A Política Agrícola Comum (PAC), outrora apresentada como um instrumento de coesão e desenvolvimento rural, revelou-se para Portugal um cavalo de Troia. Em vez de fortalecer a agricultura nacional, moldou-a segundo os interesses das grandes potências agrícolas europeias, com consequências desastrosas para os pequenos e médios produtores portugueses. Hoje, com campos abandonados, produção interna em queda e uma dependência crescente das importações, é impossível negar: a PAC tem sido um fator de destruição da agricultura portuguesa.
O modelo de financiamento europeu favorece economias de escala e a monocultura intensiva, deixando os agricultores portugueses ; geralmente com explorações pequenas, familiares e diversificadas ; em clara desvantagem. Os subsídios são distribuídos com base na dimensão das propriedades e na capacidade produtiva anterior, o que perpetua desigualdades históricas e as agrava. A lógica mercantil da PAC ignora as especificidades locais, desvaloriza a agricultura de proximidade e coloca o país à mercê de mercados voláteis.
O impacto não é apenas económico ; é também social e ambiental. A desertificação do interior, o envelhecimento da população rural e a perda de saberes tradicionais estão diretamente ligados ao abandono progressivo da atividade agrícola. Ao mesmo tempo, a aposta na intensificação, onde ela ainda sobrevive, tem promovido práticas ambientalmente insustentáveis, contribuindo para a degradação dos solos e da biodiversidade. É uma ironia trágica que uma política desenhada para garantir a segurança alimentar esteja a comprometer as bases que a sustentam.
A dependência alimentar de Portugal agravou-se. Importamos cada vez mais aquilo que antes produzíamos: cereais, hortícolas, frutas, carne. Esta vulnerabilidade ficou exposta durante as crises logísticas recentes, que mostraram como um país que abdica da sua soberania alimentar coloca em risco a sua própria estabilidade. Num cenário de alterações climáticas, tensões geopolíticas e escassez de recursos, a resiliência alimentar não é um luxo ; é uma necessidade estratégica.
É urgente repensar o papel de Portugal dentro da PAC. Não se trata de sair da política comum, mas de lutar por uma reformulação profunda que respeite a diversidade agrícola europeia e valorize os modelos sustentáveis, de pequena escala e de base local. O país precisa de se posicionar com firmeza em Bruxelas, exigindo critérios de equidade na distribuição dos apoios e a proteção da agricultura tradicional, que é também um património cultural e ecológico.
O futuro da agricultura portuguesa não se garante com subsídios que servem de muleta temporária, mas com políticas que devolvam dignidade e viabilidade ao setor. Reindustrializar a transformação agrícola, apoiar o rejuvenescimento do mundo rural e promover cadeias curtas de comercialização são passos indispensáveis. Ignorar esta realidade é empurrar o país para uma dependência estrutural irreversível.
Se nada for feito, não será apenas a agricultura a desaparecer ; será uma parte vital da nossa identidade, da nossa economia e da nossa soberania. A sustentabilidade de Portugal exige uma rutura com o conformismo político e um compromisso sério com a revitalização do campo. Sem isso, o futuro será feito de promessas vazias e prateleiras cheias… de produtos importados.