1 A memória, indispensável instrumento de vida — nem sempre cuidado como merece – pode até chegar a ser um dom. É assim que o tomo por vezes: o dom de poder dizer: eu lembro-me; estive lá; eu conheço-o; eu vi, eu ouvi.

E de repente, há dias, num (inesquecível) jantar onde fui, era como se sobre a mesa estivesse pousado um ramo de memórias onde presente e passado valsavam sem fronteiras temporais e com desarmante naturalidade. Dirão, é a “idade”. Não é. Será antes o uso da atenção e da maior curiosidade sobre as coisas da vida e da natureza humana e as fantásticas (é a palavra) possibilidades que tive de as aplicar uma e outra.

2 O jantar era oferecido pela Brisa no âmbito do seu já tradicional encontro bienal, “Perspectivas – Reflexão Empresarial e Académica”. Juntou muita gente com boa – ou grande – assinatura no país, o Alentejo resplandecia, a ocasião proporcionava conversas muito interessantes entre os convivas, a guest star chamava-se Filipe Gonzalez (que depois conversaria com Paulo Portas).

Dir-se-á que existem no país diversas outras iniciativas, que há portugueses muito capazes, que o Alentejo é bonito, etc. Não: por detrás da altíssima qualidade e bom gosto daquela noite havia a memória de um passado e a herança duma impressão digital que ficou para todo o sempre impressa no país: a dos Mellos e do grupo que constituíram.

E de mansinho – mas já estou habituada – o passado instalou-se ali ao pé de mim, vinha para ficar. Lembrei-me de como, um bom par de anos antes de 1974, eu olhava para um muito dotado, enérgico e lúcido José Manuel de Mello, dizendo coisas mais à frente que outros e distinguindo-se deles; continuando com persistência e clarividência a formidável obra que era o Grupo CUF, criado pelo avô Alfredo da Silva; batendo-se para que se começasse a olhar melhor e mais fundo para a Europa e tentando convencer Marcelo Caetano a que também olhasse de modo, digamos, um pouco “diferente” dos cinco séculos precedentes, para a nossa então África. Sim, quase toda a gente sabe isso mas nem toda a gente relaciona ou lembra a formidável importância de se manter uma herança, decidindo estar à altura dela no modo de servir Portugal: o país acima de tudo, a “cultura do saber mandar”, ancorada nos melhores valores e na sua permanente aplicação em qualquer dos ramos que iam constituindo o Grupo CUF, o valor da iniciativa, da inovação. Da não desistência em nenhuma circunstância.

3 Mário Soares percebeu a importância e a herança: fez este verão exactamente 50 anos que o recém-empossado primeiro-ministro do primeiro governo constitucional, ligou um dia para José Manuel de Mello e para seu irmão Jorge – ausentes do país devido à revolução – pedindo-lhes que viessem a Portugal almoçar com ele, a S. Bento: “que era preciso ele fazer para que voltassem ao país?” Voltaram: com a mesma cultura da casa e produzindo os resultados que se sabem. (E eu fiquei extraordinariamente feliz com as duas entrevistas que depois pude fazer a José Manuel de Mello, admirável e admirado cidadão português).

4 Voltando ao presente: aquela noite alentejana era de um dos seus filhos, Vasco, chairman da Brisa, mas (valsando de novo com o passado) podia ser do pai, do avô, do bisavô: tudo ali tinha a ver com a massa de que é feita a herança e por isso a evoquei hoje aqui: do sentido de “serviço” à capacidade de iniciativa, do acerto na escolha dos nomes envolvidos ao interesse para o país de algumas intervenções ouvidas no dia seguinte.

Nada disto tem absolutamente nada a ver com nostalgias despropositadas ou saudades de algum “antigamente”. Trata-se apenas – e não é pouco! – de algumas coisas que julgo deverem ser lembradas. O exemplo, a ética, os passos dados no país que quando trata deles está bem entregue.

Falei acima de escolhas, a César o que é de César: uma das melhores decisões do “sucessor” Vasco foi a escolha de António Pires de Lima, para CEO da mesmíssima Brisa. Observem-se os resultados, quem sabe, sabe.

