Escultura

Chafes (Helena) Giacometti. E a Gulbenkian em Paris /premium

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Estão na Gulbenkian em Paris mas apesar dos seus nomes lado a lado, é um, Chafes, o vivo, que dá a ver o outro, Giacometti, o morto. O risco era imenso. Tão grande como o talento silencioso de Chafes.

1. “Tive muito tempo”, diz ele, como se por si só isso chegasse para a revelação que nos espera quando entramos no seu “túnel”de ferro negro. “Tive muito tempo para pensar a sério isto, comigo mesmo”.

“Isto” é Alberto Giacometii por Rui Chafes. Estão os dois na sede da Fundação Gulbenkian em Paris mas apesar do título da exposição ter os nomes lado a lado, é um, Chafes, o vivo, que nos dá a ver o outro, Giacometti, o morto. O risco era, é, imenso. Pelo menos tão grande como o talento silencioso de Rui Chafes. Ou directamente porporcional a ele, talvez fique assim melhor dito.

Falamos um destes dias em Paris, onde o escultor viajou para assistir à conferência que a convite da Gulbenkian, a filósofa e professora Maria Filomena Molder veio fazer, sobre esta exposição: “Gris, vide, cris” (a mais recente, inesperada e interpelante assinatura internacional de Rui Chafes.)

“Há gente que pensa com os materiais, eu faço desenhos e vou desenvolvendo o pensamento até onde quero. Pego no ferro quando já sei. Quase como um arquitecto, recebo as minhas próprias ordens. Tenho a bancada cheia de desenhos e vou-os seguindo.” Pausa. E depois: “os desenhos são os sonhos que tento realizar”.

Nunca saberemos se em“Gris, vide,cris” estão cumpridos esses sonhos. O risco, sim, sabemos que lá está, intacto, inteiro. Mas oh como valeu a pena ter tido o fôlego de correr atrás dele, tê-lo transformado em “sonho” através daquela matéria tão, como dizer? imaterial que ali vemos, a servir de improvável guarida a Giacometi.

2. Foi há dois anos, estava-se no final de 2016, quando um dia, Helena de Freitas, historiadora de arte e curadora da exposição, (como já o fora de “Amadeu”, no Grand Palais) se lembrou de uma dupla que em principio tudo interditaria. Em principio mas não no fim mas isso Helena ainda não podia saber. Sabia apenas que tivera a “percepção” da possível viagem dessa dupla. Arriscando o que “poderia vir a acontecer num mesmo espaço se juntasse dois universos tão diferenciados do ponto de vista físico” como os de Chafes e Giacometi mas “parecidos no invisível”. Seriam eles “desafiadoramente” juntáveis ?

Chafes ficou siderado com a proposta. A seguir reticente, a seguir receoso. E depois “mergulhou no abismo” conforme sabiamente nos disse a filósofa na sua intervenção ao lembrar-nos que “os artistas mergulham no abismo” enquanto “os poetas e os filósofos andam à roda dele”.

E então, o escultor atirou-se para o abismo. Ao mesmo tempo, Helena de Freitas batia á porta da Fundação Giacometti. O gesto de um e de outra dava início a uma fulgurante aventura cultural que logo encontrou eco e estímulo em Catherine Grenier, directora da Fundação Giacometi. Mas isso também ainda nenhum deles sabia. Quando muito ,talvez também acreditassem que “o poder do visível gera o invisível” conforme nos garantiria com aquela solta e desarmante convicção dos sábios, Filomena Molder.

Esse “invisível” dado a ver por Rui Chafes em espaços portugueses em França. Ou melhor “escolhido” por ele. Mas talvez não só por ele e o escultor sabe-o.

3. “Éramos duas pessoas à procura de uma terceira”, diz Chafes referindo-se à sua curadoura e com isso concedendo um voluntário “pé de igualdade”ao trabalho de Helena de Freitas. Helena não revela estranheza – afinal trabalharam tanto tempo e tão próximos os dois, “escolhendo ao mesmo tempo, as mesmas obras” . Mas é muito clara a reivindicar a separação de territórios: no seu não cabem “as interferências ou sugestões de trabalho” que “nunca” dá. Cabem “trocas de pensamentos, construção de ideias”. Os campos artísticos de ambos estão estritamente delimitados pelas fronteiras dos respectivos territórios.

