Congressista, senador e, finalmente, presidente. Em qualquer dos papéis, é difícil discernir o plano de maior visibilidade das relações longe das câmaras, num emaranhado que se fez lenda. Com entrevistas exclusivas, J. Randy Taraborrelli explora esse novelo que é JFK em “Público, Privado, Secreto”, entre o efeito de íman para as mulheres; a resiliência de Jackie para lidar com os muitos casos extraconjugais do marido; ou o luto de Jack pela perda do filho recém‑nascido (que o levou a tomar decisões precipitadas que arrastaram os EUA para o Vietname). A obra, recém-publicada com o selo da Saída de Emergência, fornece ainda detalhes sobre o envolvimento da máfia na sua eleição; o alarmante abuso de drogas que lhe toldou as decisões durante o desastroso episódio da Baía dos Porcos; e como a mulher conseguiu ajudá-lo a livrar-se da adicção a tempo da quase catastrófica Crise dos Mísseis de Cuba.
Especialista na dinastia Kennedy, o autor acrescenta camadas a esta biografia, da qual publicamos dois excertos.
Um encontro pré-nupcial?
Agosto, 1953, Cannes, França
Ela era uma das mulheres mais atraentes que ele alguma vez vira. Enquanto fixava os seus olhos de um azul glacial, Jack Kennedy não podia deixar de imaginar como seria estar com ela. Era sueca e tinha apenas vinte e um anos: definitivamente jovem, mas ele não via isso como um problema. De pele clara e loira, ela era muito diferente da morena com quem ele deveria casar dentro de cerca de um mês. Contudo, ela era muito parecida com a mulher com quem partilhava a herança escandinava, aquela que tinha conquistado o coração dele há tanto tempo: Inga, claro.
Esta mulher e uma amiga também estavam de férias em Cannes. Pediam boleia quando foram recolhidas por um homem chamado Gavin Sterling, um agente de viagens. Assim que entraram no seu carro, ele convidou as mulheres para jantar no Le Château, um restaurante romântico em Haut‑de‑Cagnes. Quando estavam a caminho, Gavin avistou alguém, abrandou e gritou pela janela aberta do carro: — Ei, Jack! Que raio estás a fazer aqui? — Aparentemente, Jack tinha feito negócios com a agência de viagens de Gavin no passado.
Jack estava vestido de forma casual, com umas calças beges e uma camisa de manga curta, e o cabelo despenteado como era costume em JFK. Ele deu a explicação surpreendente de que uma “condessa italiana” o estava a perseguir numa vespa, “e eu estou a tentar escapar‑lhe”. — Oh! — exclamou ele, enquanto acelerava o passo. — Aí vem ela. — Depois de Gavin ter sugerido: — Encontramo‑nos para jantar no Le Château —, Jack olhou para a mulher no banco de trás e disse: — Está bem. Vou ver o que posso fazer. — E depois fugiu apressadamente.
Uma hora mais tarde, Gavin e as suas duas amigas chegaram ao restaurante. Quando eles entraram, encontraram Jack sentado numa cabine à sua espera, usando agora um fato de algodão cinzento‑claro e uma camisa branca. Ele pôs‑se de pé e estendeu a mão para a loira. — Jack Kennedy — disse.
— Gunilla von Post — anunciou ela. — Esta é a Anne Marie — acrescentou depois, gesticulando para a amiga. Os quatro sentaram‑se então na cabine, Jack ao lado de Gunilla, Gavin ao lado de Anne Marie.
Não demorou muito tempo até Gavin e Anne Marie parecerem recuar para segundo plano, pelo menos para Jack, tão forte era a sua conexão com Gunilla. Durante uma refeição de marisco à luz das velas, ele inclinou‑se para se aproximar dela enquanto conversavam. Ela falava da sua vida na Suécia e das suas recentes viagens à Escócia. Jack brincou com ela por ela andar à boleia. Ele pegou‑lhe na mão enquanto ela prosseguia, mas ele mal ouvia, simplesmente fascinado. Definitivamente, ela fazia o género dele — jovem, loira, nórdica, e muito… Inga. Ela era sensual, mas talvez não tão inteligente como Inga. Não tinha uma visão do mundo, pelo menos não uma que ele conseguisse distinguir. De alguma forma, os seus aniversários vieram à conversa; o de Gunilla era a 10 de julho, no mesmo dia do de Eunice. Tudo era flirt e diversão.
