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caderno de apontamentos

Educar para o futuro /premium

Autor
  • Eduardo Marçal Grilo
716

Os jovens portugueses nada devem temer na sua comparação com os de países mais avançados tecnologicamente, mas para poderem “voar” têm que ganhar mundo, ser pró-ativos e não ter medo do futuro.

A grande questão com que se debate a Educação nos dias de hoje é saber se estamos a educar e a formar as nossas crianças e os nossos adolescentes tendo em conta o que os aguarda num futuro mais próximo ou mais longínquo.

Sabemos pouco sobre o futuro. Mas sabemos o suficiente para perceber que os jovens de hoje ou dispõem de uma sólida formação de base ou dificilmente terão condições para singrar num mundo cada vez mais complexo, mais competitivo e mais exigente em relação ao papel que cada um pode desempenhar, como cidadão e como profissional, seja qual for a sua área de intervenção e o seu setor de atividade.

É portanto sobre a formação de base que devem incidir as nossas preocupações.

E o que é uma sólida formação de base? Onde se adquirem os instrumentos, as capacidades, os conhecimentos e os valores necessários para encarar a vida numa sociedade tecnologicamente avançada e em que cada um dependerá cada vez mais de si próprio e não daquilo que possui ou que vai herdar?

Os primeiros responsáveis pela educação dos mais jovens são os pais e a família em que a criança ou o adolescente está inserido. Em segundo lugar estará a escola com os seus professores e todo o corpo técnico e auxiliar que apoia a ação educativa. Em terceiro lugar estamos todos nós, ou seja, todas as instituições e todos os protagonistas de uma sociedade que se quer livre e em que praticamente tudo tem a ver com educação. Da televisão aos jornais, dos editores aos escritores, do cinema ao teatro, das redes sociais aos diferentes meios de comunicação e informação, isto é, todos aqueles que tratam temas mais ou menos relevantes, mas com impacto na aquisição de conhecimentos, na prática dos valores ou na atitude e no comportamento dos cidadãos.

Para uma sólida formação de base entendo que devemos analisar três componentes fundamentais: os conhecimentos, as atitudes e os comportamentos e os valores.

Os Conhecimentos

Em relação aos conhecimentos não me parece que possamos “inventar” muito. Parece indiscutível, pelo menos se formos minimamente sensatos e equilibrados, que o domínio da língua materna é um pressuposto de todas as aprendizagens e que sem este domínio dificilmente alguém poderá compreender outras matérias, para além de que o modo como nos exprimimos e a forma correta como o devemos fazer têm muito a ver com a capacidade para interpretar o que lemos, o que escutamos e o que vemos.

A língua materna é portanto um pilar essencial da formação de base.

Em paralelo com o Português devemos colocar todas as matérias que desde sempre são consideradas como essenciais. Desde logo a Matemática, que é um dos “calcanhares de Aquiles” de muitos jovens, mas que, quando bem trabalhada, constitui uma formação essencial através da qual se ganha o chamado raciocínio matemático, fator estruturante do pensamento e da forma como se abordam os problemas, em particular as questões mais complexas. Aliás aquilo a que chamamos muitas vezes o raciocínio computacional não é mais do que um método matemático em que uma questão complexa é fragmentada em problemas mais simples que podemos estudar e para os quais tentamos encontrar o algoritmo capaz de os resolver. Mas para além da matemática não é hoje possível obter uma boa formação se não conhecermos a terra em que vivemos e a História em muitas das suas facetas principais. Temos que nos familiarizar com os problemas inerentes ao nosso planeta, assim como temos que ter uma ideia do que somos e do fomos, bem como conhecer a evolução da humanidade, o modo como chegámos aos dias de hoje, a história das ideias, das religiões e das grandes instituições e ainda a história económica com os seus equilíbrios e desequilíbrios ao longo dos últimos séculos. Não temos que ser geógrafos, antropólogos ou historiadores, mas temos que ter um conhecimento aprofundado sobre o “caminho” que se trilhou desde o aparecimento do Homo Sapiens até aos dias de hoje.

