Os Oasis voltaram, e estou em delírio. Para um quarentão que viveu a sua juventude nos anos 90 e gostasse de boa música, os Oasis eram uma banda essencial. Na altura, nem conhecia bem os Beatles, até conheci primeiro os Oasis (sacrilégio!). Estou muito feliz em vê-los voltar para esta digressão em que vão tocar todas as grandes músicas. Não estive presente em Cardiff no primeiro concerto nem estarei nos milionários concertos, mas mesmo assim é bom. Desenterrei novamente as músicas deles à guitarra e tem sido excelente.
Não deixa de ser curioso que hoje já não há bandas como os Oasis, nem sequer bandas. Como dizia bem Noel Gallagher, guitarrista e fundador dos Oasis, a indústria musical mudou e a boa música não está nos tops. Por várias razões.
Eu cresci numa época áurea de bandas, os anos 80 e 90: posso-me orgulhar de que apenas no ano de 1991 assisti à saída de um cluster de álbuns altamente influentes que foram lançados na música pop numa rápida sucessão: no espaço de apenas umas semanas, “Black Album” dos Metallica, “Ten” dos Pearl Jam, “Use Your Illusion I & II” dos Guns N’ Roses, “Nevermind” dos Nirvana e “Blood Sugar Sex Magik” dos Red Hot Chili Peppers chegaram às prateleiras e aos tops. Todas as bandas que, passados 30 anos, ainda ouvimos atualmente e que a geração Z adotou como suas — vejam como usam as t-shirts destas bandas e como muitas ainda atuam. Pergunto o seguinte: ainda ouviremos Beyoncé, Taylor Swift, Harry Styles, Dua Lipa, daqui a 30 anos?
Nos anos 90, os tops da música pop e rock estavam repletos de bandas que moldaram uma geração: Nirvana, Oasis, Pearl Jam, Radiohead, Red Hot Chili Peppers. Esses nomes, mais do que simples artistas, eram símbolos culturais, espelhos de um tempo em que a música significava identidade, autenticidade e comunidade. Trinta anos depois, os rankings globais são dominados por estrelas pop altamente produzidas, influenciadores musicais como Taylor Swift, Beyoncé ou Bad Bunny—artistas cuja relação com o ouvinte passa tanto pelo som como pelo storytelling digital, estética visual e presença nas redes.
O que mudou?
Uma curadoria feita por algoritmos
A resposta mais direta está na própria estrutura do mercado musical. Se antes era o rádio, a MTV (como me lembro do tempo da MTV), ou a crítica especializada que determinavam o que era ouvido, hoje é o algoritmo que manda. Plataformas como TikTok, Spotify ou YouTube substituíram os curadores humanos por motores de recomendação baseados em dados. A lógica não é promover qualidade, mas maximizar cliques, retenção e viralização.
Essa pressão transforma a criação musical. Em vez de canções com arranjos elaborados e crescendos narrativos, temos refrões de 10 segundos prontos a explodir no TikTok. Em vez de álbuns com coesão estética, temos faixas isoladas otimizadas para playlists genéricas. A canção é conteúdo, não obra. E Bill Gates já tinha antecipado a grande mudança do marketing, que chegou à gestão da música. Iria passar a ser conteúdo: “content is king”.
O eclipse das bandas
Noel Gallagher, líder dos Oasis, foi direto ao ponto numa entrevista à Gibson TV, “a coisa das bandas, no momento, está morta”.
Tive a sorte de pertencer a várias bandas na minha juventude e não sei se hoje os miúdos estarão assim tão preparados para isso. É certo que também vivi as separações e o desafio de ensaiar em conjunto. Mas é uma experiência única e das mais gratificantes.
E há razão neste lamento de Gallagher. Enquanto nos anos 90 a música era vista como um esforço coletivo, emocional e muitas vezes caótico, hoje é um projeto solo, digitalizado e altamente profissionalizado. O sucesso passou a depender mais de branding pessoal e do “content” do que de química musical.
Havia também muitas “ineficiências” na organização da música, é certo. A maioria das vezes, os músicos não sabiam gerir carreira, criar uma estratégia, bebiam, drogavam-se demais e a “arte”, no sentido criativo e mais caótico do termo, é que prevalecia sobre tudo. Hoje é o oposto, a gestão e o marketing altamente sofisticado e potencializado pela inteligência artificial tomaram conta de toda a música pop. Não é tudo mau, mas desequilibrou-se tudo outra vez noutro sentido. E já não falo aqui das múltiplas queixas de músicos proeminentes quanto às plataformas de streaming de música.
Taylor Swift, por exemplo, é um fenómeno global que transcende a música. O seu sucesso deve-se tanto à sua capacidade de escrever boas canções como à gestão exímia da sua imagem e narrativa pessoal. Beyoncé, por seu lado, construiu um império assente em performance visual, ativismo cultural e lançamentos multimédia que dominam o ciclo noticioso. A música, ainda que sólida, é apenas um componente do produto. Para mim, pessoalmente, uma mão cheia de nada e são artistas muito politizados, o que destrói a arte e a torna “engagé”(engajada socialmente) e, como vimos no passado, datada. Swift é uma grande gestora, é certo. Ninguém o nega, mas a arte é mais que isso. E o tempo vai dizer se ela é assim tão “estratosférica” em termos musicais como uns Beatles ou uns Nirvana.
Nostalgia ou lucidez?
É legítimo perguntar: será esta visão apenas saudosismo? Talvez em parte. Sim, sou um quarentão afundado na vida adulta e que sente falta dos concertos, das viagens, do público à nossa frente, dos ensaios, da pura criação (não fui nada estratosférico, mas dos poucos concertos que dei, já me chegou em satisfação). Mas há algo de estrutural nesta mudança. Os mecanismos que elevam artistas ao topo já não são os mesmos — e já não priorizam necessariamente a qualidade musical ou a perenidade.
Grande parte dos adolescentes entre os 13 e os 18 anos descobre nova música através de vídeos curtos nas redes sociais. Vamos contar pelos dedos das mãos os que se referem à rádio. Isto significa que a lógica do “hook imediato” prevalece sobre a construção musical. A atenção é o novo petróleo, e a música é apenas um dos meios para captá-la.
O que perdemos
O mais inquietante não é apenas a mudança de nomes ou de estilos, mas a desvalorização da experiência musical como arte e como tempo partilhado. Já não há expectativa por um álbum, nem capas para folhear, nem letras para decorar. Há “conteúdo” para consumir e descartar.
Isso não quer dizer que não exista música de qualidade a ser feita hoje — pelo contrário. Há artistas extraordinários a emergir nos interstícios do sistema. Mas não estão necessariamente nos tops, nem vivem da atenção algorítmica.
Em defesa da música como experiência
É tempo de perguntarmos o que queremos da música. Se aceitarmos que o algoritmo decide por nós, então seremos apenas consumidores passivos de tendências efémeras. Mas se procurarmos ativamente, descobriremos que ainda há bandas, ainda há álbuns com alma e ainda há canções que não servem apenas para dançar em frente ao espelho, mas para pensar, sentir e lembrar.
Talvez o futuro da música não esteja nos tops. Talvez esteja onde sempre esteve a verdadeira arte: à margem, à espera de quem a queira escutar.