Blockchain é uma tecnologia de registo em cadeia (“chain”) por meio de blocos (“blocks”) que armazenam dados de forma descentralizada, ou seja, através de uma rede de computadores, ao invés de um único servidor. A informação é registada e encriptada, bem como acessível, inalterável, auditável e rastreável, segundo regras e algoritmos pré-definidos.

Embora o setor financeiro tenha sido a principal referência na aplicação desta tecnologia, através das chamadas criptomoedas, a blockchain também pode ter especial interesse para o setor da construção, a vários níveis, atendendo a fatores como a fragmentação e complexidade da sua cadeia de valor, que é composta por múltiplas fases e intervenientes; a propensão para conflitos contratuais e atrasos nos pagamentos; as diversas exigências regulatórias, principalmente no domínio da segurança, ambiente e licenciamento de obras, e a necessidade de rastreabilidade de materiais e certificações; e a pressão por uma maior eficiência por meio da digitalização de processos.

Neste contexto, a blockchain potencia um conjunto de vantagens para a Construção, destacando-se: o registo unificado, permanente e partilhado, em tempo real, entre todos os intervenientes (e.g. donos de obra, projetistas, empreiteiros, entidades licenciadoras e reguladoras), reduzindo os erros de comunicação e a duplicação de informação e permitindo a consulta rápida do histórico dos registos em qualquer momento; a realização automática de verificações, aprovações e pagamentos a projetistas, empreiteiros e fornecedores, através de contratos autoexecutáveis denominados por “smart contracts”; a validação rápida de certificações técnicas, licenças, auditorias ambientais e normas de segurança; o controlo de qualidade dos materiais de forma precisa, desde a origem até à instalação, registando certificados, datas, aprovações e responsáveis e verificando a sua conformidade contra os requisitos de projeto; e a digitalização segura e autenticada de registos (e.g. decisões e versões de projeto), reduzindo o papel e a burocracia e aumentando a proteção contra acessos e alterações não autorizadas.

Na realidade, existem já vários casos de aplicação à Construção, destacando-se exemplos de empreiteiros no Japão, relacionados com a verificação de materiais e certificações de acordo com os requisitos do cliente e da legislação em vigor, abrangendo o domínio da sustentabilidade ambiental; e nos EUA, EAU e Índia, relacionados com a gestão documental (e.g. contratos, licenças, relatórios) e o registo de atividades e alterações relevantes, favorecendo assim um histórico mais completo e auditável das obras.

Não obstante, existem vários desafios ao avanço da blockchain na Construção, como a falta de conhecimento e formação juntamente com a diversidade de métodos e técnicas disponíveis para a sua implementação; a falta de regulamentação e legislação específicas; as dificuldades de integração com os sistemas tradicionais; e os elevados custos iniciais e de manutenção, acrescidos da dificuldade em estimar o retorno do investimento.

As possíveis medidas para mitigar estes desafios são diversas, ao nível governamental e organizacional, incluindo a formação e capacitação dos profissionais e empresas do setor; o desenvolvimento de normas técnicas e legais e a realização de projetos-piloto para atender a questões jurídicas, particularmente no domínio dos “smart contracts”; o mapeamento dos sistemas tecnológicos existentes (e.g. ERP, BIM, IoT, plataformas de gestão) e a adoção de soluções compatíveis, em colaboração com empresas do setor tecnológico; e a criação de incentivos fiscais e financeiros para a digitalização e aplicação da tecnologia blockchain.  

Posto isto, a introdução da blockchain no setor da construção representa um avanço tecnológico com impactos económicos, sociais e operacionais significativos. Economicamente, ao melhorar a gestão de contratos e os fluxos financeiros, pode reduzir custos associados a erros, fraudes, burocracias, litígios e ineficiências. Socialmente, aumenta a transparência e confiança entre os vários intervenientes num projeto, favorece a segurança dos trabalhadores (e.g. via certificações rastreáveis) e contribui para práticas mais éticas e sustentáveis (e.g. através do rastreio da pegada ecológica dos materiais e do cumprimento de requisitos ESG). Operacionalmente, promove a transição digital, a automação e a inovação, mitigando assim desafios como a escassez de mão-de-obra e a crescente necessidade de edifícios e infraestruturas.

De facto, espera-se que a taxa de adoção global da tecnologia blockchain na Construção cresça significativamente nos próximos anos, à medida que o setor evolui para modelos mais digitais, colaborativos e eficientes.

Tal não acontecerá, contudo, sem as necessárias adaptações de processos, normas e mentalidades, por meio de iniciativas políticas e estratégicas adequadas, num setor tradicionalmente resistente à mudança e cujos níveis de digitalização e produtividade na gestão da informação estão entre os mais baixos no contexto da economia global.