A indústria automóvel portuguesa é uma das mais relevantes para a nossa economia, com um impacto significativo nas exportações nacionais e no emprego industrial.
Para além de empresas que se dedicam ao fabrico de automóveis em território nacional — como é o caso da “Autoeuropa” ou a “Stellantis” (ex-PSA) — o leque de empresas que se dedicam em Portugal ao fabrico de componentes para a indústria automóvel aumentou nas últimas décadas, fazendo de Portugal um centro importante na produção de componentes para automóveis, com milhares de trabalhadores empregados em diversas unidades espalhadas pelo país.
Apesar desse crescimento, nos últimos anos o sector automóvel tem enfrentado grandes desafios não só a nível nacional como internacional, devido a uma sucessão e combinação de fatores que passaram pela pandemia do COVID-19, pela escassez de componentes electrónicos, pelo aumento dos custos energéticos, mas também pelos desafios colocados pela transição para a mobilidade eléctrica.
Todos estes desafios fizeram com que nos últimos anos o sector automóvel no nosso país, como na Europa, tenha vindo a enfrentar uma crise com efeitos na economia e no mercado de trabalho. O recente despedimento coletivo de mais de 350 trabalhadores da Yazaki Saltano de Ovar, é apenas um dos reflexos da crise grave que o sector automóvel atravessa. Como o é também a aplicação do regime de lay-off que já se está a verificar em algumas empresas do mesmo sector em Portugal.
E quando as empresas procuravam adaptar-se às novas realidades e exigências, eis que surge um novo obstáculo: a imposição por Donald Trump de tarifas alfandegárias de 25% à importação de automóveis pelos Estados Unidos da América, como parte da sua estratégia protecionista.
Esta medida protecionista dos Estados Unidos, embora tenha como alvo principal a União Europeia no seu todo, não deixa de ter repercussões sérias para a economia portuguesa.
Em 2024 Portugal produziu 332.546 veículos automóveis (representando um crescimento de 4,5% relativamente ao ano pretérito), sendo que na sua grande maioria foram destinados à exportação, principalmente para a Europa.
Não obstante os Estados Unidos da América representarem uma parcela menor nas exportações diretas de veículos, o cenário é diferente no setor de componentes automóveis. Na verdade, no ano passado, os Estados Unidos da América foram o quarto maior mercado para os componentes automóveis portugueses, com um valor superior a 500 milhões de euros em exportações.
De acordo com o Presidente da “AFIA – Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel”, as tarifas de 25% aplicadas sobre os veículos automóveis importados pelos Estados Unidos da América são o maior desafio para o sector automóvel europeu depois do aumento de importações de veículos chineses.
Na verdade, a subida dos custos para os consumidores norte-americanos pode resultar numa queda substancial da procura por veículos “made in Europe”, afetando diretamente a indústria portuguesa. A consequência imediata será o arrefecimento das encomendas, a desaceleração da produção e, inevitavelmente, o risco de cortes no emprego e no investimento.
Não menos preocupante será também o efeito psicológico e estratégico desta política protecionista que já começa a dar sinais nas bolsas de todo o mundo. De facto, ao criar um clima de incerteza, os Estados Unidos da América empurram os fabricantes e investidores a repensar as suas estratégias de médio e longo prazo. As empresas tenderão a evitar riscos, a adiar planos de expansão e a procurar alternativas mais estáveis. Para Portugal, isto significará uma ameaça real à atratividade como destino de investimento industrial.
A União Europeia já manifestou a sua intenção de proteger os seus interesses face às tarifas impostas pelos EUA, procurando soluções negociadas para evitar uma escalada nas tensões comerciais. Contudo, se a União Europeia optar por um caminho de retaliação, tal poderá agravar ainda mais o problema para Portugal, pois uma guerra comercial transatlântica tenderá a penalizar países periféricos como Portugal, cuja margem de manobra económica é menor.
É imperativo que Portugal adote uma estratégia proativa em articulação com Bruxelas, defendendo os interesses nacionais com firmeza e inteligência diplomática.
É preciso apostar na diversificação dos mercados de exportação, investir em inovação tecnológica para reforçar a competitividade das nossas unidades industriais e garantir apoios eficazes às empresas e trabalhadores afetados, investindo na modernização da sua indústria automóvel, promovendo a formação de trabalhadores para as novas exigências do mercado e incentivando a transição para tecnologias mais sustentáveis e inovadoras.