Relembremos o básico: a tranquilidade, a previsibilidade, a liberdade de circulação, a proteção dos cidadãos, dos mais velhos aos mais frágeis, a noção de segurança e vivência sem agressões, são elementos essenciais do bem estar das populações e das comunidades. Uma sociedade civilizada tem sempre de lutar contra os espaços de violência, onde a lei e as regras não se aplicam, onde a autoridade é intermitente, onde a arbitrariedade e a força do crime – mais organizado ou mais ligeiro – ganham vida própria, e onde o risco e o medo se tornam parte do dia a dia. Não são essas as cidades que almejamos.
O dever das forças de segurança é exatamente levar a cabo iniciativas no terreno para proteger os cidadãos. Tão simples quanto isso. E realizar ações preventivas, cautelosas, periódicas, é a boa prática, aliás regulada e com inúmeros antecedentes e paralelos. A famosa intervenção no Martim Moniz, que tanta celeuma levantou conforme os quadrantes políticos, parece ter afinal seguido os procedimentos adequados para situações com registo continuado de assaltos, violações, tráfico de droga e crimes: resultou da exclusiva iniciativa das forças de segurança e dos próprios critérios destas entidades, foi executada pelos agentes competentes e acompanhada pelo Ministério Público, foi validada posteriormente por instituições conhecedoras, como o Observatório de Segurança Interna; e seguiu os padrões internacionais de entidades de referência, como a Interpol e a Europol. Não há que diabolizar as iniciativas firmes dos agentes de segurança, desde que sejam realizadas com profissionalismo, com autoridade, com as medidas certas, com rigor.
As reações, essas sim, foram extremadas e, claro, em cadeia. Esteve particularmente mal o Presidente da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, que ainda há poucos meses, e semanas mesmo, defendia a necessidade de intervenções robustas perante graves situações de insegurança, mas que no momento de pressão esqueceu a sua obrigação principal – zelar pela tranquilidade dos cidadãos que lhe são próximos. Talvez estes, e outros, de outros bairros e freguesias, registem o ziguezague e a despreocupação. Estiveram ridiculamente mal os que compararam a fotografia da Rua do Benformoso ao gueto de Varsóvia durante os horrores da segunda guerra mundial. Estiveram previsivelmente mal os habitués dos abaixo-assinados que logo vieram falar em pretensos “ataques ao Estado social e de direito”. Esteve mal o líder da oposição, ao criticar panfletariamente “o governo mais extremista” das últimas décadas.
De facto, nesse agitado campo político por onde competem as várias esquerdas, tem sido cada vez mais difícil encontrar as características da moderação, da proporcionalidade e do bom senso. E, sobretudo, nota-se a ausência daquela característica fundamental para o exercício da atividade governativa, tanto a nível nacional como autárquico: o saber escutar as verdadeiras preocupações das pessoas. O futuro próximo tratará de continuar a ilustrar este afastamento crescente da esquerda face às questões do dia a dia dos cidadãos e face aos temas que estes de facto valorizam.
Há que descer à realidade e perceber que a postura humanista, generosa, multicultural que todos defendemos não depende apenas de boas intenções. As soluções concretas implicam promover a efetiva integração dos emigrantes, proteger todos os cidadãos e respeitar a ação das autoridades para garantir um espaço comum seguro. Civilização é isto.