Frase do dia: “Estou firmemente convencido de que a Reforma do século XVI foi, tanto quanto uma coisa humana pode ser, um mal puro e sem mistura.” – G.K. Chesterton
A Reforma protestante, que de Reforma não teve nada, foi o início do longo e inexorável suicídio da Europa. Bem sabemos que “Europa”, nos dias que correm, é um termo de múltiplas significações. Mais recentemente, tem designado, por antonomásia, a própria União Europeia enquanto suposta comunidade de “valores”, mais do que um continente. Para que não haja dúvidas, e uma vez que detestaríamos ser acoimados de estrénuos defensores da união das bandeirinhas, a acepção que aqui se tem de Europa é a que foi dada pelo grande Hillaire Belloc: a Europa é a fé e a fé é a Europa.
Este artigo não será propriamente ecuménico nem curto — defeitos ou méritos pelos quais apresentamos desculpas de antemão.
1 Antecedentes e as 95 teses
A Igreja sempre teve de se digladiar com heresias, de tal maneira que, como escreveu Chesterton, nunca houve nada tão perigoso ou entusiasmante como a Ortodoxia. Desde Ireneu, com o seu Adversus Haereses, até ao surgimento de Lutero, são inúmeros os movimentos heréticos que assolaram a Igreja Católica.
Mais próximos de Lutero, temos, por exemplo, o bogomilismo, o catarismo (movimento que foi exterminado pela Cruzada Albigense), o conciliarismo, os Irmãos do Espírito Livre (uma variante bizarra dos adamitas, que davam vazão a toda a espécie de carnalidade), as beguinas e os begardos, os fraticelli, os valdenses, entre muitos outros. Muitos deles irmanavam-se num ideal de pobreza evangélica e na defesa de um retorno à simplicidade apostólica, e alguns já demonstravam sinais de um protestantismo avant la lettre, sobretudo os que rejeitavam qualquer autoridade pastoral e doutrinal da Igreja ou mesmo qualquer intermediação entre o indivíduo e Deus. Por influência de movimentos milenaristas (os joaquinitas terão sido os mais expressivos), também não era raro assistir a multidões de flagelantes a rasgar em sautor as costas, convencidos de que o fim dos tempos estava próximo. Muitos recitavam Mt 4:17: Pœnitentiam agite: appropinquavit enim regnum cælorum (Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus). Este versículo, à guisa de overture teológica, também é mencionado na 1.ª das 95 teses de Lutero.
Sobre as infames 95 teses, diz a tradição protestante (por mais contraditório que seja juntar ambos os termos) que Martinho Lutero, monge agostiniano saxão, tê-las-á pregado na porta da Igreja do Castelo de Vitemberga a 31 de Outubro de 1517. Esta história é, no entanto, um mito criado por Philip Melanchtnon, amigo e sucessor de Lutero, numa biografia escrita 30 anos depois do acontecimento e publicada pouco após a morte do heresiarca, a Historia de vita et actis reverendissimi viri D. Martini Lutheri verae theologiae doctoris. A verdade é mais comezinha: num tom muito devoto, Lutero endereçou uma carta muito humilde a Albrecht von Brandenburg, arcebispo de Mainz, à qual anexou as 95 teses. É importante salientar que, contrariamente ao que se pode pensar, em nenhuma delas Lutero questionou a autoridade do Papa. As teses, que tanta tinta fizeram correr, mais não foram do que proposições para uma disputatio académica sobre práticas abusivas na venda de indulgências, já que Lutero não questionava a legitimidade da venda das indulgências em si. As teses foram, pois, teses para um debate, nada mais. Porque sim, a Igreja debatia. E muito.
Esta aparente graciosidade luterana cedo mudaria. Assim que percebeu que podia contar com o apoio dos grandes nobres alemães, Lutero não tardou a vilipendiar a Igreja, chegando mesmo a queimar a bula Exurge Domine do Papa Leão X. Os dados estavam lançados. Passado pouco tempo, Lutero, já para lá de excomungado, defenderia o uso de toda a brutalidade necessária para exterminar, na grande revolta de 1524-1525, os camponeses alemães que ele próprio havia instigado uns anos antes. O seu escrito “Contra os Camponeses Assaltantes e Assassinos” não envelheceu bem.
É que, como escreveu Leão X, o javali da floresta tinha entrado na vinha do Senhor. As coisas só pioraram.
