O cinema retrata estados de alma. Das pessoas, mas acima de tudo de uma comunidade numa determinada época. Se os anos 70 foram o tempo dos anti-heróis, dos filmes negros, enigmáticos e de moral dúbia, a década de 80 foi marcada pelo optimismo e a confiança. Portugal não foge à regra (para as quais há excepcões que a confirmam), com as tendências do Cinema Novo que nos anos 60 fugia à narrativa vigente, a influência da revolução nos 70, a vontade das longas metragens em 80 e até o popular dos anos 40. A Lisboa e o Fado como cenário para um desenrolar de preocupações simples, quando a Europa se guerreava e Portugal era um jardim onde se via futebol e se namorava nas ruas.

Levado pela boa impressão que me deixou o ‘Gaiola Dourada’, vi o novo filme de Rúben Alves sobre o Santo António e os casamentos de Lisboa patrocinados pela câmara municipal. A diferença não podia ser maior. Se ‘Gaiola Dourada’ era nostálgico, mas divertido, este é desanimador e derrotista. Atenção que não digo que o filme seja mau. Não sou crítico, apenas gosto de ver cinema. O que retive e pretendo realçar é a diferença entre a ideia positiva que um deixou há oito anos comparada com a negativa que o outro passa agora. A Lisboa popular desapareceu com o turismo, a Lisboa que conhecíamos e a que nos habituáramos, a Lisboa das mercearias e dos restaurantes de bairro, das pastelarias, das tabacarias, do pequeno comércio, dos vizinhos desapareceu e não volta.

O filme retrata o fim de um tempo que não regressa, mas também não antecipa a expectativa de outro, diferente, claro, mas que por ser misterioso não deixasse de ser entusiasmante e desafiador, bonito e humano. Não. Perante o fim, resta a saudade de quem viveu uma realidade doce que os mais novos jamais conhecerão.

Nesta medida, o filme ‘Santo António – o Casamenteiro de Lisboa’ é um excelente retrato da actualidade. Do nosso estado de alma. Da nossa nostalgia perante algo que passou, mas essencialmente da falta de esperança pelo que aí vem. À semelhança do filme, em que as pessoas se despedem com palmas das vidas de que gostavam, vivemos um tempo que sabemos ter chegado ao seu fim, mas não vislumbramos outro que o substitua e que possamos desejar.

A tese de que a falta de desafios nos fez perder o norte falha no ponto em que hoje os há em todo o lado e o sentimento de não pertença permanece. Se o que não faltam são desafios o problema não deve estar aí, mas em algo maior. Nazismo e comunismo foram combatidos não só pelo mal que faziam, mas também pelo bem que a liberdade individual prometia. Isso e uma capacidade para distinguir o bem do mal, o certo do errado, a vida da morte. No fundo, a essência do Cristianismo. Não necessariamente o cumprimento dos sacramentos, menos ainda a moral sectária em que tantos caíram, mas o acreditar ou ter interesse em compreender a necessidade ou a mera possibilidade de alguma coisa maior que justifique a nossa existência. Os líderes políticos passados, à semelhança das pessoas ligadas à escrita e às demais artes, inclusive portugueses, alguns dos quais ateus ou agnósticos, tinham essa formação de base cristã. Estavam imersos nela. Pelo que vejo o mesmo não sucede entre a grandessíssima maioria dos políticos e artistas actuais que, sem essa base, não atingem além do imediato. Nem todos porque não queiram, alguns até o tentam, embora não consigam. Porque sem essa capacidade de elevação não existe o espírito de missão que a coragem política exige e a comunicação cultural pede. A política e a arte tornam-se apenas num jogo. No seu filme, Rúben Alves retrata isso muito bem através do santo que não passa de um brinquedo e não a pessoa que foi. É assim que estamos no intervalo entre um tempo e outro e o gongo não tem pressa em nos chamar para a segunda parte.