Sendo a infância uma altura determinante para a construção da nossa saúde mental e a figura maternal aquela que tradicionalmente mais se envolvia nos cuidados à criança, era comum pensar-se que as emoções e os comportamentos das crianças eram geridos apenas pela mãe. Mas será que é mesmo assim?
O papel do pai e a forma como se exerce a parentalidade tem vindo a alterar-se ao longo dos tempos. O pai, a quem competia assegurar que nada faltava do ponto de vista material à família, passando a maior parte do tempo fora de casa e remetendo os cuidados das crianças para as mulheres da família, viu a sua função progressivamente transformada, sobretudo com a necessidade ou a escolha das mães de trabalharem fora de casa.
O pai da atualidade é cada vez mais uma figura ativa e igualitária no desenvolvimento da criança, participando tanto de forma direta quanto indireta. Desde os primeiros meses, está presente no cuidado próximo do bebé, assumindo responsabilidades ao mesmo nível da mãe. Partilha e gere tarefas domésticas, transmitindo valores de igualdade e cooperação, envolvendo-se nos cuidados básicos, assegurando a higiene, a alimentação e o sono. Além disso, a sua interação com os filhos, muitas vezes mais enérgica e turbulenta, contribui significativamente para o desenvolvimento psicomotor e emocional da criança.
À mãe cabe também o papel de dar lugar ao pai, incluí-lo, permitir que esta proximidade se treine e se estreite – quantas vezes não achamos que ninguém cuida melhor dos nossos filhos do que nós próprios?
Em Portugal, esta alteração no paradigma paterno é recente e esta geração de pais é pioneira, tentando fazer com os filhos o que muitas vezes não foi a sua própria experiência.
Um estudo de 2022 constatou que, quando se comparava o cérebro dos pais no pré e no pós-parto, verificava-se uma diminuição no volume de substância cinzenta. Tal significa que há uma reorganização cerebral para que os pais sejam mais eficientes e desenvolvam novas capacidades associadas à parentalidade, formando laços de vinculação com a criança, ainda que não passem pelas alterações hormonais que as mães durante com uma gravidez. Assim, confirma-se a transição para a parentalidade como um período crítico em que a neuroplasticidade se vê aprimorada.
Mas há mais: estima-se que 8 a 10% dos homens sofram de depressão pós-parto e a paterna aparece associada a comportamentos agressivos, assim como a atrasos no desenvolvimento comportamental, emocional e social nas crianças. Perante estes sinais, é fundamental as famílias saberem que podem contar com apoio especializado, junto de profissionais de pedopsiquiatria.
Sem surpresas, a ciência constata a importância dos pais no desenvolvimento infantil e na saúde mental dos filhos.