Conta ela:

“As vezes de início, perguntava-me se como é que o Rui continuaria ser ele próprio na sua aproximação a Giacometti, como é que isso se faria? E depois fiquei maravilhada com a ética com que o fez. Sem nunca trair a identidade da sua escultura e partindo de um ponto de partida desigual, permitiu-nos ir mais fundo, deu-nos acesso a um modo mais certo de ver o Giacometti,revelando em todo este exercício uma enorme humildade e usando, repito, de uma ética absoluta. Chegaram ambos mais longe mas em perfeito equilíbrio.”

Chegaram onde?

“Ao avesso”, diz-me agora o escultor. “Quando comecei não era nada evidente mostrar o avesso mas depois houve a necessidade dessa descoberta. A vulnerabilidade de Giacometti encontrou uma correspondência em mim. Com este encontro percebi que o interior era tão importante como o exterior.

Rui Chafes fala-me dos veios, cortes, nervuras, inscritas no “avesso”negro das esculturas agora abertas pela primeira vez ao nosso olhar surpreso. Mas quando pergunto se aquelas feridas assim expostas podem pertencer ao seu tecido espiritual ou mental, ele é tão veemente que é quase brutal na recusa: “Era o que faltava…”:

“ Recuso taxativamente qualquer expressão pessoal minha na obra de arte. Há uma questão de absoluto pudor. Não estou aí, a minha vida pessoal não interessa nada. Amo apaixonadamente a escultura, o meu investimento nela é total, mas a arte é arte, tudo o resto, é tudo resto”. A seguir, vira-se para dentro de si próprio e volta a escrever.

Tem o hábito (necessidade? auto-defesa? obcessão?) de incessantemente escrevinhar palavras velozes em caderninhos. Fá-lo agora sentado á minha frente, ao mesmo ritmo a que eu própria também vou tomando notas, numa ficcional mas exaustiva duplicação. “São segredos”, diz. Depois – também diz — destrói-os ”pelo fogo”, queimando desconcertantemente “pelo menos 90%” das suas palavras previamente condenadas.

Se há por vezes obsessão, há porém sempre silêncio. Rui Chafes, silencioso como os companheiros que elegeu — Bresson, Becket, Giacometti, Kafka, Pedro Costa – é tão explicável pela exigência severa, rigorosa, ás vezes quase cortante desse silêncio, que não é difícil adivinhar ser ele a condição entre todas, do seu caminho para a criação.

Abandonando a pedra e desistindo doutros materiais que experimentara “quando a Escola o instigava a experimentar”, apaixonou-se pelo ferro no final da década de oitenta. Com ele tem convivido intimamente. Num atelier fora de portas passa horas sozinho, com “o fogo, o ferro, o aço, os martelos”, criando “instrumentos que podem ser de vida ou de morte” .

Sim, é a “morte” que subitamente, como um hirto aviso de perigo, nos chega de uma imensa e lisa espada negra que o escultor quis pontiagudamente apontada à parede de uma das salas da exposição. E sim, é uma forma de “vida” a que nos é oferecida, quando, através de uma esguia fresta no ferro, descobrimos Chafes a descobrir-nos Giacometi, como nunca ninguém os vira antes: nem a um, nem a outro. E nisto mesmo residirá porventura a maior razão do emaravilhado pasmo desta exposição: a vida imaterial e quieta do escultor morto, circunscrita ao minúsculo corte no ferro de escultor vivo. Uma travessia que fazemos entre a perda de equilíbrio do nosso corpo e a perda da noção do real, pois intencionalmente dura é, como dizer?, a geometria desta encenação.

4. “Revelação” , tinha-me dito Helena Freitas, e quem sabe? Mas ela sabe:

“Revelação de um vazio cheio de coisas lá dentro, de um materializar das nossas emoções e sensibilidades ao olhar a exposição, da subtileza de umas fronteiras tão imprecisas entre várias coisas, da experiência do nosso corpo no vários espaços…”. Breve silêncio: “Mas só soubemos no fim, era preciso ir experimentando, experimentando. Há exposições que podemos antecipar, esta não. Aqui o Rui foi reduzinho, foi tirando, retirando, até ficar o essencial”.

Sim, até ficar esse “essencial” que é o “avançar para o milagre em desequilíbrio” como dissera Maria Filomena Molder, à atentíssima plateia de franceses e portugueses que tinha diante de si.

Ou até “merecermos o milagre”? Como nos intimara austero e quase irredutível, o próprio Rui Chafes:

“A beleza não é um bombom. Há que lutar por ela. Conquistá-la. A beleza tem que ser merecida”.

