A proposta apresentada pelo PSD para a revisão da Lei n.º 45/2018 deve ser analisada com sentido crítico, mas também com honestidade intelectual. Desde logo, há um ponto que importa reconhecer: o simples facto de propor a revisão da lei constitui o reconhecimento político de que o actual regime falhou. Falhou a autorregulação, falhou o equilíbrio entre os intervenientes e falhou a promessa de um sector sustentável.
Esse reconhecimento aproxima o PSD daquilo que empresas operadoras, motoristas e associações do sector TVDE vêm denunciando há mais de seis anos.
Aspectos positivos da proposta
É justo começar pelos aspectos positivos, sobretudo quando estes coincidem com reivindicações antigas do sector.
A introdução do selo holográfico é uma medida acertada, contribuindo para maior transparência e eficácia da fiscalização.
A definição de limites para a idade das viaturas vai no sentido correto, reforçando a segurança, a qualidade do serviço e a sustentabilidade ambiental.
O fim do contrato de comodato surge, à primeira vista, como uma boa medida. No entanto, importa alertar que, se o objetivo for eliminar o sistema de “slots”, esta solução pode revelar-se insuficiente, uma vez que existem outros mecanismos jurídicos capazes de manter o mesmo modelo sob outra designação legal.
A autorização de publicidade nos veículos TVDE é igualmente positiva, pois permite uma receita adicional que pode contribuir para o equilíbrio financeiro das empresas e para a sua sustentabilidade.
Por fim, a classificação nos dois sentidos — motoristas e utilizadores —constitui uma medida de justiça básica, corrigindo um sistema atualmente desequilibrado e penalizador para o motorista, sujeito a avaliações unilaterais e muitas vezes arbitrárias.
Aspectos negativos e preocupações estruturais
É, porém, nos pontos estruturais que a proposta revela as suas maiores fragilidades.
A integração do táxi nas plataformas TVDE e a possibilidade de o táxi “fazer TVDE” não resolvem nenhum problema de fundo. Pelo contrário, criam confusão regulatória ao misturar regimes jurídicos distintos sem harmonização de obrigações. O táxi opera com tarifas reguladas, exclusividade territorial e benefícios próprios. Misturar estes regimes sem uniformização não é modernização — é gerar conflito entre sectores.
Outro problema central é a inexistência de um verdadeiro mecanismo de concertação equilibrada. A proposta mantém o controlo praticamente absoluto nas mãos das plataformas, ignorando que qualquer diálogo sem equilíbrio de poder é meramente simbólico.
A questão das tarifas: o ponto onde a proposta falha claramente
Importa esclarecer um ponto essencial: o Governo não pode intervir na fixação dos preços, tarifas mínimas ou valores por quilómetro e por tempo. Sabemos que o próprio Governo afirma não querer — e, em rigor, não deve — intervir directamente na definição de preços num sector privado.
Contudo, isso não justifica o vazio absoluto que a proposta mantém nesta matéria.
O que poderia — e deveria — existir era um mecanismo formal e obrigatório de concertação, como por exemplo a criação de uma Agência Nacional do TVDE, no âmbito da alteração da lei 45/2018, envolvendo plataformas, empresas operadoras, motoristas e associações representativas, com o objectivo de definir anualmente valores mínimos de referência (por quilómetro, por minuto e por viagem), ajustados de acordo com o Orçamento Geral do Estado; a inflação; o crescimento económico do país; os custos reais de operação (combustíveis, viaturas, seguros, fiscalidade).
Desta forma, o Estado não fixaria preços, mas garantiria regras do jogo minimamente equilibradas, prevenindo o dumping tarifário e a degradação sistemática das condições económicas do sector.
O que hoje acontece é precisamente o contrário: o Governo afirma não intervir nas tarifas, mas permite que o poder unilateral de definição de preços permaneça exclusivamente nas mãos das plataformas, enquanto, paradoxalmente, aperta a carga sancionatória, fiscal e administrativa sobre empresas e motoristas, como se estivesse a regular um sector público.
Pese embora a proposta em matéria de contra ordenações apresente uma alteração quanto à atribuição da responsabilidade das infrações, se devem dividir entre a empresa ou motorista, este aspecto também parece ser muito importante, relativamente à justiça.
Se estamos perante um sector privado, então deve ser tratado como tal, com liberdade económica equilibrada por mecanismos de concertação.
Se, pelo contrário, o Estado insiste em regular o sector com mão pesada no plano sancionatório, então não pode continuar a ignorar a protecção mínima da sustentabilidade económica e do rendimento.
Manter tudo como está significa apenas uma coisa: preservar o poder absoluto das plataformas na definição de preços, perpetuando a precariedade.
Outros pontos críticos
A manutenção da comissão de 25% acrescida de IVA é particularmente grave. Esta opção inviabiliza o surgimento de plataformas portuguesas, perpetua a hegemonia da Uber e da Bolt e permite que a riqueza gerada em Portugal continue a ser transferida para fora do país. Isto não é neutralidade regulatória — é uma escolha política clara.
A obrigação de comunicação dos contratos entre plataformas e operadores pode ser positiva para prevenir cláusulas abusivas, mas estender essa obrigação a utilizadores e empresas revela excesso regulatório e desproporção.
Já a tentativa de redefinir o TVDE através da expressão “disponibilidade eletrónica” é um exercício de preciosismo jurídico sem utilidade prática. Não resolve problemas reais, não foi solicitado pelo sector e serve apenas para criar ruído legislativo.
Por fim, é revelador que a proposta dê especial enfoque ao regime sancionatório, multas e penalizações, relegando para segundo plano aquilo que verdadeiramente importa: equilíbrio económico, justiça concorrencial e dignidade laboral.
Em síntese, a proposta do PSD contém alguns avanços formais e reconhece, implicitamente, o fracasso da Lei n.º 45/2018. No entanto, recusa enfrentar os verdadeiros centros de poder do sector.
Não questiona o modelo económico das plataformas, não corrige a assimetria fiscal, não cria mecanismos reais de equilíbrio e mantém intacto o poder unilateral de definição de preços.
Trata-se, assim, de uma proposta que gere o problema, mas não o resolve. Um conjunto de ajustes laterais, com alguns méritos, mas sem coragem política para uma reforma estrutural.
Enquanto os decisores políticos não compreenderem a matriz real do sector TVDE e continuarem a proteger os mais poderosos, o resultado será sempre o mesmo: alguns avanços pontuais, mas o essencial permanece intocado.
Não basta ouvir associações ou grupos cívicos e cidadãos é preciso compreender e interiorizar os problemas para se encontrarem as soluções.
É isso que se espera dos deputados e do governo.
De qualquer maneira convêm realçar os muitos aspectos positivos da proposta do PSD, dando a possibilidade de preparar uma nova ronda de ocultação ao sector para operar uma verdadeira alteração estrutural à lei.