O efeito da “segunda juventude” — isto é, a ideia de que a reforma pode enriquecer a nossa vida social — existe mesmo. Não o digo por experiência pessoal: aos cinquenta e cinco anos, e tendo em conta o estado bastante frágil dos sistemas de pensões ocidentais, provavelmente ainda terei de trabalhar durante muito tempo. Ainda assim, um novo estudo da nossa equipa mostra que, para quem já deixou o mundo do trabalho, este fenómeno é real.
Uma análise dos movimentos quotidianos anonimizados de 200.000 pessoas, distribuídas entre Boston, Chicago, Hong Kong, Londres e São Paulo, liderada pela professora Becky Loo, da Universidade de Hong Kong, em colaboração com o nosso Senseable City Lab, permitiu realizar o primeiro estudo transcontinental sobre mobilidade quotidiana e vida social. O resultado é surpreendente: as pessoas com mais de 66 anos encontram um leque mais amplo e mais diversificado de pessoas do que as faixas etárias em idade ativa. A reforma, em suma, pode não fechar portas, mas abri-las.
Este estudo insere-se num novo e fértil campo de investigação urbana. Durante décadas, a análise quantitativa das cidades concentrou-se na sua forma física: edifícios, ruas, infraestruturas. Hoje, o olhar está a alargar-se às interações que dão significado a esses espaços. Munido de smartphones e de outros dispositivos eletrónicos, o cidadão — que hoje poderíamos chamar homo electronicus — deixa rastos contínuos dos seus movimentos e das suas atividades. Graças a esses dados, a cidade pode ser lida já não apenas como um mapa de edifícios, mas como uma rede de encontros.
Imaginemos as pessoas como partículas que se movem no espaço e no tempo, um pouco como um gás. O grau de mistura social pode ser medido observando quando indivíduos pertencentes a grupos diferentes se encontram. Estudando os padrões de mobilidade quotidiana e cruzando-os com dados socioeconómicos, podemos perceber de que forma os bairros conseguem, ou não, pôr em relação pessoas diferentes.
Quando se introduz a idade neste tipo de análise, os resultados são notáveis. Os reformados com mais de 66 anos entram em contacto com um retrato mais amplo da sociedade do que as pessoas noutras fases da vida. O nível de mistura social, elevado entre os jovens, reduz-se na meia-idade, nos anos dominados pelo trabalho e pela família. Mas volta a crescer com a entrada na reforma. É um padrão que se repete nas cinco cidades analisadas, da densíssima Hong Kong a metrópoles americanas mais dispersas como Chicago.
Além disso, o trabalho contemporâneo organiza a vida com uma regularidade impressionante: casa, escritório, escola, e depois tudo de novo. Com o tempo, esta rotina restringe tanto o número de lugares frequentados como a variedade de pessoas encontradas. O trabalho funciona, por outras palavras, como um poderoso filtro espacial. Um filtro que depois é removido pela reforma, tornando as trajetórias quotidianas mais variadas, menos previsíveis e socialmente mais abertas.
Com base em análises deste tipo, as cidades poderiam ser repensadas para apoiar de forma mais consciente esta nova fase da vida, sobretudo num país como Portugal, onde as pessoas com 65 ou mais anos representam cerca de 24,3% da população residente.
As residências para idosos, por exemplo, poderiam ser colocadas ao lado de residências estudantis, de modo a favorecer novas interações e uma circulação intergeracional do saber. Os espaços públicos poderiam ser desenhados para incentivar uma maior mistura quotidiana. E talvez devêssemos também aprender a olhar com mais atenção para os lugares informais de encontro. Os pubs britânicos, hoje muitas vezes ameaçados de encerramento, foram historicamente espaços onde grupos sociais diferentes interagiam de forma genuína. Em Portugal, poderíamos pensar de forma semelhante em certos cafés de bairro, jardins públicos ou associações locais, onde gerações e mundos sociais diferentes ainda se cruzam no quotidiano.
De forma mais ampla, a nossa investigação põe em causa uma narrativa infelizmente familiar. As sociedades que envelhecem são frequentemente descritas em termos de declínio: força de trabalho em contração, custos crescentes, isolamento em aumento. A reforma é lida como uma retirada. Poderia, pelo contrário, ser uma reabertura.
Lembram-se da velha piada do humorista americano George Carlin, que dizia querer viver a vida ao contrário? Começa-se morto, para despachar logo o pior; depois acorda-se num lar, melhorando dia após dia, até ser expulso por estar demasiado em forma. Recebe-se um relógio de ouro e uma festa no primeiro dia de trabalho, e depois fica-se ali quarenta anos, até se ser finalmente suficientemente jovem para aproveitar a reforma.
À luz dos nossos resultados, talvez esta fantasia esteja menos longe da realidade do que parece.
Nota: Uma versão anterior deste artigo foi publicada no Financial Times.