“A minha ira é a efervescência da minha piedade”, escreveu León Bloy (1846-1917). E esta sua frase é, bem entendida, a chave para toda a sua vida e obra. Bloy, o poderoso e violento escritor de Le Désespéré e La Femme pauvre, está hoje, no entanto, condenado a um ensurdecedor e injusto silêncio. Em Portugal, não se conhecem reedições recentes. Durante a sua vida, este pobre e grande homem de olhar celestial, simultaneamente cândido e desvairado, também foi alvo do ódio gregário e porcino dos seus contemporâneos. É que “Bloy é uma gárgula de catedral que vomita a água do céu sobre bons e maus”, como escreveu o seu amigo Barbeyd’Aurevilly. E essa chusma emburguesada e adiposa da Terceira República Francesa nunca lhe perdoou nem a dissidência nem a honestidade revulsiva com que Bloy os condenava, sozinho contra o mundo.

Mas enquanto esses escritorzecos de salão arrotavam as suas obras de fancaria, masturbando-se uns aos outros em prazenteira frequentação tertúlica, cada qual lambendo as partes felpudas e sacolejando a perninha de contente a cada encómio, Bloy obedecia a uma vocação superior, cumprindo o que ele considerava ser o estricto dever de um escritor: “dizer a verdade, seja ela qual for e quaisquer que sejam os perigos”.

E se quem diz a verdade não merece castigo, a amarga realidade é que essa gentalha desgraçada não só o cobriu de alcatrão e penas, como fez tudo para silenciar esse panfletário e místico selvagem, esse desapiedado polemista e crítico implacável de todas as hipocrisias. Se o expectável seria os católicos franceses apoiarem Bloy, nada esteve, no entanto, mais longe da verdade. O próprio Bloy confessaria que, as mais das vezes, os católicos eram os seus principais inimigos. Facto que não pode surgir como grande surpresa se pensarmos que foi a época do malfadado Ralliement, na sequência da encíclica Au milieu des sollicitudes do Papa Leão XIII, na qual S.S. apelou aos católicos franceses para que aceitassem as instituições republicanas francesas dessa degenerada Terceira República. Foi talvez o único erro assinalável de Leão XIII. O resultado foi o esperado: começaram a pulular esses católicos enfezadinhos e mornos, para gáudio dos seus inimigos e desgraça de Bloy, o qual, católico e homem de letras consequente, tinha a inconveniência de não se acomodar nem admitir transigências. É que, em temperamentos como o dele, a promessa do Livro do Apocalipse nunca cai em saco roto: “Assim, porque és morno, e não és quente nem frio, vomitar-te-ei da minha boca.”

É por este motivo que o Peregrino do Absoluto, o Mendigo Ingrato – os únicos dois epítetos que atribuiu a si mesmo em dois dos volumes dos seus Diários – “suscita no leitor uma deslumbrante admiração ou uma total rejeição”, nas palavras de Borges (que também escreveria que “Bloy é um dos sete escritores que formam o censo heterogéneo dos autores que continuamente releio”).  E ainda hoje é assim, talvez ainda mais. Bloy não admite meias medidas nem aprovações ou rejeições frouxas. Ou arrebata ou repugna, ou queima as cavidades cerebrais do leitor ao ponto do incêndio ou provoca grandes náuseas, quando não um asco visceral. Para muitos, sobretudo seus contemporâneos, Bloy não era mais do que um rabosano colérico; para outros, seus indefectíveis leitores, um “profeta dos tempos modernos, perante o qual todos os outros parecem mudos. Vitupera melhor do que os profetas; o seu fogo se alimenta de todo o esterco da nossa época”, como escreveu o próprio Kafka.

Os seus detractores – aqui recordo-me dos versos de Dante, “Quem és tu que queres julgar, / com vista que só alcança um palmo, / coisas que estão a mil milhas?” – nunca viram, no entanto, além das aparências, cegueira que explica a rejeição de muitos. Após grande e íntima frequentação, percebemos, porém, que há nas desmesuras e furores hiperbólicos de Bloy a mesma ira divina que fez com que Cristo azorrasse sem piedade os vendilhões do templo ou proferisse duras catilinárias contra a religiosidade farisaica. E Bloy via nesses nababos do seu tempo -com as suas bengalinhas da moda e os seus jantares de Lúculo – os orgulhosos herdeiros dessa antiga beatice hipócrita, os grandes fariseus modernos. Sabia demasiado bem que eles enchiam a boca de Progresso e Ciência enquanto rejeitavam os eternos deserdados do mundo: os pobres.

Não é segredo que Bloy viveu em excruciante pobreza durante grande parte da sua vida. O Desesperado, romance em grande parte autobiográfico, dá nota das duras condições em que ele vivia, dado que Caím Marchenoir, a personagem principal, não é mais do que um trasunto do próprio Bloy. Como bem notou Rubén Dario, o grande poeta nicaraguense e autos de “Los raros”, “O desesperado é o próprio autor, e grita insultando e maldizendo com toda a força do seu desespero”.

É talvez por essa degradante indigência num homem de génio, que às vezes não tinha mesmo dinheiro para comprar um saco de batatas para alimentar a sua família, que a sua fé, apesar de toda a sua deslumbrante luminosidade e força (sobrevivendo mesmo à morte de dois filhos), tem sempre uma certa obscuridade apocalíptica, um certo véu negro para sempre caído sobre a tapeçaria do mundo. Uma fé de Noite Escura, impregnada de babugens, lepras, dores e lágrimas. Nas suas fases de irremediável desespero, a fé de Bloy parece a fé de uma eterna Sexta-Feira Santa, como se Cristo estivesse morto e não houvesse ressurreição possível: “Não chego a sentir o gozo da Ressurreição, porque a Ressurreição, para mim, nunca chega. Vejo sempre Jesus em agonia, Jesus crucificado, e não sei vê-lo de outro modo”.

Mas a verdade é que Bloy nunca desistiu nem perdeu por completo a esperança. Contra tudo e todos, escreveu e rezou. Pelo caminho, criticou um certo clero untuoso e com pouca coragem, vilipendiou os democratas ensandecidos pela ideia do Progresso, e acusou o conformismo e a tartufice das nossas sociedades brutalmente desiguais. Deixou-nos livros terríveis, mas de uma beleza devastadora.
A certa altura, escreveu “Caminho à frente dos meus pensamentos no exílio, numa grande coluna de Silêncio”. É assim que o vejo, caminhando. À frente dos seus e dos nossos pensamentos. À frente de tudo e todos.