Mas se o Português, a Matemática, a Geografia e a História são áreas fundamentais, não o são menos as Ciências Experimentais como a Física, a Química ou a Biologia, que nos dão os conhecimentos que os seres humanos foram adquiridos e que estão na origem das grandes mudanças a que temos vindo a assistir.

Para quem tem de estabelecer os conhecimentos que devem ser ministrados nas escolas a dificuldade está em encontrar o núcleo de conhecimentos mais relevantes que sirva de base para que o jovem estudante se aperceba, não apenas dos fundamentos dos fenómenos físicos, químicos ou biológicos, mas também da complexidade e da correlação existente entre estas ciências em que o ser humanos tem vindo a progredir acumulando um conhecimento que constitui hoje um património de valor e significado incalculáveis para o futuro da humanidade.

Igualmente relevante para a educação e formação são as áreas da Música, das Artes e das Expressões Plásticas através das quais se ganha o sentido estético, a consonância dos sons, a harmonia das cores, a ideia de beleza e sobretudo o papel que a criatividade pode representar como tradutora do talento que está muitas vezes oculto quando não se tem um contacto com a música ou com as artes sejam estas a pintura, a escultura ou qualquer outra forma de expressão, designadamente as que foram criadas com as novas tecnologias.

A formação de base implica também que o jovem estudante seja confrontado com uma componente dedicada às tecnologias mais avançadas, não apenas para poder utilizar os diferentes instrumentos que estão hoje largamente divulgados e difundidos como meios de comunicação e informação, mas igualmente para desenvolver o raciocínio computacional que está intimamente ligado ao raciocínio matemático como já referi, mas que tem uma especificidade que importa trabalhar e aperfeiçoar.

Não quero terminar esta reflexão sobre as áreas de estudo que considero essenciais para uma boa formação de base sem referir a importância que deve ser atribuída ao “livro e à leitura” tanto pela escola como pela família de qualquer educando.

Fazer de cada jovem um leitor deveria ser um dos objetivos primordiais daqueles que têm responsabilidades no processo educativo dos mais novos. Os pais e os professores têm nesta matéria uma responsabilidade muito particular.

Todos nós fomos influenciados por aqueles que leem e fazem da leitura não somente um meio de aprendizagem, mas também uma forma de sonhar, de viajar e de viver as vidas que gostariam de ter vivido e que os livros podem proporcionar.

Não é fácil nos dias de hoje convencer um jovem a ler quando ele encontra, designadamente nos IPhones e nos Tablets, um conjunto de imagens e de histórias aparentemente mais atrativas do que um livro, que alguns consideram um objeto do passado. Mas os livros, seja em papel ou em formato eletrónico, continuam a ser dos maiores “companheiros” dos seres humanos. Com eles conseguimos saber estar sós e encontrarmo-nos com nós próprios, refletindo, relacionando, sonhando e penetrando em mundos que nenhuma imagem nos consegue descrever.

Se me perguntarem qual seria o maior sucesso de uma escola, eu talvez respondesse: “Se a escola conseguir transformar todos os seus estudantes em leitores conscientes e interessados, então o sucesso foi integralmente atingido”.

As Atitudes e os Comportamentos

Se os conhecimentos são essenciais na formação de base, embora consciente de que estes são apenas o núcleo central e inicial que se adquire nas escolas até aos vinte e dois ou vinte e três anos (partindo do princípio que o ensino superior e a formação profissional se vão generalizando de forma gradual mas efetiva), não é menos verdade que é cada vez mais importante a forma como cada um assume o seu papel e o seu contributo para a vida coletiva, ou seja, as atitudes e os comportamentos que caracterizam a vida de cada um perante a sociedade a que pertence.

É neste sentido que a educação e a formação devem atribuir uma especial prioridade e importância ao “currículo escondido”, onde cabem o prazer de aprender, a iniciativa, a liderança, o sentido crítico, a responsabilidade, o trabalho em equipa, a inovação, a criatividade, o rigor, a exigência e ainda a ideia central de que na atividade profissional importa ser mais pró-ativo do que reativo e que o caminho e a trajetória de cada um dependem menos da sorte e mais do trabalho, do esforço e do empenhamento que se colocam nas tarefas que vai ser necessário realizar ao longo da vida.

