Já tinham sido registadas, no passado recente, algumas informações veiculadas por reputados meios de comunicação internacionais, apontando para uma eventual intenção atribuível a Putin  de testar  de variadas maneiras  a reação de determinados países da OTAN do lado europeu do Oceano Atlântico, antes de vir a concretizar eventuais ofensivas bélicas – por meio de instrumentos convencionais ou, paralelamente, através de um conjunto de medidas cirúrgicas híbridas de desestabilização e suspensão ou destruição de estruturas essenciais para a salvaguarda dos interesses e soberania nacionais – visando os seus respetivos territórios, inclusive mediterrânicos.

O que sucedeu há dias, com a entrada não autorizada de um helicóptero russo no espaço aéreo polaco inscrever-se-ia naturalmente naqueles citados propósitos: a violada Polónia reagiu de imediato, enviando no seu encalço alguns aviões-caça, e tudo voltou à normalidade, com o piloto intruso acatando sem pestanejar a ordem de regressar a casa. Terá durado quarenta e dois segundos aquela incursão, e o piloto terá regressado ao exclave de Kaliningrad, de onde partira.

Já a caminho do quinto ano desde que se iniciou a « operação militar especial» moscovita na Ucrânia, e com um Trump ocupado a tentar minorar, neste aproximar das eleições intercalares norte-americanas, quer os efeitos negativos decorrentes da prossecução do conflito naquele país eslavo, quer os da estapafúrdia guerra ( «a meias» com Telavive ) contra o Irão – aconselhada e partilhada pelo hábil primeiro-ministro de Israel e velha raposa política, que terá sido o  primeiro , senão o único dos governantes de países aliados dos EUA a entender e a manipular a extrema fragilidade pessoal de um presidente possuidor de um confrangedor e doentio egocentrismo – , o presidente da Federação russa terá concluído que chegou a hora de ordenar uma série desses exercícios prévios de avaliação: se o Ocidente insistir e ampliar o auxílio a Kiev, a retaliação russa acontecerá onde maiores estragos causar nos territórios dos países implicados nesse apoio à Ucrânia. Em linguagem vernácula, Moscovo castigará, num futuro próximo, todos aqueles que se intrometerem negativamente na sua ´operação militar especial`.

Conhecendo-se também a instabilidade político-social que vai germinando nas mais poderosas e populosas democracias europeias, a saber,

  • a expetativa de um provável «tremblement de terre» político a ser suscitado em França, se Marine Le Pen e Jean Luc Mélenchon passarem à segunda volta destas próximas eleições presidenciais: ambos tendo já protagonizado, sem sucesso, a situação de candidatos à presidência, desta vez um deles viria, nesse contexto, a ser inevitavelmente o sucessor de Emmanuel Macron no Eliseu;
  • a extrema dificuldade da Grã Bretanha – entenda-se: dos partidos trabalhista e conservador –  em demonstrar aos seus cidadãos-eleitores, uma suficiente capacidade de persuasão no que se refere a grandes, penosas e indispensáveis reformas que agora se revelam inadiáveis:  o espetáculo da sucessão, a um vertiginoso ritmo, de governos e primeiros-ministros –   trazendo-nos à memória o lamentável desprestígio que em seu tempo pairou sobre a saltitante democracia italiana, decorrente precisamente de uma imagem de caos provocada por uma série de precários governos « experimentais » que se iam seguindo uns aos outros –  reflete com exatidão a fragilidade político-partidária ainda prevalecente . Porque os ´nice and soft Liberals`  padecerão, ao que dizem, de uma excessiva urbanidade do seu líder, e de um anódino pacote de sugestões de mudança do status quo, tem sido sobretudo o «Reform UK» do sonoro Nigel Farage – malgrado o seu determinante envolvimento pessoal na aventureira escolha referendária a favor da saída do UK da EU, de cujas nefastas consequências só alguns nacionalistas e outros distraídos se não dão conta-  a tirar partido dessa generalizada insatisfação popular;
  • a complexa situação espanhola com um governo de geringonça a conhecer o normal desgaste sofrido quando já são bastantes os anos exercendo o poder, acrescentando-se-lhe ademais, a suspeição de diferentes casos de corrupção ligados ao primeiro-ministro Sanchez, por um lado, e por outro, a ativa e forte oposição das formações partidárias de direita. De facto, e não obstante uma relativa melhoria no desempenho económico, e paralelamente, um sobressalto de afirmação no plano externo -tanto no que se prende com à firme posição em relação à Palestina, como relativamente à dura crítica formulada aos comentários de alguns países da EU sobre o grave incidente dos milhares de refugiados marroquinos que recentemente «invadiram» Ceuta-,  não parece sustentável, a não ser se o VOX e o PP complicarem as suas relações bilaterais, uma reedição de um governo presidido pelo PSOE ;
  •  e na Alemanha – em cuja estabilidade político-partidária e capacidade económica nos habituámos a confiar desde o pós-segunda Grande Guerra -, uma clara descrença popular em relação à capacidade dos chamados «volksparteien», a CDU e o SPD – hoje governando em coligação – , de responderem adequadamente aos desafios económico-sociais internos e estruturais, mas também à reciclagem de atividades com forte dependência do exterior – vide a energia e a indústria automóvel – que tanto as sanções pós-invasão russa da Crimeia no contexto da primeira, como uma paralela e notável evolução da concorrência chinesa, no respeitante à segunda, vieram a colocar numa situação de acentuado declínio;
  • a Polónia de Tusk, obviamente refém da geografia, gerindo o melhor que sabe, tanto as consequências internas do seu generoso acolhimento de um imenso fluxo de refugiados da Ucrânia, como a ameaça sempre presente de eventuais ações militares hostis por parte da Rússia…

…tudo isso reflete e confirma as atuais vulnerabilidades nesta nossa Europa. E o homem do Kremlin, que não só repetidas vezes expressou o seu desgosto pelo desaparecimento da sua amada e prestigiada URSS, como se habituou a ouvir com interesse o filósofo Alexandr Dugin falar-lhe entusiasmadamente do conceito Eurásia, nada disso ignora.

(A Itália aparenta ser, no seio desse específico grupo das mais relevantes democracias continentais, a exceção à regra: a crónica instabilidade que foi durante décadas a marca de um Estado ausente, foi substituída por uma quase estranha normalidade constitucional acarinhada por uma governação que se tem vindo a distinguir pelo seu apreço pela estabilidade político-económico-social.)

Finalmente, deixo no ar duas curtas interrogações:

a) alguém achará sequer concebível que, mesmo no caso de uma Europa fragmentada e parcialmente inoperacional, Putin viesse a vencer? Aposto cem rublos que o próprio, anonimamente, votaria contra. (O seu desmentido público, desta vez, é verdadeiro, mas infelizmente ninguém acredita no homem).

b) quem estará interessado na propagação desta fantasia?