Vivemos numa era em que tudo é imediato. As respostas chegam em segundos,  o conhecimento está apenas ao alcance de um clique e as perguntas, por mais  complexas que sejam, parecem exigir apenas respostas rápidas. A tecnologia trouxe  facilidade, utilidade e oportunidades que, há poucas décadas, seriam inimagináveis. Eu  adoro e admiro isso. Adoro o que a inteligência artificial pode fazer, o quanto nos  facilita a vida, o quanto nos conecta.

No entanto, há algo que me assusta. Sinto que, no meio desta sobrecarga de  informação e de respostas instantâneas, estamos a perder algo que deveria ser  considerado fundamental: o pensamento profundo, o raciocínio próprio e o espírito  crítico. O ensino, que deveria formar mentes vivas e curiosas, parece inclinar-se cada  vez mais para a eficiência e para o resultado imediato, esquecendo-se da riqueza do  processo que é a reflexão lenta, a dúvida, a curiosidade, o querer questionar, aquilo  que não deveríamos, de forma alguma, deixar de ser: humanos.

O papel do professor, outrora guia do conhecimento e mediador do  pensamento, corre o risco de se reduzir a um mero supervisor de tarefas ou avaliador  de respostas prontas e facilitadas por meio da inteligência artificial. O aluno, por sua  vez, aprende que o caminho mais rápido é confiar na inteligência artificial para  produzir as soluções. Ao invés de construir as suas próprias ideias e questionar-se  sobre os temas, limita-se a questionar diretamente a fonte que lhe dará respostas em  segundos. E assim, sem percebermos, vamos perdendo a capacidade de questionar, de  filosofar e de debater.

Eu sinto-me uma observadora melancólica deste tempo. Serei para sempre uma  eterna descontente, uma discordante de um mundo cada vez mais artificial e menos  humano. Sinto que sacrificamos aquilo que jamais deveria ser sacrificado e que nos  torna especiais: a nossa habilidade de pensar, de sentir, de imaginar para além daquilo  que é observado e nos é dado. Talvez me identifique com os filósofos do passado,  aqueles que debatiam contra a sociedade, que se sentiam solitários na sua lucidez.  Como diria Montaigne: “Não desejo que a vida seja fácil, desejo que seja verdadeira.” Isto não é uma lamentação, mas um apelo à ação. A tecnologia não é nossa inimiga. Ela  é uma ferramenta. A questão foca-se apenas na forma como a estamos a usar.

Precisamos de ensinar os alunos que a IA pode ser uma grande aliada, mas  nunca deverá ser uma substituta do nosso próprio discernimento. Precisamos de  valorizar o processo do conhecimento e não apenas o resultado. Precisamos de  lembrar à geração mais nova que aprender é muito mais do que encontrar respostas  rápidas. Aprender é questionar, duvidar, errar e refletir. Não devemos perder aquilo  que cada um de nós tem de mais humano.

Pensar ainda é um ato de humanidade. E, talvez, seja este o desafio maior do  século XXI: aprender a usar a inteligência artificial sem perder a nossa própria  inteligência, sem abrir mão de tudo aquilo que nos faz humanos. Enquanto houver  quem questione, debata, escreva e reflita, ainda existe esperança. Porque, no fim, a  humanidade não se mede pelo que sabe responder, mas pelo que escolhe pensar por  si mesmo/a. E é ter a coragem de ensinar e aprender a pensar, sem aceitar atalhos.