2 A força do protestantismo
Ninguém conseguia prever o que o futuro reservava. Durante milénio e meio, a Igreja havia asfixiado, decisiva e incontestavelmente, inúmeras heresias ou manifestações de religiosidade centrífugas. Fiel detentora das chaves de São Pedro, tinha erguido uma Civilização onde apenas havia os escombros de Roma. Criara universidades, construíra hospitais, orfanatos e catedrais e levantara um edifício de conhecimento até então desconhecido. Conservara, alumbrando, o melhor da Antiguidade, designadamente o grande templo humano da sua luminosa cultura, enquanto varria definitiva e irremediavelmente todos os vestígios da barbárie romana (a abjecta escravidão, o direito de propriedade que o Pater Familias tinha sobre filhos e membros da domus, os espectáculos de morte dos anfiteatros, etc.) das novas sociedades cristãs.
Não admira, portanto, que em 1517, o papado, mesmo sob fogo de diversas frentes, ainda gozasse de uma superioridade espiritual e moral insofismável, embora essa superioridade tivesse sido conquistada aos trancos e barrancos, depois de grandes disputas com o poder secular. O exemplo mais evidente é a chamada Querela das Investiduras. Por que razão é que o protestantismo foi diferente, sendo assim?
Historiadores economicistas, muitos dos quais marxistas ou meramente marxianos, apontam causas materiais, como não podia deixar de ser. A ascensão de uma burguesia poderosa a quem seria conveniente a libertação do jugo moral da Santa Igreja, por exemplo, ou a invenção da imprensa por Gutenberg, que revolucionou a comunicação. A perspectiva de um eventual confisco dos bens da Igreja, por parte de alguns príncipes, também costuma ser apontada. E realmente foi o que aconteceu, em detrimento de muitos camponeses. Basta ver a revolta de Nils Dackle contra o rei Gustavo I da Suécia.
De outra banda, a redescoberta do direito romano imperial, ainda no alvor da Baixa Idade Média, terá permitido ao poder secular divinizar o poder real, equivalendo-o ao Papado. Este direito divino dos Reis provar-se-ia um respaldo jurídico essencial na fundação de Igrejas nacionais de confissão luterana e na formação da Igreja Anglicana fundada por Henrique VIII. Mais tarde, também daria origem ao chamado Despotismo Ilustrado. Este entrelaçamento entre o luteranismo e o poder secular tornou-se evidente desde muito cedo, pelo menos desde o Protesto de Espira, ainda em 1529, por meio do qual seis príncipes e catorze “cidades-livres” alemãs protestaram contra o Édito do Imperador Carlos V, que anulava a provisória tolerância religiosa que tinha sido concedida aos principados alemães. É daí que surge a denominação “protestantismo”.
Evidentemente que não há uma explicação unívoca do fenómeno. Terá sido, naturalmente, uma confluência de tudo isso e mais. Não podemos deixar de mencionar, no entanto, a proposta explicativa do grande teólogo e apologista espanhol, Jaime Balmes. Segundo Balmes, longe de quaisquer explicações meramente materialísticas, o princípio activo que desencadeou a grande revolução protestante terá sido o princípio do livre exame que Lutero impôs como regra hermenêutica das Escrituras. Era o advento do subjectivismo. Evidentemente, se ele continha em si a semente da dissolução, foi uma proposta muito aliciante para as multidões e não é difícil de perceber porquê. Mais tarde, a escritora romântica francesa Madame de Staël chegaria mesmo a confessar que “o direito a examinar aquilo em que se deve crer é o princípio fundamental do protestantismo”.
O princípio do livre exame, como se sabe, acabaria por gerar anarquia, cisões e aporias de toda a espécie. Como Júpiter devorando os filhos, o princípio de desunião estabelecido pelo novo dogma do livre exame foi autofágico desde o início. Incapazes de fixar dogmas, as várias denominações (seitas) protestantes cedo começaram a discordar umas das outras. Excepto, claro está, no seu desprezo a Roma. No limite, o princípio do livre exame não impede que qualquer pessoa seja a sua própria Igreja, pois permite a cada qual definir livremente o seu credo. Basta ver a autoidolatria moderna – com as selfies, a minha liberdade, os meus direitos, a minha felicidade – para perceber como essa revolução teológica tomou o mundo de assalto. Já Donoso Cortés nos tinha avisado: en toda gran cuestión política va envuelta sempre una gran cuestión teológica.
3 O advento da Modernidade
O protestantismo não foi, pois, uma Reforma nem sequer uma espécie de continuidade lógica do espírito do Renascimento aplicado à religião, como alguns autores ainda sustentam, mas antes um revolucionarismo anómico sem rei nem roque – e, certamente, sem bispo – que convulsionou e virou do avesso o mundo antigo. O que havia começado como uma pequena querela cedo se transformou numa revolução teológico-antropológica. Já não se discutia apenas o poder da Igreja numa instância particular, mas o próprio lugar do homem diante de si mesmo e de Deus.
