A Batalha de Aljubarrota, travada em 14 de agosto de 1385, é uma data inesquecível na história portuguesa.

Neste campo de batalha, o exército português, liderado por D. João I e pelo Condestável Nuno Álvares Pereira, derrotou o exército castelhano, consolidando a independência de Portugal. Este episódio não foi apenas uma vitória militar, mas o culminar de uma crise dinástica que ameaçava a soberania do reino português.

As táticas defensivas brilhantes e a utilização do terreno — como as trincheiras e a formação de tipo “V”, ou de ponta de flecha — elevaram este acontecimento a um exemplo de astúcia militar. O cronista Fernão Lopes, nas suas crónicas do século XV, documenta detalhadamente o engenho do exército português e a escala catastrófica da derrota castelhana, descrevendo a batalha como um momento “para memória perpétua” na história do reino (Fernão Lopes, Crónica de D. João I).

Da Derrota à Desordem

Após a derrota, o exército castelhano perdeu completamente a organização e a disciplina. Incapazes de se reagrupar, os soldados castelhanos fugiram desordenadamente numa retirada caótica.

O caos que se seguiu foi acompanhado por uma perseguição implacável. As tropas portuguesas, reforçadas por milícias camponesas e civis, seguiram os fugitivos ao longo de quilómetros, eliminando muitos soldados que tentavam escapar. Este foi, sem dúvida, um retrato cruel da guerra medieval, onde a clemência para com os vencidos era uma prática rara.

A crónica referida acima documenta este momento, sugerindo que a participação das milícias e camponeses desempenhou um papel significativo. É deste contexto que nasce a lenda da Padeira de Aljubarrota. De acordo com a tradição oral, Brites de Almeida, uma mulher de força impressionante, encontrou soldados castelhanos escondidos na sua padaria. Lidou com os invasores usando a sua pá de pão, simbolizando a coragem do povo português durante este período. Versões mais macabras da lenda acrescentam que os corpos dos soldados foram escondidos ou queimados no forno de pão.

A Lenda e o Horror do Forno

Não existem registos históricos que comprovem a existência da senhora Brites de Almeida, uma figura ausente em descrições contemporâneas como as crónicas de Fernão Lopes. Nesse sentido, ela pertence claramente ao reino das lendas e ao imaginário colectivo nacional.
O simbolismo da lenda é, contudo, profundamente inquietante. Reflecte e glorifica uma ideia de violência extrema e desumanização do inimigo, enraizada num contexto de guerra medieval. Mesmo no domínio das lendas, a ideia de esconder corpos humanos num forno de pão é uma imagem de violência extrema que merece reflexão. Este pormenor, embora simbólico, levanta questões sobre o que se deseja perpetuar como heroísmo.

É aqui que surge a necessidade de questionar o impacto desta história nos valores que transmite, nomeadamente a normalização da violência contra o inimigo e a glorificação de actos desumanos. Embora apresentada como um exemplo de heroísmo, a lenda também serve como um retrato da brutalidade e da desumanização. Este contraste destaca a importância de repensar como abordamos e transmitimos estas narrativas às gerações futuras.

O Mundo Actual e a Batalha nas escolas

Nas escolas portuguesas, a história da Batalha de Aljubarrota é ensinada como uma celebração da capacidade de resistência e da luta pela independência, destacando a astúcia estratégica dos seus líderes e reforçando nos alunos valores de coragem e de pertença. No entanto, as narrativas lendárias associadas a este evento merecem uma análise crítica, sobretudo no que diz respeito ao tipo de valores que perpetuam.

Contudo, é também transmitida às crianças a lenda da Padeira de Aljubarrota, frequentemente apresentada como uma história inspiradora de coragem feminina. Embora a versão contada nas escolas minimize os seus elementos mais violentos, a base da narrativa ainda levanta questões sobre o tipo de heroísmo que se deseja destacar. Mesmo que simplificada, a lenda transforma actos de violência contra soldados fugitivos numa história de heroísmo e coragem. Este tipo de narrativa pode gerar uma simpatia inadvertida por acções que, fora do seu contexto lendário, seriam vistas como desumanas.

É importante salientar que estas narrativas devem ser reavaliadas à luz dos valores da Europa contemporânea, que procura formar cidadãos empáticos, pacificadores e capazes de promover a cooperação entre as nações europeias. Embora o orgulho nacional e a celebração da história sejam importantes, é essencial evitar distorcer o passado de forma a perpetuar antagonismos desnecessários. Em vez disso, devemos procurar narrativas que reforcem valores de inclusão e humanidade, mesmo quando celebramos momentos decisivos.