5 Ia o jantar no seu fim quando o passado insistiu em abrir um outro leque, falava já Filipe Gonzalez. O tempo deu uma brusca reviravolta e parou em Viana do Castelo, num dia quente de verão de 1980. Gonzalez era então um jovem andaluz, cabelo despenteado e colete preto, que estava ali para participar na campanha legislativa de Mário Soares e da sua Frente Republicana e Socialista.

Ambicioso e intrépido, Filipe queria um país e eu queria uma entrevista. Ambos ganhámos: Filipe veio a ter a Espanha durante 14 anos (1982/96) como Presidente do Governo, eu obtive a entrevista.

E pude, ao longo do tempo, cruzar-me de novo com ele, em diversas ocasiões, todas superlativas: três entrevistas – duas na oposição, a terceira no governo; um jantar histórico numa tasca em Vilamoura, antes de um comício de Mário Soares em Portimão onde ele reuniria vários líderes socialistas europeus, entre eles Mitterrand, Bettino Craxi, o próprio Filipe. Soares queria comer peixe fresco e, sorte minha, o facto de sermos apenas meia dúzia de pessoas – entre elas sua filha Isabel – permitiu que pudesse conversar largamente com o líder espanhol. Quase no final dos anos noventa o então já ex-Presidente do Governo espanhol apresentou no Palace de Madrid a versão espanhola dos livros que fiz com Soares, num discurso absolutamente extraordinário: tal a minúcia da leitura, a profundidade da análise do homem e do livro; a admiração pelo seu amigo, a rendição ao político. Já neste milénio tentei um reencontro profissional que não aconteceu, Filipe, vice-presidente da Internacional Socialista e muito requisitado internacionalmente, viajava constantemente, eram grandes as ausências de Espanha. Não foi possível.

Nuno Fox

Maria João Avillez mostra a Filipe Gonzalez fotografias de anteriores encontros (imagem gentilmente cedida por Nuno Fox/Expresso)

6 Aconteceu naquela noite. Sentada àquela mesa, ouvindo conversas que iam rolando em óptimo ambiente, não podia porém deixar de pensar no tão misterioso élan – impulso? inspiração? intuição? – que faz ou não acontecer as coisas, surgirem as circunstâncias, produzir momentos “especiais”. Acontecem: no dia seguinte, com trinta e oito graus de calor, estava a entrevistar Filipe Gonzalez em Évora. No jantar da noite anterior mal pudera abordá-lo – era o “super-convidado” – mas na manhã seguinte a conversa fluiu, um rio a correr. Antes tínhamos “brincado” quando lhe mostrei as fotos de cada um dos encontros a que aludi acima: “o tempo passa…” Sorriso meio doce, meio irónico. O tempo trata-o bem, porém: Filipe tem 84 anos, um farto cabelo branco e os ombros algo curvados, sim. Mas a inteligência, a lucidez, a imensíssima experiência da política e do mundo, servidas por uma notável agilidade mental e um raciocínio estruturadíssimo, transmitem a (espantosa) impressão de que nada está fora do seu radar. E não está.

Mostra-se muito pouco “ilusionado” com o mundo que percebe perigosíssimo. Quase tudo o desgosta, indigna ou revolta – é conforme – e por isso se mantém tão activo. Possui o poderoso instrumento da palavra, usa-a com propósito e mestria. Intervém, sobe a palcos, desloca-se ao encontro dos “bons interlocutores” que tem pelo mundo, procura outros. Tudo menos desistir. Nunca lhe ocorreria.

Um grande, grande político.

À despedida, um rasgadíssimo elogio a Mário Soares de quem era profundamente amigo. Nunca deixou de o ver, aparecendo a visitar a família Barroso Soares em Lisboa ou Nafarros e cozinhando “ovos rotos” para o dono da casa que tinha por eles uma “perdição”. E as conversas não tinham fim.

7 Aqui chegados (os textos têm de acabar…) pergunto-me: não fora o passado – bem preservado – e a memória – bem cuidada –, como poderia ter escrito hoje o que aqui deixo?