Na semana passada, li esta notícia e fiquei de boca aberta: quase dois milhões de portugueses já deixaram de fumar. Não fiquei espantada porque houvesse tantos ex-fumadores, e porque uma percentagem muito grande tivesse deixado de fumar sem ajuda médica (parabéns!), mas porque o número de portugueses que ainda fumam não seja maior. É que em Portugal, pelo menos à minha volta, só vejo gente ainda a fumar, ou, pior, a começar a fumar. Sim, pelo que tenho visto, parece-me que há muitos jovens a fumar, por todo o lado.

Em Lisboa, por exemplo, é interessante notar a diferença entre os turistas e os portugueses. Quase não há estrangeiros de meia idade a fumar. Alguns jovens estrangeiros fumam, mas não tanto como a juventude portuguesa.

Comecei a fumar com 15 anos. Há 30 anos, começar a fumar já era uma coisa fantasticamente estúpida. Já estava comprovado que fumar mata. Já havia avisos nos maços de cigarros, embora ainda fossem brandos, do tipo “fumar pode matar” (“pode”…). Eu passara os meus anos adolescentes até então a castigar e a maçar os meus pais por causa do seu hábito de fumar, mas por fim a pressão dos pares apanhou-me, e, pouco depois, a minha mãe encontrou-me a fumar à janela do meu quarto. Mas não se pôde zangar comigo, claro.

Fumei durante os 19 anos seguintes, até que um choque horrendo na família me assustou o suficiente para deixar de fumar, e deixei mesmo de um dia para o outro. De repente, ganhei várias horas por dia e consegui trabalhar muito mais. Mas também ganhei peso: a comida sabia melhor, e provavelmente havia um espaço até preenchido com fumo, e que agora passou a estar cheio de chocolate e outros doces. Consciente de que o tabaco é, para mim, como a heroína, não toquei em cigarros durante 5 anos, até ao dia em que, numa festa, peguei num cigarro “só para experimentar”. Soube-me muito mal e fiquei enjoada, tal como fiquei com os primeiros dois ou três cigarros que fumei aos 15 anos. Levei mais dois ou três anos a fumar esporadicamente, um agora, outro uns tempos depois, como se fosse novamente uma adolescente furtiva. A verdade, é que tinha vergonha, por ser a única na minha família que voltara a fumar, e por isso mantive o meu tabagismo escondido. Mas por fim, nestes últimos anos, saí do armário e tornei-me novamente uma fumadora assumida.

Nós, os fumadores, passamos a vida a iludir-nos a nós próprios. Estamos sempre atentos aos outros fumadores, para nos consolarmos com a ideia de que se eles ainda fumam, talvez o hábito não seja assim tão mau. Ficamos muitos felizes quando encontramos médicos e enfermeiros que fumam, especialmente os que trabalham em oncologia. O número de pessoas a fumar à porta do IPO impressiona-me sempre. Selecionamos os maços com os avisos que não nos dizem respeito. Por exemplo, “fumar causa impotência”, para as raparigas. Ou “fumar é um perigo para o feto”, para os rapazes. E os avisos dirigidos aos corações e aos pulmões de todos? Bem, para esses não olhamos, até o maço acabar e ir para o lixo.

Deixei de fumar mais uma vez na terceira semana de Dezembro do ano passado. A última vez que abandonara o fumo tinha sido dez anos antes, quando fui “cold turkey”, mas então tinha menos para fazer e menos gente à minha volta para eu chatear com ansiedades e tal. Por isso, desta vez optei por um daqueles aparelhos a que um amigo chama um “mp3 com vapores”. Sim, tem um aspecto ridículo, mas estou-me nas tintas… ajuda-me a manter-me longe dos cigarros, e hei de me aborrecer dele daqui bocado, aliás, já começo a não lhe ligar muito.

Mas, e os jovens? Porque continuam a começar fumar? Claro que não é porque fumar tenha um aspecto “cool”… há 40 anos que não tem. E cheira mal e tem um gosto nojento.

