No próximo Domingo, dia 25 de Outubro, vai ter lugar a segunda Volta das eleições presidenciais no Brasil. Quarenta e oito horas após, acontecerá a votação para a israelita Knesset, e poucos dias depois, as intercalares para a renovação das duas câmaras do Congresso dos Estados Unidos da América.

Assinalo esta curiosidade do calendário por duas precisas razões: a) sendo cada um dos citados atos um mero sufrágio nacional, já o seu impacto supera em muito o âmbito exclusivamente interno; b) todas essas manifestações democráticas se inscrevem, confirmando-o, num tempo mundial fortemente marcado por um difícil ajustamento da vida política aos ventos de transição e dúvida que hoje sopram no inteiro planeta, gerando uma omnipresente polarização político-partidária.

Feito este curto e parcial enquadramento, é sobre o ´país-irmão` – isto da língua tem que se lhe diga, até a divertida afirmação de que nestas nossas relações bilaterais tudo nos une, a não ser, precisamente, a língua – que esta breve prosa se ocupa. Como é sabido, na votação na primeira Volta, nenhum dos credíveis candidatos logrou obter a maioria dos votos dos seus concidadãos eleitores: foi o Senador Bolsonaro quem ganhou , com 47 contra 45% de Lula, e tal situação obrigou os contendores, desde então, a procurarem convencer , no universo dos preguiçosos ou desiludidos da política que se abstiveram ou nem sequer se deslocaram ao lugar onde as competentes urnas se encontravam, novos votos favoráveis que venham a consolidar ou a contrariar o veredito do passado dia 4.

Isso dito, e segundo recentes sondagens, não se terão entretanto registado alterações de vulto nas previsões aí avançadas, pelo que, acreditando-se nesses indicadores, nada sugere que se venha a estabelecer uma qualquer estabilidade pós-eleitoral: com efeito, e diante da profunda animosidade entre os apoiantes de cada um dos oponentes- espelhando aliás as afirmações e mútuas acusações incendiárias por estes produzidas- , o mais provável será uma continuação do presente e conflituoso status quo. Ainda para mais, e a acrescentar a esta bem picante feijoada brasileira , persiste na memória de milhões de potenciais votantes o excessivo piri-piri da tentativa de golpe alegadamente comanditado pelo pai Bolsonaro que, neste momento ,e por isso, cumpre uma pena de prisão – situação que de imediato chama à colação idêntica ocorrência num passado recente com o re-candidato Lula da Silva ( e, ainda nos anos 90 do passado século, com o ex-Presidente Collor de Mello).

Se Flávio Bolsonaro vier a vencer o ´troféu`, instalando-se de pleno direito na residência presidencial situada naquela maravilhosa Brasília pensada por Kubichev e concebida por Niemeyer, é expetável que uma legião de analistas caia na armadilha de diagnosticar que o Brasil, voltando-se para a Direita, transformar-se-á naturalmente no líder incontestado – com a admissível e histórica reserva argentina – e motor de um novo ciclo ideológico regional que partilhará uma tácita aliança com os países europeus que entretanto escolheram como futuro metas afins.

Permito-me duvidar, contudo, dessa asserção que, teoricamente aceitável embora, parece-me carecer de um indispensável aprofundamento crítico sobre a complexidade da realidade concreta – no plano interno e da sua visão sobre o seu lugar no mundo – , desse país-continente. Efetivamente, se é  porventura aliciante procurarmos no contexto de uma vitória de Flávio Bolsonaro uma certa coincidência doutrinal, já a ideia de consolidação de uma via política comum no espaço latino-americano e europeu, me parece algo arriscada ou precipitada: se não tomarmos em conta as peculiaridades históricas ou as especificidades político-geográficas dos países-membros de uma imaginável aliança intercontinental de Direita, incorreremos numa mentirosa simplificação processual.

Saibamos interpretar as evoluções geopolíticas à luz de uma ordem internacional em mudança que parece tender para uma gradual substituição da situação essencialmente forjada nos anos subsequentes a 1945, pelos vencedores dessa trágica «guerra civil europeia» com efeitos planetários. O pouco que já se sabe em relação a esta dinâmica, aponta para uma relativa perda de influência do Ocidente – leia-se, incluindo ainda os poderosos USA , que nos habituámos a considerar o líder do mundo livre -, e ao surgimento de uma série de relações internacionais pautadas em especial numa ótica pragmática.

O Brasil, aliás, tem sido muito claro quanto ao seu posicionamento nesta nova reconfiguração, nomeadamente através da sua inclusão , p.e., no grupo dos BRICS e no´ Global South`: num cenário internacional caracterizado por uma crescente liquidez e flexibilidade, esta sua presença nesses dois foros revela tão só a sua convicção de que uma ancoragem exclusiva a um agregado de países ou a uma determinada linha   ideológica é passível de comportar mais inconvenientes do que vantagens.

Julgo que o Brasil é grande demais para ser de Direita ou de Esquerda: vai navegando ao sabor dos ventos, venham eles de Bombordo ou de Estibordo.