Lembrou-se o eurodeputado Francisco Assis de se ofender com uma lista que publiquei no “Torto e Direito”, na SICNoticias, onde constava o sentido de voto dele. Tratava-se de uma lista onde nomeei todos os deputados portugueses no Parlamento Europeu que se opuseram a uma moção de apoio à cidade de Ceuta, submergida numa torrente de imigração ilegal há mais de um mês, depois de a comunicação social portuguesa ter repetido com gáudio que a solução fora resolvida pelo magistral Sánchez em 24 horas ou menos. Ofendido, o nosso eurodeputado atacou-me energicamente. Por eu ter trocado o seu sentido de voto? Não, ele votou mesmo contra. Por eu ter iludido os espectadores quanto ao conteúdo da moção que tinha ido a votos? Não. A moção apoiava Ceuta e a soberania espanhola sobre a cidade, ripostava sem ambiguidades contra as provocações de Marrocos e repreendia as políticas de Sánchez de regularização extraordinária de imigrantes em Espanha e a paralisia da resposta do governo espanhol diante do desastre em curso.

Ofendido e crítico da minha conduta, o democrata Assis ofendeu-se e criticou quem se atreveu a escrutinar o que ele (e os seus camaradas do PS, BE e PCP) andam a fazer em Bruxelas. Assis devia rever o seu conceito de democracia que faz do escrutínio factual de um representante eleito em funções públicas matéria de ofensa. Chega a dizer que fiz uma “lista censória”, horrorizado com algo que não seja louvor, ou segredo, acerca daquilo que ele decide em nome dos povos europeus. Já de cabeça perdida descreve-a como uma “fatwa punitiva” (palavra de honra!). Assim se converte um eurodeputado em vítima da perseguição de um impiedoso imã. É preciso ler duas vezes para crer nos olhos que percorrem aquele delírio em formato do Facebook. Seria divertido não fosse isto um (inadvertido) desrespeito pelo sofrimento de quem por esse mundo fora sofre as consequências das fatwas reais. Talvez a longuíssima carreira de Assis como deputado e noutras funções públicas o tenha feito esquecer dos princípios fundamentais que norteiam a relação entre um simples cidadão eleitor e um senhor doutor deputado, que na cabeça dele, não pode sujeitar-se a ter as suas decisões públicas devidamente publicitadas na televisão. Era o que mais faltava. Assumir a responsabilidade pelo diz e faz enquanto deputado é pura e simplesmente inconcebível na definição alternativa de democracia de Francisco Assis.

Sinto-me honrado pelo senhor eurodeputado Assis ter perdido minutos do seu precioso tempo para se indignar comigo. Afinal de contas, é um dos homens mais experimentados na vida política nacional. O seu currículo fala inteiramente por si. Mais adiante, refém das suas confusões sobre os princípios básicos da democracia representativa constitucional chama-me sarcasticamente “grande notário da democracia” nacional. A razão de tal troça está no singelo atrevimento da minha conclusão sobre a sua escolha quando foi chamado a votar a moção de Ceuta. É que eu disse que ele e os seus camaradas, que tudo permitem e tudo silenciam em solidariedade com um governo sinistro de corrupção e desmantelamento do Estado de Direito em Espanha, não teriam autoridade para criticar outros ataques ao estado de direito e a democracia noutros países europeus. Assis no Olimpo de Bruxelas já esqueceu que a imparcialidade e a não-duplicidade formam na base a estrutura do julgamento justo, e se ele é incapaz daquelas duas bênçãos também não será abençoado com a justiça nos seus julgamentos. Quem tem dois pesos e duas medidas, deve esperar que os seus pronunciamentos sejam ignorados por todos os que percebem que tal abordagem de conveniência sectária é contraditória com um julgamento justo e equitativo. Daí ao esvaziamento da autoridade em futuras e passadas considerações sobre os desvarios anti democráticos dos outros é um pequenino passo. A autoridade tem destas coisas que o estudo da coisa ou a posse da mesma poderiam ter ensinado a Assis. Mas nitidamente o estudo passou-lhe ao lado e a posse mostra com clareza que nunca a teve. Não percebe que não sou eu quem o “impede moralmente” de falar com autoridade sobre os ataques ao estado de direito. Foi ele próprio quem abdicou dessa prerrogativa. Ele que se zangue consigo mesmo – e com o seu sectarismo, sim.

No final, Assis promete ao bom povo português que nunca deixará de “denunciar” países como a China, Cuba, Nicarágua, Guiné-Bissau e onde quer que se “assista à denegação dos direitos humanos”. Nem se apercebe que acabou por constituir mais uma listinha de conveniências porque outros ataques ao estado de direito nomeadamente dentro das fronteiras da União Europeia ficam fora das sua intrépidas denúncias. Que a conveniência nao é edificante mostra-se rapidamente. Sobre a Hungria de Orbán ninguém o calou. Sobre Sánchez nem uma sílaba pudemos ouvir da sua corajosa e imparcial participação pública. Deus nos livre da impensável circunstância em que Assis esteja disposto a “denunciar” o que se passa em Espanha. Isso está por completo fora do campo das possibilidades do nosso democrata. De resto, nos últimos dias, o mundo viu António Costa em Nova Iorque, sem qualquer escrúpulo, a servir de mordomo institucional a Pedro Sanchez. A triste exibição de Costa acabou por confirmar linha a linha a crítica que fiz, e faço, a Francisco Assis, ao sentido do seu voto e ao partido a que ambos pertencem. É, pois, penoso ver Assis revelar os falsos pretextozinhos que pudessem redimir o que fez. Diz que foram os mauzões do PP espanhol, mas é, na realidade, sempre a mesma a luta sectária – sempre. E depois o “demagogo” sou eu.

Finalmente, mostrando conhecer tão bem o significado da palavra “liberal” como o de “demagogo”, dirige-me a terrível ofensa de me classificar como “liberal” e até de cometer um pecado grave no nosso tempo – o de produzir fake news – quando imagina que eu costumo gabar-me de tamanho atributo. Censor ainda vá, agora liberal?! Aí, sim, é caso para me chatear.