Conheci o Nuno Morais Sarmento na época do Missão Portugal, um grupo de reflexão de jovens quadros que desempenhou um papel na vitória do PSD e de Durão Barroso no princípio dos anos dois mil. O Nuno aparecia por lá, com aquela mistura de curiosidade em saber o que se passava e a sua natural vontade de dominar os acontecimentos, com a sua disponibilidade para detetar o talento e os seus graus de exigência tão próprios. Mas sempre atento e enérgico. E amigo.
A seguir foi a grande, grande aventura da RTP. Uma experiência transformacional, impossível de esquecer. Quem via de fora chamava-lhe reestruturação, nós gostávamos de lhe chamar operação salvamento. Nuno, tu eras uma força impressionante de determinação, capacidade para enfrentar obstáculos, vontade de fazer em grande. Chegaste com fama de impulsivo, mas mostraste firmeza na ação. Os críticos julgavam que vinhas desestabilizar, mas afinal estavas ali para reconstruir. Os adversários apelidavam-te de boxeur, mas acabaram por respeitar a tua visão de fundo.
Estavas no teu auge. Lutaste com todas as forças e ganhaste em toda a linha. No início parecias tão acelerado e atípico, e as tuas opções eram violentamente diabolizadas. Com persistência, conseguiste que as tuas reformas estruturais fossem implementadas. Mais do que isso, o teu modelo para o setor audiovisual vingou nas décadas seguintes. O que tem de ser tem muita força.
Para quem conhece a realidade das empresas públicas e o exercício da função acionista pelo Estado ou pelas autarquias, a tua forma de liderar continua um exemplo: sabias definir o caminho estratégico, escolhias com cuidado as equipas, apoiavas sem pestanejar nas horas difíceis (a bem dizer, gostavas de crises), fixavas metas ambiciosas, cobravas a boa execução, transmitias convicção nas tarefas, eras generoso a partilhar os méritos. Estava tudo certo e hoje tenho isso muito presente.
Depois, foi a vida a acontecer. Conversar contigo era estimulante e complexo, pela tua inteligência, pela tua vontade em pensar no próximo, mas também pelas tuas teimosias e ideias cerradas. Eras um osso duro de roer e gostavas de ser assim. E os teus infernais horários e atrasos? Eu dizia que para almoçar contigo tinha de tirar a tarde inteira, e depois ainda acabávamos noite dentro, lembras-te? Assinaste a minha ficha de adesão ao PSD, lembras-te? E depois passaste a vida a dar-me conselhos. Tivemos dois ou três momentos de desencontro. Claro que te rias das situações e valorizavas quem tinha personalidade. Eras excepcional na leitura política, mas também, e sobretudo, na leitura da natureza humana.
Foste um tipo formidável. Fora da norma. Fizeste imensas coisas. Foram muitos combates, e dos grandes. Foste sempre brilhante, intenso, empenhado, inteiro. Já estou com saudades de tantas aventuras.