Quando a epidemia de SIDA surgiu nos anos 80, houve grandes campanhas de informação, o que assustou toda a gente. A transmissão de HIV abrandou no Ocidente, até quase nada. Por fim, as campanhas acabaram e, lentamente, a infecção começou a subir de novo.

Pergunto-me se a mesma coisa está a acontecer com o tabagismo. Embora a propaganda nas escolas primárias seja forte (ai, as palestras que ouvi das minhas filhas), a mensagem anti-tabagista está a banalizar-se, a ser tratada como uma verdade que não é preciso ser sublinhada, a tal ponto que nos esquecemos que os miúdos com 14 anos nunca viram todas as fotografias de terror.

(traduzido do original inglês pela autora)

Smokey youth

I saw this piece of news last week and was surprised: almost two million Portuguese quit smoking. Not that there are so many people who have given up smoking, and that such a large percentage of them have done it without medical help (congratulations), but that the number of Portuguese still smoking isn’t higher. Everywhere I look in Portugal, people are still smoking, and worse, taking up smoking. I see vast numbers of young people smoking everywhere I go.

In Lisbon, it is striking to see the international differences, since you see almost no middle aged foreigners smoking. There are younger foreigners smoking, but still, not as many as the Portuguese youth.

I started smoking when I was 15. 30 years ago, starting to smoke was already a fantastically stupid thing to do. It was already well proven that it can to kill you. There were already health warnings on packets, although they were still the mild variety of “smoking can kill”. I had spent my early teens harassing my parents about their smoking, but the peer pressure effect got me and my mother caught me smoking out of my bedroom window. But she couldn’t get angry, how could she?

I smoked for the next 19 years, until a horrible shock in the family scared me into stopping, and I stopped overnight. I suddenly gained several hours in my day and I got more work done than I ever had. I gained weight, too, since I could taste food properly and filled some of the smoking gap with food, though I have since dropped it. Knowing that smoking is like heroin to me, I didn’t touch another cigarette, until five years later, when I stupidly had one at a party, “just to see”. It tasted foul, made me feel sick, just like the first two or three had all those years before. It took another two or three years of one here, one there, until I was smoking like a furtive teenager. I was horribly ashamed that I was the only member of my family that had returned to smoking, so I kept my smoking as hidden as I could. Then, finally for the last couple of years, I was out of the closet again, a proper smoker. I couldn’t be bothered to hide it any more.

We smokers spend our lives deluding ourselves. We look out for other smokers to reassure ourselves that if other people are doing it, then maybe it’s not so bad. We are overjoyed when we meet a doctor or nurse who still smokes, especially those who work in oncology. The number of people smoking at the gates of IPO (the Portuguese Oncology Institute) is always impressive. We select the health warnings on packets. “Smoking makes you impotent” for the girls and “Smoking can harm your unborn foetus” for the boys. The warnings that apply to everyone’s heart and lungs, well, we just don’t look at the packet until that packet is finished.

I stopped smoking in the third week of December last year. Last time I gave up, I went cold turkey, but back then I had less to do, fewer people around me to be angst ridden and snappy with, so this time I have been sucking on what my friend calls an MP3 player with steam. It does look preposterous, but I don’t care, it’s keeping me away from the cigarettes and I’ll get bored of it quite soon (I go for much of each day not thinking about it).

But what of the young? Why are they still taking up smoking? Surely it’s not because it still looks cool, because it just hasn’t looked cool for about forty years. Plus it makes you smell and taste horrible.

When the AIDS epidemic came to light in the 1980s, there were massive awareness campaigns that scared everyone and the transmission of HIV, in the West, ground to a halt. Eventually, the awareness campaigns ended and slowly, HIV transmission started to climb again, this century.

I wonder if the same kind of thing is happening with smoking. Although propaganda is strong in primary schools (oh, the lectures I got from my primary aged kids) the anti-smoking message has become almost tacit, so accepted as truth (because it is true) that we forget that the 14 year olds of now haven’t seen all the grisly photos.