Nós que geralmente nos deslumbramos com estrangeirismos e estrangeiros não esperávamos Kristin nem Leonardo. Eles até chegaram com aviso prévio mas ninguém ligou muito à crueldade com que se apresentariam à porta de algumas casas. Convidados sem convite merecem desconfiança e não complacência.
Infelizmente, quando chegaram já era tarde. E, numa fúria nunca vista, entraram violentamente portas adentro, vandalizando o interior das casas e saindo pelo telhado, não sem antes levarem consigo centenas de telhas e ceifarem algumas vidas.
Para trás deixaram um rasto de destruição sem paralelo. Com certeza as gerações mais novas não esquecerão estes dias difíceis, sobretudo aqueles a quem levaram tudo sem explicação.
Para trás fica também um conjunto de declarações lamentáveis de quem tem obrigação de prever e proteger aqueles por quem se responsabiliza e que, ironicamente, são precisamente os mesmos que lhe pagam.
Para trás fica um convite ao ex-Ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita. Ele, logo ele, foi convidado para debater a situação de calamidade que se vive. Nem o mais talentoso autor de tragédias se lembraria de uma maldade destas. A não ser, é claro, que desejasse introduzir na sua obra um prelúdio sobre o regresso do Socialismo.
No meio disto tudo, ainda tivemos de ouvir declarações do Presidente da República. Ele, também logo ele, que está para se ir embora e que tinha acabado de desfazer a mala para a voltar a fazer, deixou os seus habituais recados num hábito maníaco, pois desconfio que já não há quem o queira ouvir.
E como se tudo isto não fosse mau o suficiente, ao ver as casas remotas de construção nova, mas fazendo lembrar as do século passado, ao ver as finas paredes suscetíveis de infiltrações, ao ver o chão frio e o bolor dos rodapés rodeados por móveis parcos e num ambiente inóspito, confirma-se a contínua precariedade do país passados mais de vinte e cinco anos no novo século.
Estas são as casas onde, em 2026, vivem tantas pessoas, novas e velhas. Ademais tampouco parecem saber regras de segurança básica, fazendo, por vezes, perguntas excecionais, o que leva alguns a pensar se o Estado, que há décadas se diz garante da sua educação, foi realmente capaz de cumprir a sua função de instrução e para a qual todos contribuem.
Nestes dias ficámos a ver o país a nu. Descoberto, vimo-lo magrinho, débil e febril. Com a pele envelhecida e enrugada, cheia de eczemas, mas sem força para se tratar. É a pele de um país pequeno que teme avançar e se asfixia entre páginas intermináveis de burocracia incompreensível e um Estado avariado. Um lugar que, à falta de melhor, não tem outra hipótese senão contentar-se com o meão e com o que é mais barato. Um sítio com sol mas sem sonho; com talento mas cheio de preguiça; com braços mas sem pernas; com paredes mas sem tetos.
Para a frente fica a força daqueles que se querem vestir porque estão fartos de mostrar a pele. Nem que tenham de coser as suas próprias roupas, ou pôr as telhas nas suas casas. Porque aí, pelo menos, o Estado não intervém, é que não sabe coser, nem encomendar uma telha. É o Estado da peneira que não precisa sequer que alguma coisa mude para que fique tudo na mesma.