Apenas um mês antes, Jack estivera no Senado a apresentar a sua argumentação contra os 400 milhões de dólares em ajuda externa destinados a combater os norte‑vietnamitas. Grande parte do que ele relatou foi retirado diretamente do trabalho árduo de Jackie. No final, a sua proposta para alterar a lei responsável por tal ajuda seria derrotada. No entanto, ele não abandonaria a luta contra o apoio do governo à guerra no Vietname. Logo após o seu discurso, ele foi hospitalizado por causa daquilo que foi descrito como “calafrios e febre malária recorrentes”. Ou, como ele próprio disse, “mais do mesmo”. Depois, a 5 de agosto, estando o Congresso encerrado e Jack ainda debilitado e fraco, ele e Torbert zarparam. Torb encontrava‑se agora por sua conta durante alguns dias, estando a ter a sua própria aventura com outra pessoa, noutro lugar, deixando Jack à vontade com Gunilla.
Jackie tinha sido uma grande ajuda para Jack, e ele apreciava isso. Mas agora ela encontrava‑se a centenas de quilómetros de distância e ele estava de férias. O que quer que acontecesse durante estas férias não tinha, pelo menos não na sua cabeça, nada que ver com ela. Contudo, quando ele chegou a França, enviou‑lhe um telegrama, embora não muito romântico:
Contacta Ed Berube. Ele conhece um tipo que vai fazer o nosso bolo de casamento.
Enquanto Jack estava em França, Jackie fez o que lhe foi pedido e procurou um homem chamado Ed Berube, que tinha sido o líder da campanha para o Senado de 1952 em Fall River, Massachusetts. Berube recordou mais tarde: — Eu estava em casa numa manhã e recebi uma chamada telefónica de Newport. “Sr. Berube? Daqui fala a Jackie Bouvier.” Não me soou familiar. Nunca a tinha conhecido. Ela disse: “Sou noiva do Senador Kennedy. Ele está na Europa, e recebi um telegrama dele a dizer para o contactar. Estaria disponível para ajudar com o nosso bolo de casamento? Conhece algum pasteleiro? Poderia vir cá esta tarde?” Eu disse: “Sim, tudo bem.” Contactei a pasteleira, Babe Plourde, e fomos ter com ela; ela estava de calções, está a ver, a típica rapariga entusiasmada por se ir casar. Estava profundamente apaixonada. Dava para ver só de olhar para ela. Perguntou‑nos sobre as nossas famílias. “É casado, Ed?” Eu disse que sim e ela continuou: “Tem filhos?” Disse‑lhe que tinha três rapazes. “Oh”, disse ela, “isso é fantástico. O Jack quer ter dez filhos.” Eu disse: “Bem, certamente ele poderá sustentá‑los. Vai casar com um bom rapaz.” E, hoje, todos estes anos depois, lembro‑me exatamente do que ela disse, e de todas as vezes que me recordo, fico arrepiado. Ela disse: “Sim, sou a rapariga mais sortuda do mundo.”
Depois do jantar de Jack naquela primeira noite em Cannes com Gunilla e os seus amigos, os quatro foram a uma discoteca muito popular. Estava uma banda a tocar, e por isso Jack pegou na mão de Gunilla e levou‑a para a pista de dança. Ao tomá‑la nos braços, recordaria ela mais tarde, ele contraiu‑se de dor. Ela sugeriu que parassem, mas ele insistiu que continuassem, dizendo que a queria sentir nos seus braços. Ele era um bom dançarino; ela ficou surpreendida e encantada.
Passaram horas antes de os quatro darem por si no Eden Roc, em Cap d’Antibes. Gavin e Anne Marie foram‑se embora, deixando Jack e Gunilla sentados à beira de um penhasco, contemplando o Mediterrâneo. Foi um momento romântico e Jack não se conseguiu conter. Beijou‑a. — Tenho de contar uma coisa — sussurrou então ao seu ouvido. — Vou casar‑me no próximo mês.
Ela levantou‑se abruptamente. — Bem, então estamos despachados — decidiu.
Gunilla mais tarde afirmaria que Jack lhe disse: “Apaixonei‑me por ti esta noite. Se te tivesse conhecido há um mês, teria cancelado tudo.”
Embora essa possa ter sido a sua recordação, certamente não parece algo vindo de Jack Kennedy, o homem que raramente ou nunca expressava as suas emoções a nenhuma mulher depois de Inga. Além disso, iria ele verdadeiramente desafiar o seu pai e cancelar o casamento com Jackie? Isso também não parece provável.
