Fui parar ao concelho do Seixal, na Margem Sul do Tejo, no ano da graça de 1989. Até então vivíamos no Alto dos Gaios, no Estoril, onde o meu pai pagava uma renda de casa de 20 contos, ganhando 40, com uma mãe desempregada e eu, um bebé carente de fraldas, leite adaptado, pediatras e tudo o que se sabe. Quatro anos depois de eu ter nascido, e nestas circunstâncias, por entre dinheiro poupado e empréstimos pessoais e bancários, lá se conseguiu comprar uma casa naquele lugar que ficava, na época, a uma distância insuportável de Lisboa. Com excepção para umas colónias de férias dos empregos parentais, não se faziam férias fora da “terra”, entre casas de avós, tios e primos. Durante muitos anos, as únicas férias que o meu pai tirava serviam para a colheita da azeitona. Não se comia fora, não tínhamos carro, havia direito a um par de ténis novos por ano, usados até estarem rotos, não havia festinhas de aniversário. Durante muitos anos, os melhores presentes que tinha no Natal foram oferecidos pelas entidades empregadoras lá de casa. Fomos dos últimos a ter telefone fixo. E quando entrei na escola primária, em 1991, por entre cantorias frequentes do Grândola Vila Morena nas festas de fim dos períodos escolares, abriu-se um mar de oportunidades: “Se estudares, podes ter uma vida melhor do que a minha” tornou-se um mantra que, por entre fases melhores e piores, lá acabei por respeitar. Compreendi muito cedo, mesmo que isso só se tivesse tornado claro largos anos depois, que o esforço dependia de mim e não dos outros, que nada vem sem esforço e sacrifício, que não devia ficar a dever nada a ninguém e, ao mesmo tempo, que muita gente nos ajudava e ajudávamos muita gente, e ainda que ninguém me devia nada e muito menos que devia invejar o que os outros tinham a mais do que eu, pelo que, quando cheguei ao ensino secundário, aos 13 anos, e ouvi uma professora dizer-me que, perante um cenário em que eu e outros como eu éramos assaltados frequentemente, a minha obrigação era aceitar o roubo que me era feito porque o privilégio de eu ter algo que outros não tinham legitimava o facto de eu ficar sem as minhas coisas, eu podia nunca ter lido um clássico da filosofia política, mas já era seguro que não podia ser de esquerda. Em que cabeças é que a injustiça ou a crueldade dos meios podiam ter justificação?

Por outro lado, também cedo compreendi que as minhas opiniões não me tornavam melhor pessoa do que os outros – e também nunca aceitei que os outros se achassem melhores pessoas do que eu porque tinham outras opiniões. Talvez também por isso não seja de esquerda. Porque me falta a superioridade moral – ou porque talvez a tenha, mas guardo-a para os meus botões e não faço disso uma arma de arremesso sobre os outros. Tenho muitos amigos e família de esquerda – foi deles, em boa medida, que bebi boas referências culturais que ainda hoje guardo com carinho. Muitos deles são melhores pessoas do que eu. Mas sempre foi muito claro para mim que a bondade de alguém não advém das ideias políticas que professa, como se aderir a um programa ou a um ideal político constituísse um atestado de perfeição.

Nunca vi o mundo dividido entre oprimidos e opressores. Tive mesmo muita dificuldade em compreender o lugar que podia ocupar nessa mundivisão até porque, sobretudo depois de entrar na Faculdade de Direito, me sentia a meio da ponte. Demasiado beto para chunga, demasiado chunga para beto; demasiado oprimido para ser opressor, demasiado opressor para ser oprimido. Uma balela, no fundo, uma teoria que serve para explicar tudo, nunca explica nada e nunca admite estar errada, como se a conclusão pudesse ser sempre tirada antes de serem analisados os factos.