Os Novos Aliados e o Inconsciente Colectivo

A perpetuação desta lenda no ambiente escolar insere-se no imaginário colectivo como um símbolo de rivalidade histórica entre portugueses e castelhanos. Ao ser transmitida às gerações mais jovens, reforça, ainda que de forma subliminar, percepções históricas de antagonismo, mesmo num contexto moderno de aliança e cooperação. Embora possa parecer algo inofensivo do ponto de vista educativo, estas narrativas podem moldar preconceitos culturais e contribuir para percepções distorcidas em relação ao país vizinho.
Este tipo de inconsciente colectivo não deve ser encarado de ânimo leve, pois tem o poder de influenciar atitudes e preconceitos culturais desde tenra idade, contribuindo para divisões históricas que já deveriam estar ultrapassadas.

Hoje em dia, Portugal e Espanha fazem parte de organizações como a União Europeia e a NATO, partilhando laços económicos, culturais e políticos profundos. O Tratado de Schengen transformou completamente as relações entre os dois países, criando maior integração económica e mobilidade transfronteiriça. Reforçar narrativas que promovem antagonismos históricos ignora esta nova realidade e perpetua divisões que já deveriam estar ultrapassadas.

O Forno de Hansel e Gretel e o da Padeira de Aljubarrota

Se compararmos a lenda da Padeira de Aljubarrota com o conto infantil Hansel e Gretel, verificamos que ambos apresentam semelhanças marcantes no recurso ao elemento simbólico do forno como instrumento de terror e morte.

A história de Hansel e Gretel, recolhida pelos irmãos Grimm no século XIX, começa com uma crise familiar dramática: durante um período de extrema pobreza e fome, um lenhador e a sua madrasta decidem abandonar as duas crianças numa floresta densa para reduzir o número de bocas a alimentar. Os irmãos, após serem abandonados, vagueiam pela floresta até encontrarem uma casa tentadora, inteiramente feita de doces e guloseimas. Famintos e exaustos, os pequenos irmãos não conseguem resistir à tentação.

O que parece inicialmente um refúgio maravilhoso revela-se rapidamente uma armadilha mortal: a casa pertence a uma bruxa que atrai crianças precisamente com esta estratégia para depois as devorar. Após capturar as crianças, a bruxa engaiola Hansel para o engordar antes de o cozinhar e força Gretel a realizar trabalhos domésticos. O clímax aterrorizante do conto ocorre quando a bruxa acende o seu grande forno e, impaciente com a demora em engordar Hansel, decide cozinhá-lo de qualquer forma, preparando também o seu forno para tal. No momento crucial, quando a bruxa instrui Gretel a verificar se o forno está suficientemente quente (com a intenção de a empurrar para dentro), a menina finge ingenuidade, dizendo não saber como fazê-lo, e pede à bruxa que lhe demonstre. Quando a bruxa se inclina para o forno, Gretel aproveita a oportunidade para a empurrar para dentro, fechando a porta e deixando-a morrer nas chamas que preparara para as crianças.

Enquanto Hansel e Gretel é contado como um aviso universal contra perigos gerais, a lenda da Padeira tornou-se um símbolo que perpetua o antagonismo entre dois povos específicos. Tanto a história da Padeira quanto o conto de Hansel e Gretel utilizam o forno como símbolo de destruição do “outro”, do “inimigo”. No entanto, enquanto no conto de fadas a bruxa representa um perigo universal e abstracto, na lenda portuguesa os castelhanos são um grupo étnico e nacional específico, cujos descendentes são hoje nossos parceiros e aliados.

Conclusão

Sem dúvida que a história deve ser ensinada, mas sempre com um olhar para o futuro. Enquanto a Batalha de Aljubarrota permanece um marco inegável de independência e estratégia militar, a lenda da Padeira e os seus actos macabros oferecem pouco valor formativo no contexto dos valores modernos de respeito, cooperação e empatia entre os povos.
Ensinamos esta lenda às crianças, mas a que custo? Continuar a perpetuar hostilidades históricas sem considerar a sua irrelevância contemporânea contraria os esforços de união e colaboração que hoje definem as relações entre os países da União Europeia e da NATO.
Chegou o momento de reavaliarmos cuidadosamente as narrativas históricas e lendárias que escolhemos transmitir às futuras gerações. Mais importante ainda, é hora de decidir como queremos que as nossas crianças vejam os espanhóis: como aliados no projecto comum da Europa ou como ecos de uma rivalidade que pertence ao passado? A resposta a esta pergunta determinará não apenas o modo como lidamos com a nossa história, mas também como construímos um futuro partilhado