Ele levou Gunilla para casa. Parado na porta da frente, perguntou‑lhe se podia entrar para tomar uma última bebida. Ela disse que não. Ele pressionou um pouco, mas não a conseguiu fazer mudar de ideias. Ela beijou‑o, virou as costas, entrou em casa e fechou a porta.
A 27 de agosto, Jack regressou a casa e voltou ao mundo real. Comportara‑se como um homem solteiro na última viagem de férias antes de se casar e, para ser generoso, pode argumentar‑se que tudo o que ele fez — ou poderia ter feito — pode ser atribuído aos últimos vestígios de vida de solteiro. Mas o flirt com Gunilla efetivamente evidencia que o que ele tinha com Jackie não era completamente satisfatório. Permanecia a questão: se não fosse pelas suas aspirações políticas e pelas do seu pai, teria planeado sequer casar com a menina Bouvier?
Para tornar tudo ainda mais complicado, após o regresso de Jack, ele enviou uma carta à sua sogra a pedir‑lhe para adicionar nada mais nada menos do que Inga Arvad à lista de convidados do casamento; essa carta permanece nos arquivos da JFK Library.
Embora Jack não visse Inga há seis anos, aparentemente ainda mantinha o contacto com ela. Talvez o facto de ele a querer no casamento demonstrasse o vínculo que ainda tinha com ela, mas também demonstra um lapso insensato de julgamento. Certamente, nada de bom viria da presença de Inga.
Como Janet não reconhecia o nome, ligou a Joe Kennedy para pedir esclarecimentos. Ele explicou que Inga tinha sido uma amiga de Jack, mas também disse que ela não devia ser adicionada à lista. Janet achou isso curioso. Quando o mencionou a Jackie, claro que a noiva quis saber mais. Como era típico dele, Jack não foi muito franco em relação ao assunto. Ele simplesmente disse que Inga era alguém do seu passado. Se o seu pai não a queria no casamento, disse‑lhe, por ele estava tudo bem. Jackie esqueceu o assunto. Por agora, Inga teria de permanecer como mais um dos muitos segredos de Jack.
A mulher que ela quer ser
Sexta-feira, 2 de junho, 1961. Paris, França
Enquanto descansava na banheira da Chambre du Roi (Quarto do Rei), a suite que ele ocupava no Ministério dos Negócios Estrangeiros francês, o Quai d’Orsay, o presidente chamou Dave Powers e Kenny O’Donnell. Ele encontrava‑se frequentemente com os seus assessores enquanto relaxava numa banheira quente; chamava‑lhes “conversas de banheira”. Queria discutir com eles o discurso que deveria fazer nessa manhã no SHAPE — Supreme Headquarters Allied Powers Europe. Para sua grande surpresa, os homens chegaram com uma convidada, Janet DesRosiers. — Desculpa‑me se não me levanto para te apertar a mão — disse‑lhe Jack, sorrindo.
— Compreendo perfeitamente, Sr. Presidente — disse ela, corando.
Depois de Jack ter sido eleito presidente, promoveu Janet DesRosiers de chefe de cabine no avião Caroline a sua secretária executiva na Casa Branca, com Evelyn Lincoln. Ela começou a trabalhar com ele nessa função, mesmo antes da tomada de posse. — Eu era responsável por atender os telefonemas, fazer as suas chamadas e agendar‑lhe os compromissos — lembrou ela. — Antes de se mudar para a Casa Branca, ele tinha‑se instalado na casa do seu pai em Hyannis Port. Uma vez, encontrei‑o a olhar para fotografias de agentes dos Serviços Secretos e a virar as fotografias para ler os seus nomes no verso. Perguntei‑lhe o que estava a fazer. “Se estes homens estão dispostos a dar a vida por mim”, disse ele, “devo pelo menos poder tratá‑los pelos seus nomes.”
A primeira semana de Janet na Casa Branca foi desafiante, sobretudo quando ela percebeu que o horário seria das oito e meia da manhã até às dez da noite, ou mais tarde. — Estava mais do que exausta, tanto assim que quase me tornava alheia ao que se passava à minha volta — recordou ela. — Eu queria e precisava de vida própria. Sentia que tinha servido bem o presidente durante os anos frenéticos de campanha e não queria tornar‑me numa prisioneira da Casa Branca, porque é isso que és quando lá trabalhas, com agentes dos Serviços Secretos a poucos metros de ti a criar uma atmosfera de prisão. Bill Lawrence [da equipa de imprensa da Casa Branca] entrou um dia na Sala Oval e ofereceu‑me um comprimido. Era um estimulante, totalmente desconhecido para mim. Tomei‑o por desespero e, à medida que a bomba‑relógio fazia efeito, comecei a voar cada vez mais alto. A campanha foi divertida; aquilo não era.
