O pensador espanhol e autor de A Rebelião das Massas, José Ortega y Gasset (1883–1955), faleceu há 70 anos. Esta obra, considerada por muitos como um ensaio profético pela espantosa clarividência, continua a influenciar correntes políticas, filosóficas, culturais e artísticas.

A propósito de A Rebelião das Massas, há uns dias, imaginei como Ortega – num cenário ficcional ou num qualquer hipotético universo paralelo – se estaria a rejubilar ao observar-nos e a ver confirmada a sua teoria: o problema não é a ignorância, mas a proliferação da mediocridade. Sorriria com um certo deleite: a sua massa está ainda mais viva!

Ao contrário do que já ouvi aqui e ali, a obra não fala sobre uma revolução das minorias ou do povo, nem de uma luta contra a opressão ou dos oprimidos. É antes um fenómeno sociopolítico e cultural bastante mais profundo que o autor observou instalar-se já na Europa da época: a ascensão do homem-massa.

O homem-massa de Ortega não é uma classe social, mas uma atitude de conformismo, ignorância cultivada e recusa da excelência. Pode bem ter um título académico superior, exercer uma profissão de topo, ser rico ou ter “sucesso”, sem que com isso tenha necessariamente desenvolvido um pensamento crítico ou uma atitude reflexiva. Até porque “o homem-massa sente-se perfeito” e, o que já é perfeito, não tem margem para melhoramentos.

Deslumbrado com as suas conquistas, económicas ou académicas – e como o que atingiu era o fim da sua meta – adota uma postura arrogante, conformista, acrítica e “vulgar” pois “(…) como a coisa mais natural do mundo, tenderá a afirmar e considerar bom tudo quanto em si acha: opiniões, apetites, preferências ou gostos.” E o homem-massa tem opiniões sobre tudo e a todo o momento.

Como dizia Pascal, quem leu pouco acha que sabe tudo. Mas, mais do que se quer saber, quer-se ter razão. Para que haja a consciência do “eu não sei”, é preciso ter dedicado algum tempo à leitura e à reflexão de uma determinada área do conhecimento. Porém, bastam um punhado de informações avulsas – uma notícia aqui, um título ali, um vídeo nas redes sociais – para se ter opinião, embora “formada”, está desinformada de conhecimento.

Este homem-massa, apesar da falta de mérito ou preparação, ocupa lugares de influência, porque o seu número de representatividade impõe a sua presença no espaço público. Com a perda de referenciais culturais elevados, este fenómeno conduz a uma espécie de “nivelamento por baixo”, colocando em causa a própria democracia. “Vivemos sob o brutal império das massas.”

Ortega não denuncia a democracia em si – pelo contrário, defende uma democracia, fundada na exigência e na responsabilidade. O que denuncia é a degeneração da democracia em populismo, quando os mecanismos democráticos são capturados por uma mentalidade de massas que recusa o mérito e a excelência, em nome de uma falsa igualdade. Assim, o poder deixa de ser orientado para um bem coletivo maior, e passa a ser determinado pela força do número que representa, pela emoção, pela conveniência e agressividade. Reivindica para si o direito de impor a sua opinião sem mediação, sem autocrítica e sem conhecimento profundo por ser “aquele que exige direitos e recusa deveres”.

Contra a rebelião das massas, Ortega não propõe o elitismo, mas a recuperação da nobreza do espírito como fundamento de uma democracia verdadeiramente adulta.

Escrito há quase cem anos, os paralelismos são notáveis. Vivemos na versão moderna da rebelião das massas.