e se reflete mais dúvidas se tem?

Crescer, amadurecer, saber é provavelmente isso: ter mais dúvidas do que certezas. E ainda assim tem-se teimado em dizer que as crianças sabem o que querem, sabem o que são e que a fronteira entre pais e crianças deve ser diluída. Mais: que o facto de serem hábeis a mexer na tecnologia os torna muito mais sábios do que nós. Vivemos realmente tempos espantosos.

Já os antigos não tinham dúvidas. Como diz Séneca a Lucílio:

“Quando tiveres progredido o suficiente para te poderes reverenciar a ti próprio, és livre de demitir o teu mestre: até lá, precisas de uma autoridade que te mantenha em ação.”

Sem esquecer que somos, fundamentalmente, criaturas miméticas e que aprendemos quase tudo por imitação:

“É útil, sem dúvida, termos acima de nós um mestre, termos um modelo para contemplar, alguém que intervém e se faz sentir em todos os teus pensamentos.”

Se é verdade que as crianças nascem com um certo determinismo – somos afinal seres biológicos –, é igualmente certo que não nascem com um conhecimento finalizado do que são e, em particular, do que é uma vida boa. Foi sempre esse o papel dos adultos ao longo da história: orientar os mais novos.

Não é um papel fácil porque significa assumir responsabilidade e parece que, num tempo em que dissociamos responsabilidade de autoridade, ninguém está disposto a assumir a responsabilidade pelos mais novos. Deixamos que eles acreditem que podem saber o que é melhor para eles e para o mundo, mesmo sem um cérebro completamente formado, mesmo com “modelos de influência” que retiram das redes sociais, mesmo num mundo que é cada vez mais complexo e ambíguo.

Não é por isso surpreendente que os mais novos se sintam com legitimidade para exigir uma série de coisas – nomeadamente, que a administração da New York University retirasse o convite para orador da cerimónia de formatura de 2026 a Jonathan Haidt. O convite feito a uma das pessoas que mais tem estudado, investigado e refletido sobre os problemas da superproteção da infância, da fragilidade das novas gerações e dos impactos negativos dos smartphones foi recebido com “deceção, repulsa, falta de entusiasmo, derrota e vergonha”. Acima de tudo, não está ao nível de oradores anteriores como… Taylor Swift (juro que é verdade).

Para além da óbvia ironia que resulta de este protesto provar todos os argumentos que Jonathan Haidt tem feito desde A Infantilização da Mente Moderna até A geração ansiosa, o assunto tem sido colocado sobretudo no tabuleiro geracional. A nova geração acha que um Boomer – para eles, objetivamente privilegiado – não está em posição de servir como orientador e mestre. Afinal, eles já sabem tudo. Mas reconheçamos: nós é que estamos a falhar.