5. Era preciso arrojo e visão e a delegação da Fundação Gulbenkian em Paris teve uma coisa e outra para o voo nocturno que “Gris, vide, cris” também é.

“É isto que podemos e devemos fazer, correr estes riscos” afirma convicto o seu director, Miguel Magalhães, 43 anos, correndo veloz sobre as palavras: “A exposição Chafes/Giacometti é o melhor símbolo do que pode ser aqui a Fundação Gulbenkian”

O novo director que “olha” a sede de Paris como “um posto avançado da Gulbenkian na Europa” sucedeu a João Caraça em 2016, (“éramos tão próximos e tudo era tão conversado que essa sinergia deve ter chegado a Lisboa…”).

Magalhães é o maior responsável pela “casa” e o autor da sua programação. Acredita que a “sua” instituição, mercê do seu enfoque nas agendas culturais e civilizacionais de hoje e obviamente na natureza dos seus próprios estatutos, tem vindo a pisar chão cada vez mais sólido em França.

Nos 52 anos que aqui leva – recorda ele — foram tão variadas as paisagens onde a Fundação se moveu quanto as que enquadraram o evoluir das comunidades portuguesas radicadas em França; as mudanças ocorridas em Portugal; o caminho da arte portuguesa e dos seus artistas; o próprio correr do mundo.Ou seja, a cada um desses momentos ia correspondendo — e mesmo que com altos e baixos — um determinado quadro de actuação.

“Não sendo hoje a comunidade portuguesa em França um corpo único nem uniforme” mas um “mosaico de misturas de várias”; não existindo já artistas a fazer “arte portuguesa, mas sim arte”; não sendo Portugal o país que “era há trinta ou quarenta anos,” e existindo a Fundação num circuito “de feroz concorrência”, tudo naturalmente conduzia — e exigia — mais inovadoras formas de agir e intervir.

Foi sobretudo há seis, sete, oito anos, quando se percebeu que “começava a haver um aumento significativo de público francês” e sobretudo quando a Fundação “já não era uma instituição luso-portuguesa”, que foram deitadas á terra as sementes de uma nova estratégia: a actividade cultural nas suas diversas dobras – exposições, debates, conferências, publicações, trabalho com investigadores portugueses residentes em França – reclamava enfim outro modus operandi:

“Passámos a trabalhar com instituições artísticas, científicas, filantrópicas, de prestígio, em regime de co-produção, criando assim ferramentas de legitimação para os nossos próprios artistas, de que a actual exposição “Gris, Vide, Cris”, feita em parceria com a Fundação Giacometti, é um fecundo exemplo”, sublinha Miguel Magalhães, provando “o acerto de uma forma de actuar.” .

Mas há mais exemplos: na “Orangerie”, a actual mostra de Paula Rego “nasceu” da grande visibilidade dada à pintora em França pela exposição promovida em 2012, pela Gulbenkian, na sua sede parisiense.

Do mesmo modo que “Amadeu” — a magnífica exposição portuguesa também comissariada por Helena de Freitas, que há dois anos foi acolhida nas salas do Grand Palais – resultou da feliz co-produção com a “Reunion de Musées Nationaux”, estando “inscrita no quadro da programação de uma instituição francesa”. Ou como é o caso, de algumas parcerias já realizadas com o Centro Pompidou.

Bons exemplos a pedir continuação.

O maior “desejo” deste activo e muito informado director para a delegação que dirige?

“Trabalhar mais e mais para um maior impacto e visibilidade em França”; “fazer cada vez mais parte de uma conversa internacional; “estar inteiramente presente na vida da cidade”:

“Não é verdade que existimos para servir a sociedade, como queria o senhor Gulbenkian? Aqui, fazemo-lo, servindo a cultura em todas as suas declinações”.

E agora? Agora retenha-se um projecto que ainda em gestação será surpreendente: aquando da sua visita a Portugal em Julho último, o Presidente Macron visitou a Gulbenkian e gostou do que viu. Conhecedor de que em 2021 Portugal e a França assumirão, um a seguir ao outro, a presidência da UE, deixou a sugestão de que “a Gulbenkian contribuísse para uma programação cultural nesse período de tempo”. Um desafio que poderá desaguar numa invulgar, inesperada, travessia cultural entre os dois países. Aguardemo-la.

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