Setembro arrancou com clima pré-eleitoral, em que a campanha às eleições legislativas e os debates televisivos com os protagonistas partidários a prometerem reformas de fundo para um Portugal mais próspero e mais desenvolvido a curto prazo. É também nesta época, onde muitos apelam atenção aos seus problemas, que os mesmos políticos que prometem agora mudança, não conseguiram soluções até então.

Exemplo desta reivindicação aos políticos, é a “carta aberta” escrita pelo Bastonário da Ordem dos Médicos Dentistas (OMD) e que foi publicitada, e certamente bem paga, num semanário de renome nacional.

Condenável é que a “carta aberta” que o Bastonário dos Médicos Dentistas assina e reivindica aos políticos Portugueses exponha toda uma retórica antiga e gasta em que, teimosamente e erroneamente, insiste e que só destaca a seu esvaziamento de ideias e a sua capacidade de atuação.

Até porque este Bastonário dos Médicos Dentistas, desempenha o seu cargo há mais de 19 anos, tempo suficiente para conhecer bem a política e os políticos, pelo que seria altura de admitir estar a ser cúmplice de medidas e políticas erradas implementadas em saúde oral e que são nada dignificantes para os seus colegas de profissão.

Mas sem sombra de dúvida, poderá o Bastonário ter confundido que a campanha que corre até ao próximo 6 de Outubro, afinal não é para as eleições legislativas e este seu entusiasmo reivindicativo em formato de “carta aberta” pelo menos consiga apaziguar os ânimos dos seus colegas, que começam a pensar em alternativas ao seu posto nas eleições à Ordem dos Médicos Dentistas, que se avizinham já para o próximo ano.

Lamentável é que nesta mesma semana em que o Bastonário dos Médicos Dentistas escreveu uma vetusta “carta aberta” aos políticos, se tenha esquecido, uma vez mais, dos 530 caloiros que ingressaram no mestrado integrado de Medicina Dentária no ensino superior, e que são distribuídos desiquilibradamente pelas sete faculdades nacionais: três universidades públicas e quatro privadas.

À data de hoje pelos números oficias da OMD, ultrapassou-se a barreira do treze mil (13.000) médicos dentistas em Portugal. Há 19 anos quando terminei a licenciatura na Universidade de Coimbra, éramos menos de 4000 Médicos Dentistas e existiam cinco faculdades a nível nacional. Os onze anos de exercício profissional e os mesmos enquanto docente de medicina dentária na Universidade de Coimbra, deram-me a visão necessária do enquadramento das expectativas criadas pelas turmas de caloiros que, entretanto, se formaram e se tornaram membros da Ordem dos Médicos Dentistas, encarando inúmeras frustrações perante a realidade no mercado de trabalho e a deterioração da profissão actualmente.

A  organização mundial de saúde (OMS) recomenda um rácio de 1 médico dentista para 2000 habitantes, hoje em Portugal, temos o rácio de 1/900, portanto temos mais do dobro dos profissionais do que esta organização mundial recomenda. Daqui resultam naturalmente dificuldades de empregabilidade e/ou precariedade de trabalho. Empurrando todos os anos um número muito elevado de cidadãos, profissionais de alto nível científico e profissional, mesmo equiparados aos mais evoluídos do mundo (segundo a recente carta aberta da OMD), naquilo que é uma nítida exportação de recursos altamente diferenciados, com perdas sociais e financeiras para o país, dado o elevado custo da formação na área da saúde e em particular da medicina dentária. Não se pode confundir a livre opção de escolha de um país do mercado comum ou outro, com a necessidade de fuga ao desemprego, à precariedade ou à inadequada remuneração.

Sirvo-me de um exemplo concreto, a Holanda, país com um PIB muito superior ao de Portugal e com cerca de 17 milhões de habitantes, tem apenas 3 faculdades de medicina dentária que formam por ano 120 médicos dentistas no máximo. Se os políticos e a OMD não tem ideias, porque não ir buscar exemplos concretos de atuação, com resultados demonstrados, em vez de condicionar os profissionais a irem para fora, como já se verifica e discute há pelo menos 10 anos? O que fez a OMD neste sentido?

É esta mensagem que devia ter sido passada ao público, aos dirigentes governativos e aos candidatos do ensino superior, não só agora mas ao longo dos últimos 10 anos, numa transparência de dados concretos sobre o sector, para que as escolhas sejam tomadas de livre arbítrio mas em consciência e com uma visão e compromisso de futuro.

Se assim não for, podemos dizer quase ironicamente os caloiros que agora ingressam no ensino superior nos cursos de Medicina dentária que podem correr um sério risco de vir a ter uma praxe dupla. A primeira que é cada vez mais controversa, mas que visa a integração e harmonia e espirito académico; e uma segunda praxe certamente bem mais prolongada e agonizante e que vislumbra um futuro profissional de plena frustração, testemunhando uma deterioração da profissão de Médico Dentista que ninguém soube defender, nem a Ordem dos Médicos Dentistas acautelar.

Licenciado em medicina dentária e mestre em saúde pública pela faculdade de medicina da universidade de Coimbra; MBA pela AESE/IESE Universidade de Navarra.