Sei que o termo “profestisa” não consta dos dicionários, e não se trata de um erro na impressão: seria profetisa que eu pretenderia escrever, mas infelizmente a gralha ficou. Não, não foi isso que sucedeu. A Taylor Swift não é nenhuma profetisa: enche gigantescos estádios com incontáveis fãs, e é seguida por dezenas de milhões de adolescentes (e alguns restos de precedentes gerações) contemporâneos da era digital, mas aquilo que dela se ouve e vê nem é profético nem transcendente: nada semelhante a um aggiornamento do tele-evangelismo made in the USA. Isto dito, a norte-americana é um caso único na sua comprovada capacidade de reunir e animar multidões: é alguém de quem imediatamente se gosta, ao mesmo tempo que cativa pelo comprovado jeito de estar em cena de mão dada com a audiência, quebrando ab initio, nas suas representações, a distância física e, sobretudo, mental – ela é uma diva que efetivamente há anos paira sobre os seus seguidores – entre ela e os fãs.
É mais o desejo que a Festa aconteça que lhe está na mente: o fim ambicionado é que « everyone have fun», e que esse desígnio se traduza na presença do maior número nas suas aparições públicas , ou que sejam muitos a adquirirem os produtos com a sua marca, ou os livros bibliográficos publicados, ou o álbum dedicado à sua extraordinária digressão «The Eras Tour»: Em Dezembro de 2025, foram disponibilizados no canal Disney + a série documental The End of an Era,e um segundo filme-concerto intitulado The Final Show. E as críticas dos exigentes críticos musicais foram unânimes no reconhecimento das fantásticas prestações de Taylor Swift .
Para todos os efeitos, ela é a CEO de uma poderosa empresa unipessoal de eventos apoiada numa competente campanha de marketing, com o primeiro fito de valorização da matéria-prima de excelência que é, de facto, a própria artista: a ideia-mestra é atrair duradouramente essa faixa etária situada nas vésperas complicadas da vida adulta, que deseja descobrir-se, with the help of their friends, nessa complexa transição. Pontificam as mensagens suaves e próximas dirigidas a um consumidor final cujo perfil foi cuidadosamente estudado: a prioridade não é a de doutrinar ou convencer e, se necessário, ser-se incómodo, mas antes de se aproximar com alegria de uma faixa de clientes cuja fidelidade se pretende consolidar. Lembrar-lhes que têm uma vida à sua frente, e que tudo lhes será possível. Os multiplicados efeitos especiais nas suas impressionantes exibições caracterizam aquelas horas de puro gozo, e êxtase pessoal e coletiva. E TS não se poupa, um segundo que seja, nessas suas presenças, merecendo bastamente aquele repetido tributo de tanta gente.
Pressente-se sem esforço uma autêntica empatia, muito para além das letras e das canções da estrela pop. Esta extraordinária onda de entusiasmo de tipo tribal, aliás, será a versão revista e corrigida, de passados e lendários encontros entre grandes intérpretes de canções populares, e jovens irrequietos e sonhadores, inaugurados no momento histórico de afirmação de uma furiosa vontade de libertação dos pesadelos da segunda guerra mundial. Com efeito, tudo se iniciou nos anos 50 do eletrizante Elvis, aproveitando o surgimento de uma conquistada prosperidade económica pós-45 em grande parte dos países ocidentais e ocidentalizados, e da semanada ou mensalidade de montante progressivamente mais elevado nos bolsos dos teenagers. O Show-Business estreava-se euforicamente numa época toda voltada para o descobrir e vivência de um declarado e obrigatório otimismo: o futuro que edificariam traduzir-se-ia na instalação de um mundo de paz e concórdia, onde todos tivessem direito ao seu quinhão de felicidade e prosperidade .
Saltando de novo para o século XXI, e para a geração dos “tayloristas” , os rapazes e raparigas que participam nesses grandes momentos de diversão, sempre munidos de pequenos computadores portáteis , nunca se desligam desse planeta lúdico que antes se produzia quase exclusivamente nas Saturday nights com mais ou menos fever: não só podem ouvir , non-stop e onde quer que estejam, os seus “ídolos”, como têm à sua disposição plataformas sempre acessíveis – tal como as farmácias destacadas para serviço de urgência 24 horas por dia – onde trocam freneticamente informações, sem pausar antes da próxima.
A escapadela da “maçadora” rotina quotidiana já não se circunscreve à clássica trilogia Sexta, Sábado e Domingo, antes se produzindo e prolongando abusivamente pelos restantes dias hebdomadários. O fim-de-semana foi substituído pela diversão-sem-fim, mas nem tudo o que luz é ouro, e tem vindo a crescer geometricamente o número dos próprios “digital natives” a tomarem consciência de que, afinal, serão instrumentalizados por um invasivo e sofisticado sistema tecnológico que se porta como se fosse dono e senhor da sua vida: esperavam uma emancipação, e saiu-lhes na rifa, em sua vez, uma involuntária submissão, não obstante a mensagem generalizada de que é por aí que se constrói e alcança a desejada felicidade.
Neste estado-de-sítio conjuntural fechado, muitos se vão dando conta da falácia que lhes é contada: nem querem ser servos da máquina, nem encontram muito mais do que uma generalizada instabilidade entre os seus iguais com quem supostamente iriam preencher o vazio que os domina e obter as respostas que procuram. E os influencers de ocasião só lhes oferecem sugestões efémeras e frequentemente interesseiras, pelo que se vêm consumindo-se sem proveito nem glória.
Onde estão as verdadeiras profetisas?, interrogam-se.
A Débora, a Hulda, a Miriam?
E enquanto esperam, levam consigo, para os elaborados e sofisticados concertos da maior estrela atual do firmamento musical pop , umas “pulseiras da amizade” feitas em suas casas com a finalidade de virem a ser trocadas com os vizinhos ocasionais daquelas espécies de celebrações coletivas. Lembram nesta informal irmandade os distantes anos 60, época de ouro do movimento hippy. No fundo, é esse simples gesto quão pessoal – num evidente parêntesis do seu universo digital – que mais do que tudo lhes apetece partilhar. Na boa companhia da amiga Taylor, a insubstituível chefe-de-turma.
P.S.: Há dias, ouvi uma participante habitual num programa televisivo eleger a Taylor Swift como personagem do ano de 2025. Os outros comentadores escolheram Trump. Para mim foi o Papa Francisco.