Quer isto dizer que nas sociedades mais avançadas, a par dos conhecimentos que são a base do valor de cada indivíduo, é necessário que a escola seja capaz de desenvolver estas “capacidades habilitantes” que constituem um fator valorizado de forma especial pelas organizações ou por qualquer empregador, tanto no setor público como, em particular, no setor privado.

A exigência é talvez uma das características mais relevantes entre todas as que atrás enumerei. Ser exigente significa essencialmente exigir o máximo de si próprio, numa lógica de tentar fazer amanhã melhor ainda do que conseguimos fazer hoje. É competir com nós mesmos, numa tradução do que deve ser uma cultura de exigência, a qual deve começar em casa com os pais a serem exigentes com os filhos e que se prolonga na escola com os professores a serem exigentes com os seus alunos, ao mesmo tempo que também têm que ser exigentes consigo mesmos.

Igual importância tem que ser dada ao sentido de responsabilidade, ao rigor e ao trabalho que se desenvolve em equipa.

Muito poucas tarefas são hoje desenvolvidas através apenas do esforço individual.

Aprender a trabalhar em grupo e sobretudo saber executar uma tarefa complexa através de uma equipa devidamente organizada e com uma liderança forte e determinada é um fator de grande importância na formação de cada um.

Poder-se-á perguntar:  Mas afinal como é que uma escola consegue incutir nos seus alunos este tipo de atitudes e de comportamentos? A resposta não me parece difícil. Precisamos de professores e de lideranças nas escolas que saibam organizar as suas aulas e os seus projetos recorrendo a “estudos de caso” em que os grupos de trabalho possam mobilizar os conhecimentos adquiridos nas diferentes disciplinas, assumindo por um lado o desafio de encontrar soluções para os problemas e por outro procurando de forma responsável defender os resultados alcançados no final do estudo e dos trabalhos.

Os Valores

De pouco servem os conhecimentos se a formação de base não for entendida como uma educação para os valores e feita a partir desses mesmos valores.

Quando falamos em valores referimo-nos concretamente à liberdade e ao saber ser e saber estar, no respeito pelos outros e com um sentido ético que cada um deve colocar em tudo o que faz e que se sobrepõe ao simples cumprimento da lei ou á satisfação das regras que enquadram a sociedade em que se está inserido.

Certamente que o cumprimento da lei é um pressuposto do Estado de Direito em que vivemos, mas o comportamento ético tem que ser um imperativo para que cada um seja respeitado e aceite numa sociedade assente nos valores.

Respeitar os outros em todas as suas dimensões culturais, políticas ou religiosas é a única forma de uma sociedade poder ter um projeto comum de forma a assegurar um certo grau de coesão social.

O combate às desigualdades tantas vezes apregoado, mas poucas vezes cumprido, assenta fortemente na solidariedade que constitui, portanto, um valor fundamental que importa cultivar e consolidar no espírito dos jovens em idade escolar.

Vivemos no momento presente num mundo caracterizado por notícias apresentadas como verdadeiras mas que não passam de falsidades, instrumentos ao serviço de estratégias de manipulação lançadas sempre com intuitos perversos que colocam em risco o sistema democrático tal como o imaginamos no mundo ocidental em que vivemos.

O respeito pela verdade é portanto um outro valor que não podemos deixar de incluir nesta longa listagem de fatores que devem fazer parte de uma sólida educação de base.

É neste contexto das chamadas notícias “fake” que se torna mais importante o sentido crítico que mencionei no capítulo das atitudes e dos comportamentos.

Saber distinguir o verdadeiro do falso é uma virtude que só estará ao alcance daqueles que estejam treinados para o fazer, ao mesmo tempo que se torna essencial saber, em qualquer circunstância, respeitar a verdade e não tratar iludir a realidade que se apresenta perante os nossos olhos.

