«O wokismo é hoje um dos problemas mais importantes do Ocidente, que já corre em Portugal, sem atenção nem reflexão dos cidadãos e dos responsáveis políticos».

Com esta frase, Manuel Maria Carrilho expõe o motivo principal que o levou a escrever o seu mais recente livro, A Nova Peste. Trata-se de uma tentativa de análise do fenómeno contemporâneo denominado wokismo, onde são abordadas as suas raízes até às suas mais nefastas consequências, presentes e futuras. É ao mesmo tempo um alerta, um diagnóstico e um prognóstico. Em relação à frase cimeira, e falando de uma pequena experiência pessoal, quando abordei um colega de trabalho sobre o tema da obra, a sua resposta perentória foi algo nestes moldes: «O quê?! Então não há coisas mais importantes para discutir? Os salários, por exemplo!». Ora, uma das teses do livro é, como já é dado perceber, a relativa ou mesmo completa ausência de atenção acerca das consequências do wokismo, baseado num desconhecimento, muitas vezes voluntário, das suas características e implicações na existência de todos nós. Acredito que a favor ou contra, isto é, woke ou não-woke ou anti-woke, todos teremos no mínimo uma intuição sobre a questão e, por princípio, aqueles que não se sentem melindrados ou ameaçados pela recente tendência que grassa no espaço e civilização ocidentais – o caso do meu colega – é porque se sentem confortáveis com as reivindicações dos seus proponentes. Carrilho acusa a esquerda, ou parte da esquerda, de se ter rendido e vendido a esse programa radical e maximalista, totalitário e repressivo, abandonando as suas causas tradicionais e o seu lugar natural na sociedade, nomeadamente, junto da classe operária. No posfácio à obra, relaciona a vitória de Trump com o recrudescimento no aparelho partidário dos democratas dessa perspetiva castradora, parcial, intolerante, acientífica e deformada da realidade história, social e política.

Através de uma abordagem popperiana, Carrilho desmonta – desconstrói – os mitos e falsificações woke que, atualmente, perambulam por todas as sociedades ocidentais. Recorrendo sempre que pertinente a exemplos concretos, nacionais e internacionais, oferece uma visão pessoal do fenómeno, fazendo transparecer a sua experiência enquanto filósofo numa escrita límpida, fluída e precisa. Além de didático e, sem dúvida, desafiador, o livro é de leitura agradável: o autor consegue abordar um assunto sério sem perder o contacto com o leitor menos informado e sem perder o respeito dos seus detratores. Também estes concordarão que estamos perante uma obra importante.

Não podemos prolongar em demasia o artigo. Não é o espaço ideal para proceder a uma dissecação mais completa da obra e das variadas implicações políticas e sociais do wokismo. Seria merecido. Esta reivindicação identitária tem vindo a impor-se no espaço público e, acima de tudo, no espaço publicado (tradicional, mas também virtual), com os seus corolários «ideologia de género, feminismo radical, apropriação cultural, a cultura do cancelamento, o racismo sistémico, os anacronismos históricos, o transexualismo…». É toda uma panóplia, é todo um programa. Tudo isso é tratado a fundo por Carrilho. Deixaremos apenas algumas ideias.

