Num tempo em que a identidade das nações se encontra sujeita a múltiplas recomposições – políticas, económicas, culturais e espirituais – importa regressar às raízes fundantes que moldaram, no longo curso da História, o modo como um povo se compreende e se projeta no mundo. A nossa abordagem opta por fazê-lo pela via da “religião”, que, na sua pluralidade de manifestações e significados, não é apenas um conjunto de crenças, ritos ou doutrinas; é, antes de mais, uma gramática do sentido e de comunhão, uma forma de o ser-humano se situar perante o mistério da vida, os outros e o transcendente.
No caso português, essa raiz é, incontestavelmente, a fé cristã, em particular a sua configuração católica. Este não é um mero dado histórico ou sociológico: é um traço matricial que entrelaça o nascimento da pátria com a gramática da esperança cristã, a construção do bem comum com os valores evangélicos, e a vocação nacional com a missão universal da Igreja. Vamos, pois, debruçar o nossos olhar sobre a centralidade da religião católica na formação da identidade de Portugal, discernindo, nos acontecimentos, figuras e discursos que atravessam os quase nove séculos de história nacional, o fio condutor de uma presença eclesial que deu forma à cultura, inspirou a ação política e infundiu sentido espiritual à aventura portuguesa no mundo. Mais do que um olhar nostálgico sobre um passado sacralizado, pretende-se evidenciar a atualidade dinâmica da fé cristã como força transformadora, geradora de comunhão, justiça e fraternidade universal.
1. Uma identidade forjada na fé
Por tudo isto, a História de Portugal não pode ser compreendida à margem da sua matriz religiosa cristã. Desde a génese do país, o catolicismo desempenhou um papel constitutivo da sua identidade coletiva, moldando a sua organização política, inspirando a sua vocação histórica e estruturando a sua imaginação simbólica. A fundação da nacionalidade portuguesa foi lida, desde cedo, como um ato providencial, inserido no desígnio divino. Não por acaso, D. Afonso Henriques, na pena de Alexandre Herculano (1810-1877), é retratado como um “herói medieval que acreditava lutar não só por si, mas por Deus”.
Esta compreensão teologal da história nacional transparece também na hagiografia fundacional, como na Vida de S. Teotónio, onde o primeiro santo português (1082-1162) é figurado como expressão de santidade e proteção divina sobre a jovem nação. Assim se funde o destino político de Portugal com a missão espiritual da cristandade.
2. Portugal: uma nação sacerdotal
O padre António Cordeiro (1641-1722), ao descrever os Descobrimentos na sua História Insulana, não os vê como simples aventuras náuticas, mas como resposta à vocação cristã de Portugal: levar a fé aos confins da terra! Neste sentido, a empresa marítima portuguesa é interpretada como prolongamento do mandato evangélico, de cunho apostólico, que faz do país uma espécie de nação sacerdotal ao serviço da expansão da cristandade.
Francisco Suárez (1548-1617), que viveu e ensinou em Portugal, nas universidades de Coimbra e de Évora, no século XVII, embora seja mais conhecido pelo seu impacto internacional, não deixou de influenciar a conceção portuguesa de missão. Suárez, no seu Tratado das Leis e de Deus Legislador, defende a existência de um direito natural universal, baseado na razão e na lei divina, que vincula todos os povos. Esta visão fundamenta a ideia de que a ação missionária portuguesa não deveria ser mero imperialismo, mas antes transmissão de uma mensagem universal.
3. A ética profética da fraternidade
Este encargo espiritual, que se manifesta desde os primórdios da nacionalidade, encontra novo vigor na ação profética de figuras como o Padre António Vieira. Em sermões como o da Primeira Dominga do Advento, Vieira afirma que Cristo não é só Rei de Portugal, mas Rei do Mundo inteiro e, por isso, todo o homem é seu súbdito. A identidade cristã portuguesa é, assim, percebida como universalizante, denunciadora das injustiças e promotora de uma fraternidade transnacional e transcultural.
Esta tensão ética e profética ressurge em momentos-chave da história recente, como na célebre carta de D. António Ferreira Gomes a Salazar, em 1958. Nela, aquele Bispo ergue-se em nome da justiça social e da liberdade eclesial, denunciando os constrangimentos autoritários e propondo uma reforma assente na doutrina social da Igreja.
4. Cultura, tradição e transmissão da fé
É por isso que a religião, enquanto sistema simbólico e transmissor de sentido, cumpre uma função insubstituível na coesão cultural. Como bem o enuncia a mediologia de Régis Debray, a religião não é apenas um discurso sobre o transcendente, mas um modo concreto de prolongar no tempo aquilo que transcende o efémero, permitindo uma transmissão diacrónica que liga gerações, comunidades e narrativas.
A fé cristã, neste quadro, não é apenas crença interior; é cultura, é linguagem, é identidade narrativa que gera opções políticas e modos de ser e estar no mundo.
5. Da memória à missão global
O Padre Manuel Antunes, já no século XX, reafirma esta vocação universalista de Portugal, propondo uma Igreja aberta ao mundo, promotora do diálogo cultural e religioso. Em sintonia com o espírito do II Concílio do Vaticano (1962-1965) e antecipando os caminhos traçados pelo Papa Francisco na Fratelli Tutti, o Padre Manuel Antunes vê a fé como força ética e cultural capaz de construir a paz e a fraternidade num mundo marcado por fragmentações ideológicas e desigualdades sociais.
Nos nossos dias, e com grande impacto em Portugal, o ensinamento do Papa Francisco leva a retomar este fio condutor ao generalizar ideais que preconizam que a espiritualidade cristã é, antes de mais, a arte do encontro. O encontro, não como abstração, mas como prática de proximidade com os desprezados, com os que habitam as periferias existenciais do mundo contemporâneo.
6. Portugal, espaço de hospitalidade e diálogo
Portugal tem sido, assim um espaço de diálogo inter-religioso e ecuménico, de hospitalidade aos migrantes e de empenho social concreto. A Jornada Mundial da Juventude em Lisboa (2023) foi um sinal eloquente desta capacidade de acolher e de unir sob o signo da fraternidade cristã.
A ação da Igreja em Portugal – na caridade, no ensino, na saúde e na cultura – continua a testemunhar a relevância pública da fé e a reforçar a sua contribuição para a construção de uma sociedade mais justa e solidária. Neste contexto, a religião é chamada a cultivar, ainda com mais afinco, uma atitude de abertura às diversas sensibilidades humanas e culturais, exercendo uma vigilância crítica sobre os seus próprios erros históricos, para que nunca se confunda fé com hegemonia ou verdade com imposição.
7. Uma herança viva
A religião católica não é, pois, um mero vestígio do passado. É um elemento vivo da identidade portuguesa. Não se trata apenas de um património cultural, mas de uma gramática espiritual que continua a inspirar escolhas, valores, políticas e relações.
Portugal é, assim, mais do que uma nação com história cristã: é um espaço cultural onde a fé se faz vida, encontro e missão. A tarefa do presente é, pois, prolongar esta vocação, redescobrindo, em cada tempo, os caminhos concretos da fraternidade evangélica, como contributo português para a esperança do mundo. A maturidade religiosa manifesta-se, precisamente, na capacidade de conjugar a fidelidade ao Evangelho com o respeito pela liberdade de consciência e pela pluralidade do mundo contemporâneo.
[Os artigos da série Portugal 900 Anos são uma colaboração semanal da Sociedade Histórica da Independência de Portugal. As opiniões dos autores representam assuas próprias posições.]