“Hoje, festa da Raça, também eu, peregrino português, venho tomar assento à lareira carinhosa de Castela. Não devemos nós compreender a Raça como um estrito conceito de ordem étnica, porque seria um imperdoável erro e, além disso, um motivo de exclusão de Portugal”. As palavras são do saudoso e injustamente esquecido António Sardinha e é com elas que abre o seminal livro À Lareira de Castela. 

O chamado Dia de la Raza, posteriormente rebaptizado nos vários países hispânicos de modo a não ferir susceptibilidades, é o dia em que não só a Espanha, senão toda a hispanidade comemora a chegada de Colombo à América. Como se sabe, houve e há por aí historiadores de polpa que pugnam pela origem portuguesa do descobridor. E, embora os diferentes argumentos apresentados estejam bem escorados e alguns sejam inteiramente plausíveis, tão melindrosa matéria mereceria outro artigo mais circunstanciado e não uma mera passagem à guisa de obiter dictum. Para hoje, pelo contrário, importa sobretudo resgatar essa maravilhosa lição de lusitanismo e de peninsularismo dada por António Sardinha.

Aí escreveu o admirável poeta e teórico do Integralismo Lusitano, justamente num artigo intitulado “A Festa da Raça”, que “na festa da civilização hispânica (…) têm também lugar Portugal e o Brasil. Sentemo-nos então no espaço anfiteatro em que tantos povos unidos pelo mais apertado parentesco se agrupam para comemorar a alta e gloriosa origem de que derivam”. Acrescenta pouco depois, referindo-se ao estranho laço que une portugueses e castelhanos, que “Liga-nos aquela unidade substancial”, na frase de D. Rafael Altamira, que, respeitando e consagrando as diferenças eternas em que reciprocamente se exprimem duas soberanias políticas indiscutíveis, nos está convocando do fundo da História para a defesa e para o prestígio dum incomparável património de cultura e ideal, que só na Península encontrou o seu berço”.

Evidentemente, os exemplos mais patentes desta unidade substancial são, por um lado, a empresa dos Descobrimentos, e, por outro, a vocação apostólica e missionária dos dois povos. Porque, se ambos deram mundos ao mundo, através do sucessivo e inquebrantável esforço de inúmeras gerações, convirá não esquecer que levavam sempre consigo, e bem alto, a Cruz. Quão admirável é esta lição!, num tempo em que a generalidade dos espanhóis parece desprezar ou voluntariamente ignorar Portugal e os portugueses não fazem de Espanha melhor conceito senão aquele declarado no famoso provérbio “De Espanha, nem bom vento, nem bom casamento”.

E, com efeito, desta irmandade aferrada aos próprios nervos de cada hispano, dão a História e a Literatura solene e insofismável testemunho. O próprio Camões – que, de resto, é muitíssimo admirado em Espanha, pelo menos desde Cervantes – refere-se aos portugueses nos seguintes termos:

“Ouvido tinha aos Fados que viria

Ũa gente fortíssima de Espanha

Pelo mar alto, a qual sujeitaria

Da Índia tudo quanto Dóris banha,

E com novas vitórias venceria

A fama antiga, ou sua ou fosse estranha.

Altamente lhe dói perder a glória

De que Nisa celebra inda a memória.”.

E, mais adiante, no Canto III, se canta “Eis aqui se descobre a nobre Espanha, /
Como cabeça ali de Europa toda”, volvidas algumas estrofes logo acrescenta “Eis aqui, quase cume da cabeça / De Europa toda, o Reino Lusitano, / Onde a terra se acaba e o mar começa”, pelo que é incontornável que o próprio vate, o mais remontado exemplo de consciência nacional e amor pátrio, via os portugueses como um dos vários povos da Madre-Hispânia – e um que, como se sabe, estava destinado a obras imorredouras. Deste patriotismo peninsular, que não absorve, antes expande o patriotismo português, integrando-o numa Civilização mais vasta, temos em Gil Vicente outro nobre testemunho, quando faz as sereias cantar em castelhano os louvores de Portugal:

“¡Recuérdate, Portugal,

Cuanto Dios te tiene honrado!;

Dióte las tierras del sol

Por comercio a tu mandado;

Los jardines de la tierra

Tienes bien senhoreado,

Los pomares de Oriente 

Te dan su fruto preciado,

Sus paraísos terrenales

Cerraste con su condado.

Loa al que te dió la llave

De lo mejor que ha criado;

Todas las islas ignotas

A ti solo ha revelado”.

