Há vinte e cinco anos, Zygmunt Bauman, um dos intérpretes mais lúcidos da modernidade, pensou o nosso tempo como uma época em que nada conserva  forma por muito tempo — um mundo fluido, instável e moralmente exausto. Em 2025 assinalam-se duas datas simbólicas: o centenário do seu nascimento e os  vinte e cinco anos da primeira edição do livro que se tornou referência mundial  ao cunhar o conceito Modernidade Líquida. São poucos os livros — sólidos — que se transformam em metáforas de uma época.

Bauman, com essa imagem, condensou a experiência contemporânea:  instituições, relações, identidades, trabalho, política e até a própria verdade  deixaram de oferecer sustentação, pois “os fluidos não mantêm a forma por  muito tempo”. Tornaram-se instáveis, flexíveis e voláteis. A solidez que antes  dava forma ao mundo diluiu-se, deixando-nos entregues a tempos efémeros e  descartáveis. As relações amorosas tornaram-se numa das metáforas mais  expressivas dessa liquidez. Superficiais e facilmente descartáveis, sujeitas à  mesma lógica do consumo, refletem um paradoxo: o medo de depender é  maior do que o medo de perder. A identidade, por sua vez, tornou-se  performativa e fragmentária — feita de pedaços que se sucedem sem memória, como uma colagem de fragmentos. O espaço público foi substituído pela visibilidade digital, e a felicidade perseguida por uma lógica do consumo e do  marketing. 

Bauman não lamentava o passado; observava o seu tempo e procurava compreender a profundidade da transformação, reconhecendo que a incerteza  seria talvez a única certeza. No mundo líquido, a velocidade substituiu a  permanência, e o indivíduo foi forçado a reconfigurar-se continuamente para  acompanhar as mutações do mercado, da tecnologia e da vida afetiva e social.  A promessa moderna de liberdade absoluta converteu-se num dever de  atualização contínua. O “homem líquido” vive permanentemente em  movimento, temendo o compromisso e a lentidão, porque a permanência tornou-se insuportável. E habituámo-nos a confundir movimento com sentido.

Há muito que vivemos em modo de ensaio. Como Bauman dizia, “a vida líquida  é uma sucessão de reinícios”, levando-me a pensar que talvez o maior drama  não seja recomeçar, mas nunca ter chegado a começar verdadeiramente. E  derivando da sua filosofia, parece que vivemos num novo regime existencial,  nascido da aceleração e da liquidificação: a cultura BETA. Herdada da  linguagem do software – onde o BETA é uma versão em teste: transitória, editável, inacabada e nunca final – vivida como um ensaio permanente: sempre a testar e nunca a ser.

Vivendo em modo BETA, ou seja, sempre em versões provisórias de nós  mesmos, a dissolução da forma e do eu – a identidade – deixa de ser um dado  fixo, e cada um passa a ser o seu próprio projeto. Ora, se o “eu” não se  consolida, o “nós” já nasce diluído, no sentido em que as mudanças constantes  impedem o enraizamento, tudo o resto evapora.

Quando nada é nem suficiente nem definitivo, e tudo é reversível, ficaremos para sempre suspensos entre um update e um upload.