A Evelyn Lincoln e eu tínhamos secretárias contíguas — continuou ela. — Quando apareceu um artigo no Washington Post que insinuava que o presidente a ia trocar por mim, as coisas ficaram tensas entre nós. Tinha a certeza de que ela estava ressentida comigo. Se ela ao menos soubesse que eu estava a perder o interesse do meu próprio emprego, quanto mais querer o dela…
A principal razão pela qual Janet deixou o emprego de Joe Kennedy foi porque ela queria casar e ter filhos. A Casa Branca, como ela depressa descobriu, não era o lugar para uma mulher de trinta e oito anos que estava a tentar assentar; era um lugar apinhado de homens lascivos em busca de conquistas. Além disso, espalhou‑se o rumor de que ela tinha estado com o temido Joseph Kennedy, o que definitivamente tendia a afugentar potenciais pretendentes. Cerca de um mês mais tarde, Janet entrou na Sala Oval para dizer a Jack que queria sair. Ele sorriu e disse: — Para ser honesto, se soubesse o quão difícil este trabalho seria, talvez não me tivesse esforçado tanto por ele.
Jack percebeu que, para Janet, o problema não era apenas a carga de trabalho, era a impossibilidade de encontrar alguém naquilo que ela chamava “este antro de ladrões”. Jack sempre tinha gostado muito dela, mesmo que não aprovasse a relação que ela tinha com o pai dele. Não podia negar que ela fora muito boa para ele durante muitos anos. Queria ajudá‑la a seguir em frente com a sua vida. Quando lhe perguntou sobre os seus planos, ela disse que queria mudar‑se para Paris para um ano de estudos. Os pais dela eram franceses, explicou ela, e Janet sempre quisera viver lá. Isso deu‑lhe uma ideia. E se ela se tornasse secretária do General James M. Gavin, que ele tinha acabado de nomear embaixador americano em França? — Em cinco minutos — lembrou Janet —, já tinha o emprego.
— Obrigado pela lealdade para com os meus pais durante todos estes anos — disse Jack a Janet no seu último dia na Casa Branca. Jackie estava ao seu lado. Com um sorriso, ele disse que compreendia que não devia ter sido fácil. Depois, beijou‑a na face e disse‑lhe que tinha chegado a altura de ela ter a sua própria vida. — És uma boa pessoa, Janet — disse ele.
Jackie acrescentou então: — Tens de começar a vida da mulher que queres ser.
Meu Deus, pensou Janet. Estas tinham sido as mesmas exatas palavras que a mãe de Jackie dissera a Janet no dia em que os Kennedy se casaram. Ela susteve a respiração em surpresa. — Obrigada, Sr. Presidente — disse‑lhe ela —, e agradeço, Jackie. É precisamente isso que vou fazer.
Agora, enquanto tomava banho, Jack explicava à sua convidada surpresa, Janet, que ele tinha dado cabo das costas ao plantar uma árvore cerimonial no Canadá. Disse‑lhe que a Dra. Janet Travell lhe dera uma injeção de Novocaína, mas que não surtira efeito. Não mencionou que Jacobson também lhe tinha dado uma injeção. Embora a dor não tivesse desaparecido, depois dessa injeção Jack disse que lidava muito melhor com ela.
— Peço imensa desculpa, Sr. Presidente — disse Janet.
— Podes chamar‑me Jack, sabes? — disse‑lhe ele.
— Não. Simplesmente não consigo, Sr. Presidente — disse ela. Embora ela o conhecesse há vinte anos, ele ainda era o presidente, mesmo que, neste momento, estivesse nu e mergulhado numa banheira. Ele sorriu para ela de uma forma juvenil que ela nunca esqueceria. Na verdade, esta foi a última vez que ela o viu.
Enquanto vivia em Paris, Janet descobriu todo um mundo novo, no qual ela se encaixava verdadeiramente, e que não girava em torno do prestígio indireto de um patriarca de família poderoso e rico, com quem ela nunca poderia ter um futuro. Três anos depois da sua estranha conversa com o filho daquele homem numa banheira, Janet DesRosiers casou com Edgar Benjamin Fontaine, que estava no conselho de administração da Delta Steamship Lines. Tendo estado casados durante uns maravilhosos vinte e um anos, educariam dois filhos: “Benji”, do primeiro casamento de Ben, e o seu próprio filho, Andrew.
No momento de escrita deste livro, Janet DesRosiers vive feliz e saudável, com 101 anos de idade.