Perceber Bjorn Lomborg como um dos pensadores mais pragmáticos sobre o clima exige afastar-nos tanto do negacionismo confortável quanto do alarmismo performativo. Lomborg não começa por negar o problema, começa por o quantificar. Economista de formação, estatístico por método e obsessivamente focado em custos e benefícios reais, a sua abordagem parte de uma pergunta simples e profundamente incómoda: onde é que cada euro investido salva mais pessoas, mais infraestruturas e mais futuro? É essa recusa em confundir boas intenções com bons resultados que o torna particularmente relevante num debate climático cada vez mais dominado por consensos políticos frágeis e por decisões justificadas com má ciência.
Janeiro e fevereiro de 2026 funcionaram como um teste brutal a esse consenso em Portugal.
O “comboio” de tempestades e depressões, como Ingrid, Joseph, Kristin, Leonardo e Marta, resultou em fenómenos severos, sim, mas perfeitamente alinhados com padrões que a ciência identifica há anos como cada vez mais frequentes e previsíveis. O que falhou não foi a meteorologia. Falhou o Estado. Falhou a preparação. Falhou a capacidade de transformar conhecimento em ação.
Lomborg tem sido claro neste ponto: “Ignoring adaptation is bad science and bad policy.” Ignorar a adaptação não é apenas um erro técnico, é uma escolha política que transfere custos futuros, humanos e económicos, para populações que nada decidiram. Portugal escolheu esse caminho. Apostou quase tudo em políticas de mitigação de impactos simbólicos, muitas vezes desligadas da realidade operacional do território, enquanto adiava sistematicamente investimentos em resiliência básica. O resultado foi visível nas cheias, nos cortes de energia, no colapso das comunicações e na resposta errática da proteção civil.
Depois de cada episódio extremo, surgem estimativas de prejuízos diretos de centenas de milhões de euros, reconstruções de emergência, indemnizações e apoios extraordinários. É dinheiro gasto tarde, mal e sob pressão, quando poderia ter sido investido antes, de forma estruturada e muito mais barata. Lomborg lembra-nos que a adaptação, por meio da drenagem adequada, infraestruturas resilientes e sistemas de alerta eficazes, tem rácios de custo-benefício muito superiores à maioria das políticas climáticas atualmente em voga. Persistir em ignorá-la não é virtude: é negligência.
Os recentes episódios trágicos expõem esta falha de forma quase pedagógica. Cheias recorrentes, zonas críticas identificadas há décadas, relatórios técnicos sucessivos e, ainda assim, uma incapacidade política crónica de agir. A cada novo episódio, repete-se o ritual: surpresa encenada, declarações solenes, promessas vagas. O que não se faz é preparar o território para fenómenos que já não são excecionais. Não se redesenha o escoamento urbano, não se libertam os leitos de cheia, não se coordena seriamente a atuação entre municípios, APA, proteção civil e concessionários de infraestruturas.
A adaptação concreta começa com escolhas pouco glamorosas. Um sistema de comunicações de emergência que funcione sempre, sem exceções, substituindo definitivamente arquiteturas falhadas como o SIRESP demonstrou ser. Um modelo redundante, testado regularmente, interoperável entre as forças e resistente a falhas de energia. A infraestrutura crítica não pode falhar quando é mais necessária.
Continua na mesma forma como eletrificamos o país. Redes aéreas extensas e vulneráveis transformam cada tempestade num apagão anunciado. A eletrificação subterrânea em zonas estratégicas, para servir hospitais, estações de bombagem, centros logísticos e nós de telecomunicações, é um investimento estrutural em resiliência. É caro? Sim. Mais caro do que os prejuízos acumulados a cada inverno? Claramente não.
Passa ainda por uma proteção civil verdadeiramente preventiva, com planos ajustados às especificidades geográficas e locais. O que funciona no Baixo Mondego não é igual ao que se exige em Leiria ou no litoral algarvio. Modelos hidrológicos atualizados, limpeza sistemática das linhas de água, gestão florestal profissional, libertação de zonas inundáveis e pré-posicionamento inteligente de meios deveriam ser rotina administrativa, não exceção mediática.
Mas há uma razão estrutural para que isto não aconteça: falar destes temas não faz carreira política. Não dá manchetes fáceis, não rende debates televisivos inflamados, não cabe em soundbites. Reformar sistemas de drenagem, investir em redundância tecnológica ou exigir competência técnica na nomeação de dirigentes não gera aplausos instantâneos. Exige tempo, método e responsabilidade.
E por isso escusamo-nos todos. Políticos que preferem o anúncio ao detalhe técnico. Analistas políticos que reduzem tudo à tática eleitoral. Jornalistas que privilegiam o conflito imediato em detrimento da análise estrutural. O resultado é um espaço público dominado por politiquices e frases feitas, enquanto os problemas reais permanecem intactos… até à próxima tempestade (ou qualquer catástrofe).
Há ainda um problema que raramente se discute frontalmente: quem lidera os organismos críticos. Portugal continua a confundir lealdade partidária com competência executiva. A experiência de gestão operacional e a capacidade de integrar ciência aplicada, empresas de inovação e a academia num ciclo de decisão eficaz são frequentemente secundarizadas. Depois surpreendemo-nos quando os sistemas falham sob pressão.
Lomborg insiste que boas políticas climáticas são, acima de tudo, políticas racionais: priorizar o que salva mais vidas e reduz mais danos por cada euro investido. Em Portugal, o consenso político dominante prefere, muitas vezes, a estética da virtude à eficácia da ação. Prefere compromissos grandiosos a reformas discretas, mas estruturais. Prefere medidas “plásticas” a soluções incrementais que resolvem problemas concretos.
Questionar este consenso não é radicalismo. É maturidade democrática. Continuar a ignorar a adaptação, depois do que aconteceu nas últimas semanas, é escolher repetir o erro.
Para quem quer sair da espuma mediática e entrar na substância do debate, a leitura de False Alarm, de Bjorn Lomborg, é um bom ponto de partida. Não como provocação gratuita, mas como convite a uma pergunta essencial que raramente ocupa o centro da política portuguesa: o que é que realmente funciona para proteger as pessoas quando a próxima catástrofe, previsível e recorrente, inevitavelmente chegar?