Refira-se também neste contexto a importância de que se revestem os valores para o exercício da cidadania, numa lógica aliás do que se pode designar como de “múltiplas pertenças”, ou seja, a possibilidade de cada cidadão se sentir ao mesmo tempo, por exemplo, albicastrense, beirão, português e europeu.

Conclusão

Em jeito de conclusão do que escrevi, parece-me importante enumerar os seguintes aspetos essenciais da formação que considero ser a base para que qualquer jovem em idade escolar possa vir a encarar sem medo o futuro incerto e imprevisível que o espera.

  1. Os três elementos descritos – Conhecimentos, Atitudes e Comportamentos e Valores constituem um todo e é como tal que devem ser considerados pelos educadores sejam estes os Pais, os Avós, os Educadores de Infância; os Professores do Ensino Básico e Secundário ou os Professores do Ensino Superior;
  2. Trata-se de um desafio muito exigente que obriga a refletir sobre o trabalho que vem sendo feito tanto nas escolas como ao nível dos responsáveis pela gestão do setor educativo;
  3. Precisamos de olhar para o futuro sem medo, mas com as preocupações inerentes à abordagem de um problema complexo e sensível como é a educação e formação dos mais novos;
  4. Depois de um ano escolar em que o país assistiu atónito a um debate sobre questões educativas que se resumiu à luta pela recuperação de tempo de serviço dos professores, talvez seja importante que se inicie um debate sobre os verdadeiros problemas (e que são muitos) com que se debatem as famílias que olham para o futuro com apreensão e com alguma desconfiança sobre a capacidade que têm globalmente as nossas escolas para preparar os seus filhos com a formação adequada aos complexos problemas que os aguardam no futuro;
  5. Do que conheço das nossas escolas e dos seus responsáveis posso concluir que o país dispõe de recursos humanos com capacidade e dedicação profissional adequados aos desafios que temos pela frente;
  6. O país precisa de se mobilizar para as tarefas da educação e da formação da sua população mais jovem e em particular dos jovens pertencentes às camadas mais desfavorecidas social e economicamente;
  7. Cabe aos responsáveis políticos encontrar a forma de acabar com conflitos inúteis e ter a coragem de negociar entre si as soluções que permitam assegurar que não continuemos numa espécie de “stop and go” que tão prejudicial tem sido para o processo educativo no nosso país.
  8. O desenvolvimento económico de um país ou de uma região depende de múltiplos fatores como a estabilidade política, o sistema de justiça, a simplificação burocrática, a robustez financeira e os apoios à iniciativa privada, sendo que as qualificações de recursos humanos não são por si só o fator que induz o desenvolvimento;
  9. Refira-se no entanto que a Educação e a Formação são hoje reconhecidas como elementos muito relevantes do processo de desenvolvimento económico, em especial por quem conhece bem a relevância do conhecimento, da ciência e das tecnologias nos processos produtivos e nos esquemas de organização e gestão das empresas.
    A ideia de que a Educação, a Ciência e a Investigação são apenas o corolário do crescimento e do desenvolvimento económico constitui um conceito ultrapassado e obsoleto.
    O desenvolvimento e o crescimentos económicos são hoje, em muitos casos, o resultado direto do investimento em ciência e em tecnologia, sendo certo que um número considerável de empresas (mesmo em Portugal onde tudo ocorre com atraso e de forma insipiente) tem a sua origem em jovens que correndo riscos iniciam uma atividade que visa criar novos produtos ou novos serviços ou ainda que permitem produzir de forma diferente, mas mais eficiente, produtos já existentes no mercado;
  10. Os jovens portugueses nada devem temer na sua comparação com os de países mais avançados tecnologicamente, mas para isso e para poderem “voar” têm que ganhar mundo, ser pró-ativos e não ter medo do futuro.

Temos todos a obrigação de trabalhar para que tudo isto seja possível.

Presidente do Conselho Geral da Universidade de Aveiro. Membro do Conselho de Curadores da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS). Presidente do Conselho Estratégico da Futurália.

‘Caderno de Apontamentos’ é uma coluna que discute temas relacionados com a Educação, através de um autor convidado.

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