Sob a égide do Presidente da República, os partidos decidiram conversar sobre habitação. Naturalmente, e como se esperava, não chegaram a acordo. A não surpresa deve-se a dois factores políticos: o primeiro, de carácter programático, porque PSD, Chega e PS propugnam caminhos diferentes; segundo, de nível táctico, porque nenhum quer fechar acordo com o outro, na medida em que fazê-lo dá vantagem imediata ao que ficar de fora.
Conforme já referi várias vezes neste espaço este jogo triangular entre três partidos cria condições impossíveis a qualquer diálogo. Foi por esse motivo que há um ano considerei que as boas intenções de António José Seguro seriam tempo perdido para o país. As horas de conversa entre PSD, PS e Chega em São Bento podem ser apenas as primeiras de muitas mais que hão-de vir. É provável que assistamos a outras. Horas e oportunidades perdidas.
A questão que então se coloca é simples: como é que se sai daqui? Sendo simples a pergunta, a resposta é complicada. Há quem ache que o melhor é esperar. Foi o que Luís Montenegro decidiu fazer. Quando ganhou as legislativas em 2024, o novo primeiro-ministro procurou a todo o custo reconstruir a antiga base eleitoral do PSD cavaquista. Concedeu um suplemento extraordinário aos pensionistas, fechou acordos salariais com determinadas classes profissionais de modo a pôr termo às suas contestações e concedeu algum alívio fiscal ao nível do IRS. A intenção era vencer as eleições seguintes, senão com maioria absoluta pelo menos com uma votação expressiva que esmagasse ou o PS ou o Chega. Para sua surpresa não aconteceu nada disso. A vitória em 2025 foi escassa para que Montenegro se sentisse à vontade para agir diferentemente do que fizera em 2024. Com a particulariedade de a distribuição de benesses ser um truque gasto. Se o efeito pretendido não foi alcançado quando era novidade menos útil o seria depois.
A outra possibilidade era apresentar reformas forçando PS e Chega a aprová-las ou a chumbá-las. Ao fazê-lo, o PSD mostrar-se-ia ao eleitorado como um partido que sustentava um governo que tinha um rumo que queria implementar contra dois partidos da oposição que se limitavam a ser contra. Foi o que fez Cavaco Silva entre 1985 e 1987. As legislativas de 85 foram vencidas pelo PSD com menos de 30%. PS e PRD ficavam-se pelos 21% e 18%, em posições não muito diferentes das do PS e do Chega em 2024. Montenegro viu isso e achou que lhe ia acontecer o mesmo que a Cavaco. Sucede que Luís Montenegro não é Aníbal Cavaco Silva. Não foi nem nunca será. Sem maioria, Cavaco apresentou reformas. Não ficou à espera que alguma coisa de milagroso acontecesse. O eleitorado estava atento e nas eleições seguintes premiou-o em detrimento da oposição que castigou fortemente.
Caso tivesse optado pelo mesmo caminho de Cavaco Silva em 1985, Luís Montenegro teria forçado o Chega e o PS a decidirem. Mais e ainda mais importante: a que o eleitorado escolhesse. Podia ter-lhe corrido mal, podia ter perdido logo em 2025, mas com o outro caminho que escolheu, o da inércia, além de provavelmente ter colocado em risco a viabilidade futura do próprio partido, o seu destino será o mesmo: sair. Mais tarde, é certo, mas sair na mesma sem ter deixado quase nada. Nem mesmo uma visão para o país. Nem sequer uma opção para o eleitorado.
Porque é isto que devia ser a democracia. Uma escolha entre opções diversas. Infelizmente, e porque a classe política actual vive da política e tem medo de sair dela, não se apresentam soluções para que o eleitorado escolha. Em vez disso, conversa-se. É mais agradável, é muito mais fácil, é ainda mais bonito e os intervenientes gostam de se ver nas fotografias com a pose e o sorriso dos bem intencionados. Mas o país perde, as pessoas ficam pior e a democracia descredibiliza-se.
Ou seja, perdemos todos. À excepção dos populistas que singram.
P.S.: Agostinho da Silva escreveu que “O que Portugal fez de maior no mundo não foi nem o descobrimento, nem a conquista, nem a formação de nações ultramarinas: foi o ter resistido a Castela. O ter mantido, através de sangue e fogo, o princípio de independência dos territórios periféricos”.
De todos os golos que Cristiano Ronaldo marcou pela selecção, o que mais retenho na memória foi o terceiro à Espanha, no mundial de 2018. Perdíamos por 3 a 2, com dois golos de Ronaldo. Faltavam poucos minutos e aquele livre directo era a nossa última oportunidade. Sem receio por assumir o encargo, Ronaldo posicionou-se, esperou, respirou fundo, deu uns passos para a bola e chutou-a para o fundo das redes da Espanha. Todos rejubilámos de alegria enquanto os espanhóis baixaram a cabeça. Gosto e respeito muito da Espanha, tal como o Ronaldo que jogou e viveu lá. Mas a essência é esta e viu-se naquele golo. Na garra com que foi arrancado. Vai ser difícil vermosoutra vez algo semelhante nas nossas vidas.