O projecto Libertar a Memória surgiu como proposta ao programa cultural DiVaM – Dinamização e Valorização de Monumentos, promovido à data, pela Direção Regional de Cultura do Algarve cuja 1ª edição de 2023 ocorreu sob o tema Patrimónios (Des)Confortáveis, tendo a sua estreia na Fortaleza de Sagres. A 2ª edição do Libertar a Memória aconteceu em Lagos, apoiada pela CCDR – Algarve e integrada na programação do Núcleo Rota da Escravatura do Museu Municipal de Lagos em 2024.
Nesse sentido foi criado um programa de cinema documental e conversas, com uma curadoria participativa e diversa, num gesto cívico de ouvir e considerar a experiência de outros implicados, directa ou indirectamente, nas questões abordadas mas, ao contrário do que sugere João Pedro Marques, obviamente apartada de objetivos politicamente facciosos ou propósitos propagandísticos.
Não tendo estado presente em nenhuma das sessões, e tendo por base “denúncia” de uma terceira pessoa, da qual nada se sabe, vem João Pedro Marques, 1 ano mais tarde, adicionar este evento à sua cruzada ideológica (que não é nova), baseando a sua argumentação, segundo o próprio, em “sensações” ao invés de um rigor que, com argumentos coerentes e bem fundamentados, a sua profissão, por defeito, assim o obrigaria.
JPM acusa o projecto de falta de contraditório quando o projecto é ele mesmo uma proposta de possível contraditório a outros programas que têm ocupado, esses sim, larga e normativamente, como refere o autor “os aspectos mais positivos da História dos Descobrimentos”. Mas e… onde ficam os outros aspectos? Não será já Portugal um país maduro o suficiente para encarar todos os lados da sua História, tanto os positivos e benéficos como os trágicos e negativos? O que são então os monumentos de Auschwitz-Birkenau ou a ilha de Gorée senão a prova atual de passados problemáticos assim assumidos e relembrados? Vamos dizer que têm a função de denegrir a História da Alemanha ou de África e Portugal?
Não obstante havendo quem se tivesse incomodado com o rumo que tomou a 1ª sessão em Lagos em 31 de Outubro de 2024, (sabemos que se trata de um tema não consensual) houve uma parte maioritariamente considerável do público que viu de uma forma necessária, interessante e positiva a polémica e o debate público que ali se gerou e que se prolongou após as sessões. É já em si, uma escolha propositada, por parte de JMP, dar ênfase às pessoas que, previsivelmente, se sentiram desconfortáveis obliterando, nas suas considerações, todo o resto da audiência que em grande número, aplaudiu de pé e valorizou aquela sessão.
Entristece-me sobretudo que JPM se preocupe mais em criar antagonismos e fomentar a polarização doentia em que nos encontramos, em vez de acolher a importância do testemunho biográfico e de vozes plurais com as quais em democracia se pode conviver e dialogar, mesmo quando não se concorda, sem fechá-las em categorias que frequentes vezes dizem mais de quem as ataca do que sobre quem ou o que atacam.
Numa auto determinada posição de detentor da verdade, ostraciza e lança suspeitas, procurando desqualificar os interlocutores, infantilizar o público e pasme-se, colocar em causa a autonomia de actuação do Município de Lagos deixando “avisos”, através de ironia com laivos intimidatórios, num artigo sobre propostas artístico-culturais, variadas e independentes entre si e que apesar de já com cerca de um ano, JPM faz ressurgir agora, curiosamente ou não, em tempos eleitorais.
A obsessão ideológica de JPM fá-lo fantasiar que, os eventos que menciona no seu artigo possam fazer parte de um plano, “uma tendência para o wokismo”, esse termo importado dos EUA que usa amiúde com um certo facilitismo, numa propensão para encontrar “ameaças woke” em cada esquina, e descredibilizar ou reduzir outros pensamentos e propostas, que não as suas, a um pré-determinado lugar de irrelevância, de erro e de preferência, de emudecimento.
É tudo isto, um oposto caminho ao que, carinhosa e valiosamente, herdei dos tempos da Universidade, das polémicas criadoras de diálogo e da estimulante formação académica,
Certamente que a Câmara Municipal de Lagos não irá, por isto, deixar afectar a sua linha de actuação, nem a coragem e liberdade para continuar a fazer um trabalho autónomo, independente, sem medo de olhar para os dois lados da moeda, traçando um caminho inclusivo à luz das mais recentes abordagens e estudos às temáticas aqui referidas e proporcionar um espaço seguro para que outras e divergentes perspectivas, até há pouco tempo renegadas do espaço e discussão públicas, particularmente em Lagos, possam ser ouvidas e consideradas.
Não irei prolongar este assunto com mais do que seja este meu direito de resposta consagrado na lei, e entendo agora claramente que o motivo pelo qual algumas pessoas optam por não responder a João Pedro Marques, não é por falta de razão ou de argumentos válidos, mas por falta de paciência.