Nos últimos 30 anos houve Prémios Nobel da Economia para todos os gostos. Os galardoados foram, sem excepção, académicos notáveis. Mas convenhamos que alguns dos temas premiados suscitavam interesse apenas a uma plateia minúscula de economistas. O desinteresse geral do grande público era mais do que compreensível até porque, nalguns casos, incidiram mais sobre o desenvolvimento de técnicas matemáticas-estatísticas do que sobre a resolução de problemas económicos autênticos. No fundo, revelavam uma ciência económica fechada sobre si mesma. A investigação recompensada visava questões que a ciência académica colocava a si mesma, e pouco ou nada dizia sobre o que constituía as interpelações do mundo humano a essa mesma ciência. Este ano as coisas foram diferentes. O Prémio Nobel a Joel Mokyr, Philippe Aghion e Peter Howitt foi direitinho para a mãe de todas as questões económicas.
Podemos desdobrar os problemas económicos em questões e dúvidas infinitas. Mas todas são reconduzíveis ao mesmo tema. Formula-se de um modo muito simples: por que é que, depois de milénios e milénios de existência essencialmente estagnada, nos últimos 200 anos o mundo passou a ter crescimento económico? Porquê só nos últimos 200 anos? E quais foram as suas causas?
Este gráfico, conhecido na literatura sobre o tema como o “taco de hóquei”, ilustra melhor do que mil palavras a natureza do principal facto económico da história da humanidade.
À força do hábito, muitas vezes perdemos de vista que a inocente expressão “crescimento económico” representou a maior transformação que o género humano sofreu. Com ele, foi a própria face do planeta que se tornaria irreconhecível. Seria cansativo enunciar tudo o que o crescimento económico criou. São tantos os aspectos, hoje para nós corriqueiros, que teriam feito os sonhos mais loucos e fabulosos dos nossos antepassados. Basta dizer que deixámos a esperança média de vida em torno dos 30 anos para chegar agora quase aos 90. Ou que, até à formação do taco de hóquei, 90 por cento da população mundial vivia no limiar da sobrevivência. Habituámo-nos de tal modo ao progresso constante que passámos a supô-lo como se fosse espontaneamente gerado – como se só a sua interrupção fosse capaz de despertar a nossa atenção. Mas, bem vistas as coisas, a interrupção da normalidade é o próprio crescimento económico, uma espécie de milagre secular, que não deixou intocado nenhum detalhe da existência humana. Mais do que qualquer outro “facto”, é este que vinca a fronteira entre um antes e um depois. É este que decide que o antes se tornou estranho e irreconhecível aos olhos do depois. É este que carece de explicação e compreensão cabal. Muitos economistas, de Marx a Schumpeter, de Keynes a Milton Friedman, de Gabriel Tarde a Max Weber, confrontaram com maior ou menor felicidade o problema. Os vencedores do Nobel deste ano dedicaram a sua carreira a tentar explicá-lo.
Devo ter lido “A Culture of Growth”, de Joel Mokyr, há uns 5 anos. Se a memória não me falha, nas vésperas do confinamento de 2020. Logo a abrir o livro, que consiste numa adaptação de um ciclo de palestras, Mokyr descrevia o consenso científico do nosso tempo: “Sabemos o que aconteceu, e sabemos mais ou menos como e onde aconteceu. O que ainda permanece um mistério é porquê”. Das muitas explicações que foram propostas desde meados do século XIX, quando se consolidou a consciência de que o mundo sofrera uma revolução profundíssima e irreversível, é indiscutível que teremos de andar à volta disto:
- A revolução económica foi posta em marcha por uma nova forma económica historicamente inédita, que por sua vez a revolução desenvolveu. Chamemos-lhe capitalismo, economia de mercado, sociedade comercial, como se dizia no século XVIII, ou sistema de livre iniciativa, como gostavam de dizer nos EUA no tempo da Guerra Fria, ou outra coisa qualquer. O importante é perceber que a forma económica se converteu num ponto central desta miraculosa transformação do mundo – e da qual tão-pouco podemos separar todas as maleitas sociais e impasses morais que gerou.
- As instituições políticas que brotaram de uma revolução anterior na filosofia política, na filosofia natural, na crítica da religião e nas necessidades práticas que daí resultaram. Essas instituições, quando não foram “extractivas”, transformaram o direito, protegeram a consciência individual e a gradual soberania do indivíduo sobre si mesmo e concentraram poder vocacionado para as mudanças económicas. A criação do Banco de Amsterdão e mais tarde, no final do século XVII, do Banco de Inglaterra, são os exemplos mais notórios deste último tipo de instituições.
- A cultura de inovação e de criação tecnológica que, no final das contas, exponencia o crescimento económico e sobretudo fá-lo perdurar no tempo. É a dimensão demiúrgica da história económica, em que os homens e as mulheres se atreveram, e atrevem todos os dias, a fazer de Deus. E fazem de Deus para reinterpretar a sua relação com a “natureza” e reconfigurar o horizonte de possibilidades da existência humana. Na confluência entre a cooperação científica e as milhões de invenções provenientes do mundo da prática económica dispara a faísca da criação incessante de coisas novas: produtos novos, necessidades novas, gostos novos, métodos novos, recursos novos e ídolos novos. Sem ilusões, porque a criação do novo não poupa a destruição do velho, do ineficiente, do obsoleto, do ultrapassado, mesmo quando estes desempenham importantes funções sociais ou sustentam valores morais indispensáveis. Simmel, Carlyle, Marx e Schumpeter compreenderam bem esta consequência.
É verdade que Joel Mokyr não resolveu de vez este enigma. De resto, a centralidade que deu à “cultura” como sede das transformações económicas dos últimos 200 anos também não é original. Com efeito, era já esse o enfoque preferido entre os estudiosos não-marxistas no final do século XIX até à Iª Guerra Mundial. Sucede que Mokyr fez o que lhe competia – ajudar a perceber – melhor do que muitos dos seus pares, com mais rigor, com mais profundidade, com um alcance maior. Nós, humildes mortais, por cá andaremos a tentar perceber, ignorando o ruído das ideologias políticas aparvalhadas e das dogmáticas modas académicas, cumprindo no limites das nossas forças esse novo mandamento da clarividência intelectual.