Porque desenganemo-nos: o mundo moderno é protestante até à medula. Desde o subjectivismo filosófico, que substituiu a ordem do ser pelo primado da consciência, ao individualismo, à secularização, ao culto desenfreado da riqueza – agora vista como sinal de “eleição” ou favor divino, desenvolvimento macabro da teoria da dupla predestinação-, à busca da felicidade como dever absoluto, ao fideísmo e “espiritualismo” difusos, à “soberania” dos povos enxertada pelo liberalismo – tudo isto é absolutamente alheio ao pensamento católico.
Nós é que já nem damos fé, fruto da estranha pervasividade que as ideias teológicas têm nas consciências e sociedades, e sobretudo nas ideias políticas. Portanto não é raro ver “católicos” a defender, mesmo que inadvertidamente, ideias ou desenvolvimentos lógicos de doutrinas protestantes. Ou, o que no fundo é o mesmo, a contemporizar com o mundo moderno, pugnando por um contínuo aggiornamento da Igreja aos “ideais” de cada época. Que, naturalmente, são sempre os seus. Não lhes faria mal ler as prescientes palavras de São Pio X, proferidas na alocução no Consistório Secreto de 1914: “Estamos, infelizmente, num tempo em que, com demasiada facilidade, se acolhem e se adotam certas ideias de conciliação da Fé com o espírito moderno — ideias que conduzem muito mais longe do que se possa pensar, não apenas a um enfraquecimento, mas à perda total da Fé.”. Reparem: à perda total da fé!
Esta conciliação, no entanto, é um facto consumado. É que a modernidade, filha bastarda do protestantismo, é aliciante, dado que todo o mal traz em si a aparência de algum bem. Daí ter triunfado e continuar a triunfar. E por isso é que acontece algo muito curioso, um fenómeno ao qual chamaremos “hemiplegia católica”. Referimo-nos ao carácter contraditório de muitos católicos nominais ou meramente culturais, que vão a Terreiro gritar “Aqui d’El Rei!” e vociferar contra os efeitos nefastos do mundialismo, do multiculturalismo, do capitalismo desorbitado e do individualismo, os Quatro Cavaleiros da Modernidade, enquanto continuam a defender as doutrinas que lhes deram origem, como – não limitando- o liberalismo. Seja porque não aprenderam ou porque foram mal-ensinados, é gente que põe, nas palavras de Vásquez de Mella, “tronos às causas e cadafalsos às consequências”.
Facto é que, numa perspectiva mais ampla, ao retirar a comunidade da economia da salvação, a alma fica sozinha diante de Deus e não tem mediação possível. Daí virá o individualismo. Ao reconhecer o direito de cada qual interpretar livremente as Sagradas Escrituras sem o quadro conceptual da Tradição (Sola Scriptura), surgirão tantas versões de Deus quantas cabeças houver. Daí virá o livre exame e a desagregação social. Ao reconhecer o primado absoluto da Graça (Sola Gratia), ela já não aperfeiçoa a Natureza, como São Tomás de Aquino, a maior inteligência que a Europa alguma vez deu ao mundo, escreveu no início da Suma, mas aniquila-a e redu-la à mais abjecta das servidões. Daí virá a liberdade irrestrita e irresponsável, estranhamente compatível com o determinismo. E ao insistir no primado da Fé (Sola Fide) sobre as obras, os frutos não serão escolas, orfanatos e instituições de caridade, mas fideísmo anti-racional e o pecca fortiter de Lutero. Um cocktail perfeito para o relativismo e egotismo que hoje domina a mente ocidental.
Mas o protestantismo também se infiltrou noutros rincões insuspeitos, como a nossa definição do que será uma “vida bem vivida”. Fizesse-se, por exemplo, um inquérito à tão propalada “geração mais qualificada de sempre” sobre o seu principal objectivo neste trânsito mortal que vai do ventre ao túmulo e aposto singelo contra dobrado que a maioria responderia “ser feliz”, “ganhar bom dinheiro” ou uma qualquer variante dessa mesma ideia. Esta suposição não é estatística nem sequer tem a pretensão de se arvorar a facto sociológico, claro está. Pelo contrário, basta-nos um certo empirismo anedótico e um sereno e desassombrado conhecimento da gente do nosso tempo. Aos que gostem, no entanto, de rastrear ideias e seus desdobramentos, não será difícil entrever, por detrás dessa careta graciosa e cheia de santimónia da felicidade moderna, a sombra austera do seu pai espiritual: a ética secularizada que, em grande medida, nasceu do ventre do protestantismo. Weber e Fromm, um sociólogo e um psicólogo, já demonstraram isso de forma magistral.