Nunca aceitei que a posição económica ou a classe social pudesse conter a verdade inteira de uma pessoa. Não vim da riqueza, não estou na riqueza, não tenho sequer a ambição de alcançar a riqueza, e incomoda-me que a visão maniqueísta da esquerda (e do Estado, já agora) sempre nos tenha olhado como ricos. Mas gosto de ricos. A prosperidade dos outros nunca me pareceu uma afronta, nunca invejei o que os outros tinham e eu não, nunca entendi o mundo como se o que me faltava se devesse ao facto de outro o ter. Gosto de saber como a riqueza foi obtida: se houve fraude, se houve favor, se houve abuso. Mas sempre vi uma tristeza profunda naqueles que vêem o mundo de forma que o sucesso dos outros significasse a sua própria humilhação. Acreditei sempre, e estupidamente acredito ainda, numa sociedade onde se possa subir na vida, mesmo sabendo que uns subirão mais depressa ou que outros partem de degraus superiores. O que sempre me assustou foi a perspectiva de que todos podem ficar no mesmo lugar, ou de que quem subiu tem a obrigação moral de descer para que todos sejamos iguais. Somos iguais na dignidade à partida, não iguais em tudo na linha de chegada.

Sempre desconfiei, talvez por isso, de quem vê na igualdade de resultados um objectivo. Nunca vi na igualdade de condição algo à mercê de todos os sacrifícios. O que me preocupa ainda hoje é que a igualdade seja algo a montante da vida, que ninguém possa ser prejudicado ou beneficiado por ser assim ou assado. As pessoas querem, e quererão sempre, coisas diferentes, e estão dispostas a pagar preços diferentes pelo que querem. Não podem é não querer pagar preço nenhum, ou que sejam os outros a pagar por elas. Há quem arrisque, há quem poupe, há quem gaste. Uma sociedade livre produzirá forçosamente vidas desiguais, e não há nada de errado nisso. Sempre vi o papel do Estado como o garante do acesso de todos a coisas básicas como a saúde, a educação e a justiça que deve garantir os direitos fundamentais de todos nós. Que é como quem diz que sempre vi o Estado como a garantia de que ninguém fica para trás, se não quiser ficar para trás, e não como a garantia de que não vai ninguém à frente dos outros.

Nunca vi com maus olhos a existência de elites, embora sempre tenha recusado a ideia do comité ou da nomenclatura. Mas sempre achei que se devia exigir mais das elites. Não concebo viver numa sociedade onde não exista quem saiba mais, quem faça melhor, quem tenha mais coragem de assumir responsabilidades, quem lidere, quem acrescente valor, quem inove. Uma das maravilhas de chegar ao ensino superior foi precisamente o facto de ali, finalmente, ter encontrado quem fosse mais culto, mais competente, mais trabalhador, mais talentoso, mais rico, mais experiente, mais esforçado do que eu. O que me incomodou sempre foi ver como vivemos numa sociedade onde as elites se fecham, onde se confunde o mérito com o apelido, onde se pergunta de quem é que o menino é filho, sem concorrência, sem possibilidade de serem substituídas. E hoje é evidente que o processo de deselitização a que estamos a assistir há décadas deu também cabo da ideia de autoridade e da excelência. E não precisei também de ler clássicos de filosofia política para perceber que o desprezo pela excelência não traz justiça a sociedade alguma, deixando-a, antes, mais disponível para ser dirigida por quem domina a arte dos enganos ou a arte de agradar com retórica. De resto, sempre preferi a política dos resultados à política da retórica. O melhor professor de História que tive apresentou-se com autoridade e foi odiado por todos durante praticamente um ano lectivo inteiro. Até que todos perceberam que estávamos perante uma referência, e que a autoridade que ele emanava não jogava contra nós, mas que nos diferenciava de quem tinha outros professores.

E, porque o texto já vai longo, termino dizendo que, talvez graças a um avô que me lia em voz alta os textos do seu livro da quarta classe, também cedo percebi que o mundo não nasceu no dia em que eu cá cheguei, e que isso também merece ser respeitado e acolhido. Que não sou especial e nunca fui. Que não tenho caprichos que não possa pagar ou que não dependam só de mim. O que quero e sempre quis foi a liberdade para construir o que quero, a responsabilidade de aceitar o resultado das minhas escolhas. Conhecendo largamente as minhas imperfeições e defeitos, o que quero é viver numa sociedade que saiba conviver com elas e não uma comunidade que entregue a alguém a tarefa de me corrigir. Lamentavelmente, já fomos mais livres do que somos hoje. Quando eu era um miúdo e cheguei a uma escola empedernida de retórica marxista, e o resto do país dava maiorias absolutíssimas a Cavaco Silva, éramos mais livres do que neste cosmos que aliou o pior do individualismo ao pior dos amanhãs que cantam em que vivemos hoje.