 Daí que, e agora voltamos a Sardinha: “Enganam-se (…) os que confundem “unidade” com “unitarismo”. É “una”, sem dúvida, a Península, mas a sua “unidade” alimenta-se da sua “diversidade”. E daí também o curioso episódio descrito numa edição espanhola da poesia de Quevedo, onde se menciona que, entre as decorações erigidas em Madrid no final de 1649 para celebrar a chegada da jovem Mariana de Áustria, com o fito de consumar o seu matrimónio com Filipe IV, encontrava-se uma fonte representando o Parnaso e estátuas de nove “poetas espanhóis”: Séneca, Marcial, Lucano, Juan de Mena, Garcilaso, Góngora, Lope de Vega, Quevedo e o nosso Camões!

Outro curioso testemunho desta superior unidade entre os dois povos é-nos dado pela História. Voltamos a António Sardinha, já noutro artigo intitulado “Pan-hispanismo”: “(…) se escutarmos bem as vozes profundas da nossa tradição, logo veremos que as lutas de Portugal com Castela são lutas de família, que em família sempre se resolveram. Filha de portugueses e como tal descendente do Mestre de Avis e do Santo Condestabre, Isabel-a-Católica venceu em Toro seu primo Afonso V, que, por sua vez, descendia de D. Juan I, – o monarca derrotado em Aljubarrota. Eis uma circunstância que vale como um símbolo (…).”.

Longe vão esses tempos. Portugal já não é essa faixa de terra tisnada pelo ideal e regada pelo mar, espécie de terraço lançado sobre as águas do Atlântico. E Espanha já não é essa dupla e formidável potência marítima e continental.

Mas, talvez mais que nunca, Portugal e Espanha deviam, unidos pela História e pelo mesmo projecto civilizacional, caminhar de mãos dadas e envidar todos os esforços possíveis para reaproximar ambos os povos, bem como lutar para desmistificar todos os rebotalhos de leyendas negras que ainda sobejam por essa Europa germanófila fora. Tão alta empresa devia, é certo, ter o alto patrocínio dos respetivos Governos. Quanto a Portugal, no entanto, “Bem sabemos que, alheio por completo ao nosso passado e à nossa tradição, o Estado português não representa Portugal”, pelo que terá de ser o povo a suprir tamanha falta. Quanto a Espanha, a situação não parece muito melhor, mas tanto a consciência histórica como o respeito da sua independência e soberania não nos permitem emitir o mesmo parecer, embora haja quem, guinchando freneticamente em comícios promovidos extramuros, nela se imiscua quando tinha obrigação de não o fazer.

Todos os portugueses, todos os hispanos, deviam, no entanto, ter de si a ideia que deles fazia o grande hispanista Maurice Legendre: “Quando celebram a Fiesta de la Raza, a 12 de outubro, aniversário do dia em que Colombo chegou ao Novo Mundo, os espanhóis, sem inventar nações cientificamente aventureiras, recordam com legítimo orgulho que a população da península (não se deve separar de Espanha Portugal, cujo papel aqui é particularmente glorioso) criou vinte nações no Novo Mundo: foi necessário que o carácter da população da Península Ibérica fosse singularmente forte para que se transmitisse dessa forma, para que fosse uma tradição viva, para que Espanha e Portugal, repetindo na era moderna o maior prodígio da história da Roma Antiga, pudessem criar um mundo novo que fosse ao mesmo tempo do seu espírito e do seu sangue.” (1).

Enquanto as coisas não mudam e nos vamos conformando com esta sublime mediocridade, um bom Dia de la Raza a todos os hispanos.

(1) Versão original: “Quand ils celébrent la Fiesta de la Raza, le 12 Octobre, anniversaire du jour où Colomb parvint au Nouveau-Monde, les Espagnols, sans se forger des nations aventureusement scientifiques, rapellent avec un legitime orgueil que la population de la péninsule (il ne faut pas séparer de l’Espagne le Portugal, dont le rôle est ici particulièrement glorieux) a créé vingt nations dans le Nouveau-Monde: il a fallu que le caractere de la population de l’Ibérie fût singulièrement trempé, pour qu’il se transmût ainsi, pour qu’il fût tradition vivante, pour que l’Espagne et le Portugal, répétant dans l’age moderne, le plus grand prodige de l’histoire de l’antique Rome, pussent créer un monde nouveau qui fût à la fois de leur esprit et de leur sang”.