Era uma vez uma Cidade, que contava com 45 anos de existência e, como qualquer Cidade, tinha um lado Esquerdo, um Centro, e um lado Direito.

Um dia destruíram as nossas casas, aqui do lado Direito da Cidade, perto do Centro. Não é que houvesse muitas casas deste lado, a maioria da população vivia do outro, mas havia pelo menos duas. Rebentaram com as duas… Como se não bastasse, fizeram-no ao mesmo tempo: e agora? Agora não temos casa. Agora construíram outras, mais à Direita, e os que viviam aqui estão meio perdidos… Alguns mudaram-se para as novas, as tais mais à Direita, nem sempre porque gostem mais delas, mas porque não têm outra. Do lado oposto da Cidade, à esquerda, já só se constroem bunkers, começam a circular tanques, e aos poucos vão-se formando pequenos exércitos de intolerantes, que parecem querer acabar de vez com os 45 anos de convivência, respeito e moderação que marcam a história desta cidade dita Democrática.

A culpa não é só deles, dos tais intolerantes que vivem do lado esquerdo. É também nossa, que entregámos as nossas casas da direita a uns iluminados que consideraram ser preciso gente do outro lado para renovar e embelezar o nosso. Uns iluminados que quiseram ser quem não eram, quiseram agradar a todos, venderam-se ao populismo demagogo e desrespeitaram todos os que aqui encontravam uma identidade e um espaço. Quem tudo quer, (…) tudo perde. Os pequenos exércitos de intolerantes têm vindo a ganhar muita força, desde que se cruzaram com um General poderoso que precisava deles, um tal que ninguém sabe bem onde vive, ele próprio não sabe a sua morada, mas certamente será do lado esquerdo da cidade. Desde que o General e os pequenos exércitos se uniram, não param de nos atacar, a nós que vivemos do lado direito, parecem querer impor-se e só descansam quando mandarem na cidade toda.

Deste lado? Já não temos casa, se não a reconstruírem depressa, parece só restar-nos uma opção: ir fugindo mais para a Direita, para onde nem sempre queremos ir, mas ainda vai havendo quem nos respeite. Nós vamos fugindo, mas à medida que caminhamos, ficamos mais cansados, e cada vez menos tolerantes aos exércitos da esquerda. Um dia, eventualmente, tornamo-nos como eles: intolerantes. Depois, vocês já sabem… Não é preciso terminar a estória porque a História ensina-nos o fim.