Orgulhosos herdeiros daquele revolucionarismo anómico de que falávamos, a felicidade moderna já não se cumpre naquela recta vida alinhada ao Alto e que um dia desaguará na visio beatifica, nem, na existência sublunar, naquela piedade filial cuja consequência é o cultivo das virtudes familiares e pátrias. É que tal modo de vida requer a identificação com uma dada tradição e o acolhimento, ainda que implícito, daquilo a que Chesterton chamou “a democracia dos mortos”. Mas isso implicaria que nos rebaixássemos ao papel de meros elos de uma longa corrente que une os mortos, os vivos e os vindouros, e pelo qual nos entregamos a algo infinitamente maior do que nós. No entanto, as novas gerações veem nisso uma limitação à sua “liberdade” e “autodeterminação”, seja lá o que isso for. Pelo contrário, caídas das cegonhas revolucionárias, julgam-se paridas para uma espécie de génese perpétua, convencidas de que, segundo a lição das Teses sobre Feurbach, têm o direito de transformar o mundo e de, a cada lustro, reencenar uma nova Criação. Mas, presença persistente ao longo dos séculos e força vinda da obscuridade tumular do silêncio, os mortos têm o inconveniente de querer falar porque recusam-se a desaparecer. Uma sociedade que queira subsistir terá, pois, de os ouvir. Qual é, então, o sufrágio dos mortos?
É a velha, pisoteada e pobre Cristandade.
4 Defesa da Cristandade
Já todos ouvimos, ad nauseam, a velha lengalenga segundo a qual a Europa, durante a “Idade Média”, termo absurdo que entra em voga a partir dos humanistas, viveu um suposto período obscuro, quando não tenebroso. Que ninguém sabia ler, que eram todos bárbaros e maltrapilhos, que queimavam bruxas a torto e a direito e torturavam pessoas para preencher as horas mortas. E que essa mesma Europa num dado dia acordou, et voilà, tinha sido iluminada. Pelos renascentistas, humanistas, reformistas e pelos demais -istas e -ismos modernaços. Há quem acredite nisso? Infelizmente, parece que sim. E não são poucos.
Felizmente, a historiografia tem demonstrado que tal percepção é não só inteiramente injusta como demonstravelmente falsa, mais não sendo do que o regurgitar da velha cartilha iluminista por parte de seus orgulhosos herdeiros. Também convém não ignorar que, juntamente a essa propaganda anti-católica anglicana, luterana e calvinista, e mais tarde iluminista, costuma vir a reboque uma certa leyenda negra que pretende denegrir tanto portugueses como espanhóis. A propaganda teve tanto sucesso, sobretudo entre os autoproclamados intelectuais, que muitos portugueses e espanhóis assumiram acriticamente os seus pressupostos e preconceitos. No fundo, é como ter a nossa marca registada pelo adversário. Desconheço maior autoflagelação.
De facto, foi a “obscura Idade Média” que deu à Europa os óculos, os relógios mecânicos, o uso da pólvora, o astrolábio, o compasso, os moinhos de vento, os vitrais, as iluminuras, as catedrais góticas – com os seus arcobotantes, arcos ogivais e abóbadas em cruz -, as universidades, o dualismo ou a distinção entre a ordem religiosa e temporal, a revolução agrícola, a siderurgia, os parlamentos, o aprofundamento da lex naturalis que levaria aos direitos humanos (não no sentido moderno, i.e., os que saíram da Revolução Francesa ou os que mais tarde seriam produto do consenso relativo entre a “comunidade internacional”, senão no sentido em que eles estão inscritos na própria natureza humana) de Bartolomeu de las Casas e da Escola de Salamanca, a origem da Ciência moderna, a escolástica, um certo senhor chamado Dante Alighieri, que é maior do que todos os falsos apóstolos da modernidade juntos e misturados, e, se tal não chegar, a Cristandade ou a união da Europa sob um único estandarte. Eram os tempos da res publica Christiana ou da Christianitas.
Não fosse a União Europeia agressivamente germanófila ou de sinal hiperbóreo e decerto tal conquista não passaria despercebida. O facto é que de Alcobaça a Kells, de Cluny a Weltenburg, toda a Europa, por mais fratricida que por vezes fosse, tinha um estandarte e um estandarte apenas. E foi sob a autoridade moral e espiritual da Igreja que os diferentes povos e Reinos Cristãos sustentaram, durante séculos, a ordem civilizacional que construiu a nossa pobre Europa. Essa empresa comum desmoronou-se depois da Paz de Augsburgo e morreu definitivamente em Vestefália. E agora, então e agora?
Creio que é razoável supor que o actual projecto europeu não durará esse tempo nem coisa que se assemelhe. A não ser, claro, que a Europa volte a ser a fé e a fé a Europa. Mas para tanto teremos de voltar a compreender, com Apollinaire, que “Na Europa és o único que não é antigo ó Cristianismo”. Porque só Ele “faz novas todas as coisas”.
Entretanto, rezemos pela nossa alma pecadora, que mais não podemos. Quem sabe, talvez chegue o dia em que nos cansemos de ser modernos para voltarmos a ser eternos.