Pelo título do livro, percebe-se a posição do autor: este acusa a ideologia (pois é de uma ideologia que se trata) de ser abertamente contrária aos valores, tradições e História do Ocidente, na qual veem nada mais do que violência, dominação, espoliação e crime contra os povos não-brancos, como sejam, os africanos, os asiáticos ou centro e sul-americanos. Uma das teses do wokismo é mesmo o racismo sistémico, ou seja, uma espécie de segregação congénita ao homem branco, e quando digo homem branco, refiro-me ao género masculino e ao tom de pele. Carrilho não deixa de evidenciar o próprio racismo doutrinal do wokismo, pois os seus defensores e ideólogos fazem pender sobre as cabeças caucasianas uma acusação, sem reivindicações históricas, de serem os responsáveis por tudo o que de negativo ocorreu na Humanidade. O homem branco europeu, nos séculos XV e XVI, através de uma dominação cruel e respetiva exploração sistemática dos povos e territórios, obteve a sua superioridade económica, que ainda hoje subsiste, em relação ao resto do mundo. Os WASP, os seus derivados mais tardios, os norte-americanos brancos, somente a consagraram, conduzindo agora a tocha dessa discriminação, intolerância e aproveitamento de tons colonialistas. Segundo o filósofo português, este racismo contra a branquitude é negado perentoriamente pelos wokes, pois na sua visão distorcida, o racismo, além de lhes ser inerente, é exclusivo dos caucasianos (à exceção, claro, daqueles que aderiram ao credo). Conforme afirmou um defensor desta perspetiva, quando um homem negro viola uma mulher branca trata-se de um ato político.

A acrescentar ao binómio branco/racista, junta-se uma outra qualificação pejorativa: heterossexual. Para o wokismo, o sexo e a respetiva união entre dois géneros (recusam o conceito científico sexo) não é natural, mas imposta, mais uma vez, pela ideologia dominante, isto é, a visão e a prática ocidentais. Esta visão faz parte da relação eterna entre dominador/dominado, motivo que leva à perseguição e ao preconceito vitimando todos aqueles que não cumprem esse requisito nem se deixam enquadrar pela conceção binária sexual (LGBTQ+). O anticientismo woke – séculos atrás usar-se-ia sem reservas a palavra obscurantista – não respeita as mais básicas evidências científicas: o sexo é uma construção cultural/societal e não um facto biológico. Devendo a um conceito de ilimitado, em que o indivíduo na sua singularidade de tudo dispõe e de tudo é capaz, e a um discurso amplamente e radicalmente performativo da linguagem, acusam as sociedades ocidentais, ou seja, a maioria dos indivíduos dessas sociedades, de reprimir e condicionar a livre escolha da forma como cada um se define, quer em termos de opção e preferência(s) sexuais bem como do género(s) que cada um escolhe desempenhar. A epígrafe é bastante explícita: “eu sou aquilo que digo que sou”.

Carrilho não tem dúvidas: estamos a falar de fanatismo. Não admitindo qualquer objeção e desqualificando sistematicamente qualquer ideia contrária, o lugar dos não convertidos tem um sufixo sempre pronto a cair – fóbico. É um lugar onde se sucedem os ataques ad hominem, colocando em cheque a própria democracia, que é precisamente o lugar da troca de argumentos e onde as falácias não têm cidadania. Não deixa de ser curioso que esta forma de irracionalismo começou o seu percurso nas universidades norte-americanas, locais da Razão e da Ciência por excelência, onde atualmente podemos apreciar dentro do grupo dos Gender Studies, coisas tão imaginativas como por exemplo Queer Studies, Fat Studies ou Porn Studies. Talvez ainda mais curioso será perceber que foi através da influência de filósofos franceses (ainda hoje se denominam estes estudos derivados como french theory), arautos do Maio de 68, que aparecendo como convidados especiais, e através de uma releitura forçada, precisamente quando já eles estavam na mó de baixo no velho continente, que acenderam o rastilho do outro lado do Atlântico. Por trás deste facciosismo está uma minoria bem colocada financeiramente e mediaticamente, extremamente vocal e apelativa, que no fundo odeia os valores e as instituições da Civilização Ocidental, desde a democracia liberal e representativa até ao capitalismo.

Podemos ou não juntarmo-nos ao autor nas suas preocupações. Elas são, parecem-me, legítimas. A Nova Peste lança um olhar penetrante e audacioso sobre um fenómeno que, nas palavras de Mounk, «vai estruturar a vida intelectual ocidental nos próximos trinta anos», tal como sucedeu com a defesa ou a contestação do marxismo durante décadas. O wokismo veio para ficar.