Nas últimas duas décadas, fomos habituados a perspectivar um crescimento acelerado na América do Sul, alicerçado no potencial de expansão decorrente da abundância de recursos estratégicos, na retórica da justiça social e na narrativa de defesa dos trabalhadores contra os supostos inimigos do capitalismo e do patronato. Este discurso, levado ao extremo, assumia contornos revolucionários e anti-imperialistas, sintetizados na célebre frase “Pátria, socialismo ou muerte”.

A realidade demonstra, conforme as perspectivas atuais observadas no Brasil, que a muerte chegou ao socialismo; pelo menos, o discurso e os ditos revolucionários desvaneceram-se, prevendo-se que o último a cair seja o principal fundador e presidente de honra do Partido dos Trabalhadores (PT), Luís Inácio Lula da Silva.

Muitos dirão que a direita e o liberalismo constituem a origem de todos os flagelos, mas, na realidade, a frustração de todo um povo latino-americano — que escutou nos últimos tempos discursos de cariz castrista, financiados por petrodólares da Venezuela, permeados por escândalos de corrupção endémicos (a exemplificar o histórico Caso Odebrecht), pela insegurança gerada pela proliferação de grupos narcotraficantes em toda a região e pela corrosão do poder de compra conjugada com o disparado custo de vida — traduz-se numa mudança de paradigma. Abandona-se o dogmatismo ideológico em prol de uma estabilidade económica fundamentada no pragmatismo e no investimento privado.

Em todos estes países, as populações empobreceram, enquanto as nomenclaturas burguesas e afetas ao poder enriqueceram, expatriando as suas riquezas para outros hemisférios, nem os próprios investiram o dinheiro no país em que o tinham “conseguido” (para não usar a palavra roubado). Uma das consequências desta dinâmica é a emigração massiva, cujo expoente máximo se regista na Venezuela, mas com expressões significativas na Colômbia, na Argentina e no Brasil. Os fluxos migratórios motivam-se não apenas pela carência de rendimentos, mas pela incidência sinergética da hiperinflação, do colapso dos serviços públicos, da instabilidade conjuntural e da erosão da segurança jurídica e pessoal.

Deixemos o passado revolucionário e olhemos para a nova realidade de transição e liberdade económica que já se manifesta em todo o subcontinente americano, coadjuvada pelo consentimento dos Estados Unidos e perspectivando-se que a Europa possa beneficiar dos mais recentes acordos bilaterais com o MERCOSUL. Trata-se de uma Europa que acolheu vastas comunidades de emigrantes, onde se estima que o retorno a este continente adquira relevância expressiva, e num contexto em que os investimentos em África não lograram os benefícios esperados. Nestes moldes, as nações do cone sul americano antecipam um crescimento acentuado alavancado no investimento privado, na flexibilização comercial, na salvaguarda das garantias jurídicas e no controlo inflacionário já consolidado em diversas destas repúblicas (Exemplo: Venezuela e Argentina).

Como resultado de todo este processo, perspectiva-se uma melhoria substancial na qualidade de vida e nos índices de segurança de toda a região, afigurando-se como uma oportunidade singular para os investidores. Verifica-se, ademais, uma reorientação geopolítica em que os ventos cessam de soprar em direção à China, à Rússia e a África, redirecionando-se para uma porção de um continente outrora dotado de incontornável centralidade estratégica para a nossa Península Ibérica.